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Ecos de Umberto

Publicado na edição de 24.02.2016


Joana Belarmino

Nas redes sociais, o perpétuo fluir das notícias segue o seu curso, como o ir e vir das ondas oceânicas. Na maré da semana que passou, assistimos ao desfile das notícias sobre a crise política brasileira, sobre as catástrofes, sobre o antigo romance do ex-presidente FHC. Mais eis que de repente, um fato quebrou a normalidade das ondas noticiosas, chamando a atenção dos frequentadores da cibesfera. No sábado, dois grandes escritores deixaram esse mundo. HarperLee e Umberto Eco. 


As duas notícias saltaram no meio do fragor, e logo alcançaram o topo do interesse dos bilhões de internautas, ganharam milhões de cliques, curtidas, compartilhamentos, milhões de comentários. Habitaram o oceano noticioso por muitas horas naquele sábado. O que mais me causou impacto foi a partida de Eco. Fui buscar na memória, recordações dos meus primeiros contatos com o pensador. Sim, primeiro conheci o teórico da comunicação, nas velhas salas do antigo DAC, onde o professor Fausto Neto nos fazia ler o clássico texto (Apocalípticos e Integrados). Na faculdade, aos poucos ia desbravando os territórios do pensamento do autor. Li Semiótica e Filosofia da Linguagem, li O Signo de Três, Obra aberta, e, nos jornais, alguns dos seus instigantes textos sobre política contemporânea. O nome da rosa foi leitura obrigatória para todos nós. Seu último livro, (Número Zero), comecei a ler no final do ano passado, mas, por conta das muitas obrigações, não passei do segundo capítulo. No livro, na sua engenhosidade narrativa, Eco nos entrega uma arguta crítica sobre o jornalismo, sobre a política, sobre um mundo onde as narrativas tomam o lugar da realidade, um mundo onde a “verdade final” pensada por Peirce não passa de uma quimera quixoteana. 


No centro do livro está um editor de jornais, um escritor sem nenhuma obra de repercussão e um magnata interessado em ingressar no clube de elite das finanças e da política. Para tal intento, coloca a seu serviço, uma redação, uma equipe, para produzir o número zero do Jornal “Amanhã”, o qual de fato não será publicado, mas servirá para que o tal comendador possa fazer chantagem, adentrar ao clube e ampliar seus negócios e suas finanças.

Mas a coisa não pararia por aí, A imaginação de Eco, alimentada talvez por uma filosofia contemporânea que reflete sobre “homens sem qualidade”, habitando esse planeta onde articulam-se negócios, política e comunicação, forja a necessidade de se registrar a operação em um livro. Um livro que fala da experiência de uma imprensa livre, sufocada por processos de extorsão e de chantagem. Uma gigantesca mentira, urdida desde o princípio para alimentar a verdade dos bastidores que movimentam os negócios financeiros e os seus mais importantes artífices.

Não sinto como se Umberto Eco tivesse nos deixado. Os ecos da vasta obra que nos legou são tão profundos, e, tão atuais, que é como se continuássemos em diálogo. Sua crônica sobre a política mundial, e mais que isso, sobre o jornalismo, é tão clarividente, que sua obra aberta é como que a simbólica de um mundo radiografado por esse pensador que soube tão bem nomear as coisas do seu tempo.

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