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Dona Maria José


Martinho Moreira Franco

Não era à toa que eu considerava Milton Nóbrega um irmão. Além das afinidades em pensamentos, palavras e obras, tínhamos em comum um hábito que fazíamos questão de renovar a cada Natal ou a cada passagem de Ano: eu tocava o telefone pra ele, que, de imediato, transferia a ligação a Dona Maria José, quando estavam próximos um do outro, ou fornecia o número de Cruz do Espírito Santo ou de Sapé. E eu sempre a cumprimentava assim: “Aqui é seu filho adotivo...”. E ela sempre repetia: “Ô, Martinho, você é como um filho para mim”. Dávamos belas risadas sublinhando essa familiaridade. Não raro, também trocava cumprimentos com Seu Wilson, só que o patriarca dos Nóbrega reagia diferente: ele não perdia a oportunidade para um chiste, uma piada, uma irreverência, bem ao seu feitio. Eu e Milton nos esbaldávamos com as tiradas do Velho.

Bom, o tempo passou, as ligações começaram a rarear, em parte devido aos reflexos que Dona Maria José perdeu ao ingressar na faixa dos 90 anos, em parte porque Seu Wilson e o próprio Milton se anteciparam à alma bondosa que esta semana partiu ao encontro deles. Movido por tão marcantes lembranças, registro a distinção que Mailson da Nóbrega, filho mais velho de Dona Maria José e Seu Wilson, me conferiu ao endereçar a mensagem a seguir, ditada por ele do exterior quando informado sobre a morte da mãe e se sentiu sem condições de regressar em tempo à Paraíba para o último adeus:

Caro amigo Martinho,

Minha mãe Maria José deu hoje seu último passo para uma outra vida, que espero seja tão bela e profícua quanto a que viveu nestas plagas. Ela merece. Devo quase tudo a ela. Soube vislumbrar, na modéstia de nossa família, o que seria o grande dom que edificaria em benefício deste seu primogênito.

Sim, malgrado as dificuldades das limitadas rendas de costureira, que acrescentava às do esposo, o alfaiate Wilson, ela decidiu que, além do grupo escolar de Cruz do Espírito Santo, eu frequentaria aulas particulares na escola de Dona Inez Cunha. Eu ficava cerca de oito horas diárias estudando, fora o tempo do dever de casa. Era uma dedicação escolar coreana.

Desde muito me dei conta de que a decisão e o esforço de Dona Maria José foram o ponto de partida fundamental da carreira que me levaria, por concurso público, a um lugar no Banco do Brasil, mais tarde ao cargo de Ministro da Fazenda, à posição de colunista em veículos de circulação nacional e ao reconhecimento, também nesse âmbito, como consultor econômico.

Foi ela quem, em momento grave de nossa família, logo após o acidente de caminhão e a longa hospitalização de meu pai – o que nos levou a viver por um tempo dos favores de parentes e amigos -, teve o destemor de abordar o governador Pedro Gondim, que então visitava o mesmo hospital, para relatar o nosso drama. Ela não queria pedir emprego público, mas solicitar ajuda para a continuidade da educação dos dois filhos que mantinha em João Pessoa, eu e Milton Nóbrega, o artista talentoso que nos deixou em 2014, prestes a completar 70 anos. Fomos admitidos, assim, na Casa do Estudante, o que nos permitiu continuar estudando na capital.

Dona Maria José não foi apenas a mãe dos dez filhos que criou com denodo e firmeza. Ela foi também a líder dura e implacável que sabia nos disciplinar. Foi ao mesmo tempo o exemplo e a fortaleza que nos amparava em momentos difíceis. Ela foi, enfim, aquela que batalhou pela melhor educação dos filhos, seu grande legado. Sua imagem, seu carinho e o orgulho, que não escondia, do sucesso de sua prole - cada um a seu jeito - são marcas indeléveis dessa extraordinária mulher que foi minha mãe. Como poucos, ela deixou sua marca nos longos 95 anos que completaria no próximo dia 27 de setembro.

Um abraço, Mailson.

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