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Um lugar que não existe mais

Texto publicado na página 2 da edição de 27.01.2016


Joana Belarmino

Às vezes me pego pensando no tempo em que eu vivia numa casa térrea, com suas árvores, seu portão de chapa de ferro, seu comprido beco cimentado, onde tantas vezes ficava conversando e bebendo cerveja com meus irmãos e amigos.

Me recordo sobretudo das tardes em que o carteiro chegava, com seu pacote de correspondências, o cheiro peculiar dos envelopes, a antecipação de notícias que eu degustaria na quietude do meu quarto.

Esse tempo voou, inscrito agora somente nos escaninhos da memória. Vivo num edifício de vinte andares, as correspondências são entregues na portaria, e não há mais notícias de amigos, senão documentos de bancos, contas a pagar, panfletos em abundância com suas propagandas coloridas.

As notícias chegam pelo correio eletrônico, pedaços de informação tão fugazes quanto as notícias que circulam na internet, pipocam nas redes sociais, invadem os portais, com sua breve aura de originalidade.

Notícias de amigos e-ou conhecidos invadem nosso cotidiano numa profusão e numa variedade tão grande de fatos, que não há tempo sequer para a fruição.

Naqueles anos todos em que eu esperava o carteiro, não me recordo de ter recebido notícias ruins. Eram sempre cartas longas, de mais de três folhas, palavras pensadas no fluxo de uma escrita à mão, traçada no tempo dos relógios, das mudanças do clima, o tempo da escrita manuscrita, com suas pausas, seus rituais, a dobra das páginas, o envelope, o selo...

Sei que esse tempo não retornará, que vivemos o que poderíamos chamar de era da mutação tecnológica, na qual, a pressa, a instantaneidade, a profusão de fatos sendo o fato maior, impelem-nos à uma corrida para nos mantermos informados, sabendo de tudo, indagando, fomentando, “No que você está pensando”? “O que está acontecendo”.

As notícias, a maior parte delas, também já não são boas. Você abre janelas virtuais, vasculha por entre os diversos portais, blogs de opinião, perfis de jornalistas. O mal se anuncia em letras garrafais, em manchetes, em colunas de quinze linhas, em 140 caracteres.

Você liga o rádio, a televisão, e de novo é sacudido por um tsunami de notícias ruins, a ganharem a acidez da performance dos âncoras, quando não se inventa uma trilha sonora macabra como enfeite para um cotidiano tirânico.

Cansada desse imenso correio da má notícia, embrulhada com a onda de pessimismo das manchetes, das disputas no facebook, invento um modo de sair de mim, de desligar meus equipamentos eletrônicos, e vou atrás de um lugar imaginado, onde eu tivera antes uma vida. Um lugar onde havia tardes ensolaradas, carteiros com seus envelopes lacrados, cheios de boas notícias.

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