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Além do horizonte

Publicado na edição de 25.02.2016


Martinho Moreira Franco

Assistir a uma aula de Francês ministrada por Dona Maury no velho Liceu Paraibano era como estar em Paris sem sair de João Pessoa. A partir do ritual que ela impunha ao adentrar a sala: os alunos tinham que se levantar e responder, em uníssono, ao cumprimento “bonjour!”, solenemente pronunciado ao lado do “bureau”. Todos, de pé, respondiam, com harmonia realçada pela simultaneidade das vozes: “bonjour!”. Havia, já ali, uma sonoridade parisiense no ar, antes mesmo que se iniciasse a chamada dos alunos, quando cada um respondia “présent!”, alguns tentando caprichar no sotaque que melhor soasse aos ouvidos da professora. No meu caso, tanto caprichei em testes orais ou em cópias de ditado que terminei merecedor de algumas distinções. O privilégio fez com que um ou outro colega de turma, por ciúme ou por despeito, como na canção de Paulo Marques e Ailce Chaves, me tratasse por “filho de Maury”. Só que, em vez de depreciativo, eu considerava o tratamento uma honraria.

Não era apenas o cumprimento da professora (“bonjour!”) ou a resposta dos alunos à chamada (“présent!”) que conferia sotaque parisiense às aulas de Dona Maury. Ela própria tinha um porte francês no vestir, no andar, no sentar-se. Trajava sempre um “tailleur”, no melhor estilo clássico, bem comportado, sem esconder as pernas bem torneadas. Os passos, de tão firmes, eram garbosos. E sentava-se com elegância de majestade. Usava como penteado um coque de apuro irretocável. Não sei se existe atualmente uma atriz francesa com a qual as novas gerações pudessem comparar a postura de Dona Maury. Entre as divas da minha época, lembraria talvez Simone Signoret ou Martine Carol. Ou melhor: Dona Maury tinha, na verdade, a postura requintada de Michèle Morgan, musa do cinema francês nas décadas de 1950 e 60.

Além de todos esses atributos, como ensinava bem! Assim como o meu amigo Carlos Pereira de Carvalho – que foi aluno e, poucos anos depois, colega de Dona Maury no Liceu –, devo-lhe o vocabulário que aprendi em suas aulas e que me permite ler textos e até me aventurar em conversações na língua que ela dominava com maestria. Nunca tirei nota baixa em Francês, mesmo sem extensão do curso na Aliança Francesa, como era frequente. Na realidade, nem seria preciso. Bastava acompanhar a leitura e os exercícios do livro de G. Mauger adotado pelo colégio para conhecer, sob a supervisão de Dona Maury, o básico da matéria. Eu tanto o conhecia que o gordo Flávio Coutinho, mais tarde gerente de cinemas de Luciano Wanderley, passou a me chamar de “Monsieur Martin”. Ainda hoje é assim.

Estranhamente, ao que me lembre, jamais estive pessoalmente com Dona Maury fora da sala de aula ou dos corredores do Liceu. Sabia onde ela morava (no Jardim Miramar), estudei com seu filho João Carlos, conhecia a sua filha Lúcia e as sobrinhas que estudavam nas Lourdinas, mas nunca a encontrei a não ser nos ambientes do colégio. A primeira vez, acreditem, foi uns 50 anos depois daquela nossa bela convivência entre aluno e professora. Foi há pouco tempo, no restaurante panorâmico do Esporte Clube Cabo Branco, em Miramar, numa daquelas festas que Goretti Zenaide organiza para celebrar os gloriosos anos 1980. “Reapresentados” pela anfitriã, trocamos um longo e carinhoso abraço. Sussurrei: “A senhora não mudou nada...”. Ela achou muita graça e devolveu; “Você está ótimo!”. Na semana passada, Dona Maury Albuquerque, aos 91 anos de idade, partiu para dar “Bonjour” bem longe daqui. Além do horizonte, deve ser, onde certamente encontrou um lugar bonito para descansar em paz. C’est la vie!

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