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Até quinta, Dona Maury!

Publicado na edição de 21.02.2016


Martinho Moreira Franco

Dona Carmem foi a minha primeira professora. Ensinava no Grupo Escolar Isabel Maria das Neves, da Avenida João Machado. Como professora primária, guiava os primeiros passos dos seus pequeninos alunos no Jardim da Infância – como então era chamado o que hoje se denomina Maternal (eu prefiro a denominação antiga, de sotaque lírico bem mais poético, mas deixa pra lá...). Foram os ensinamentos de Dona Carmem, na verdade, que me encaminharam para a vida escolar – e para a própria vida, como era (e continua sendo) a função das professoras primárias.

Depois dela, tive como guias as irmãs Maria José e Edazima. Vocacionadas para a alfabetização infantil, as duas montaram sala de aula em alpendre da casa do doutor Jair Cunha e Dona Niná, também na João Machado, transferindo depois o ambiente para um anexo no quintal do bangalô onde moravam na Rua Desembargador José Peregrino, perto dali. Era um espaço aconchegante, pela singeleza das instalações e também pelo esmero com que a zeladora o preparava diariamente para receber a garotada. São esses alguns nomes e lugares que guardo até hoje como lembranças marcantes no lado esquerdo do peito.

São igualmente marcantes em meu coração de estudante outros nomes e outros lugares daqueles bons tempos de aprendizado. Não teria, por exemplo, como esquecer Dona Ivonete (irmã do jornalista Ivonaldo Corrêa) e sua escolinha da Rua 13 de Maio, onde enfrentei luta desigual contra a Matemática, que era o meu Calcanhar de Aquiles. Também não poderia esquecer Dona Alaíde Chianca e a escolinha dela na Avenida Pedro II, defronte ao Mercado Central, e onde me preparei para o temido Exame de Admissão do Liceu Paraibano (graças à preparação, fui aprovado com distinção).

Ah, o velho Liceu Paraibano! Passei ali os melhores anos da minha vida de aluno não tão aplicado quanto os colegas da primeira série ginasial que chegaram ao curso científico (ou ao clássico) em voos diretos. Fiz escalas na primeira e na terceira séries do ginásio, como repetente, e, quando adveio nova turbulência, reprovado que fui no primeiro ano científico, achei melhor embarcar logo no curso clássico. Ia lá trocar Filosofia, Sociologia e Educação Artística por Física, Química e Biologia? Não digo que me dei mal com a escolha, pois passei de ano, mas abandonei em seguida o curso para trabalhar de dia (na Assembleia Legislativa) e à noite (no jornal “Correio da Paraíba”) – mas essa é outra história.

E por que diabos um aluno assim tão pouco aplicado credita ao velho Liceu Paraibano os melhores anos da sua trajetória escolar? Muito simples: porque o Liceu, desculpem o chavão, era um estado de espírito. Mais do que colégio, uma escola de vida. Coubesse parodiar Ernest Hemingway, diria que o Liceu da minha época era uma festa. Com direito a cine clube (o glorioso Charlie Chaplin), biblioteca, salão de jogos (no atuante diretório estudantil) e outras atividades culturais e de lazer de apelo irresistível. Sem contar as práticas esportivas na quadra e no campo de futebol, além da paquera que corria à solta entre rapazes do turno da manhã e moças do turno da tarde, ainda mais durante a “saída das meninas” (final do turno vespertino; as turmas mistas seriam instituídas mais tarde). Ponham festa nisso!

P.S. – Devo confessar que a ideia era reverenciar Dona Maury, minha primeira professora de Francês, falecida segunda-feira passada, no Rio, mas o entusiasmo pela memória do Liceu atropelou a homenagem. Tentarei me redimir na próxima quinta-feira. Dona Maury merece uma coluna só para ela.

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