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Tereza Rachel

Publicado na edição de 10.04.2016


Martinho Moreira Franco

Guardo na memória três lembranças de Tereza Rachel. Na primeira, corria o ano de 1989, a novela “Que Rei Sou Eu?”, de Cassiano Gabus Mendes, bombava na TV Globo. Certa manhã de sábado, eu e dona Goreti mostrávamos a Praia de Ipanema à minha filha Maria Luiza, que ainda não conhecia o Rio de Janeiro. De repente, não mais que de repente, como no verso de Vinicius de Moraes, vejo não uma linda menina a caminho do mar, mas Ipojuca Pontes puxando uma cadelinha tão cheia de graça que garota nenhuma balançaria melhor naquele pedaço. Chamei-o pelo nome; o susto foi grande: “Martinho, rapaz, é você mesmo?!” Era. O abraço assustou, desta vez, o animalzinho. E começamos a trocar figurinhas, sob as vistas de circunstantes.

Mal atravessamos a pista e tomamos a calçada de uma rua transversal onde ficam bares com mesas a cadeiras ao ar livre, eis que vozes passaram a se manifestar de um canto a outro do quarteirão: “Ei, Ipojuca, cadê a rainha?”. Cobrança generalizada, entre risos e chistes de espírito bem carioca: “Ei, Ipojuca, a rainha ficou no castelo?”. Com direito a trocadilho que um garçom ofereceu de bandeja “Que rainha é essa, Ipojuca?”. Eu fiquei admirado ouvindo aquela demonstração de popularidade de Ipojuca, mesmo sabendo para quem apontava a curiosidade ipanemense. Foi divertido, mas o melhor estava por vir.

É que Ipojuca me puxou pelo braço e conduziu o grupo até o apartamento onde morava com a mulher. O endereço era o mesmo que virou mito na bossa nova: a Rua Nascimento e Silva, aquela mesma da “Carta ao Tom”, de Vinicius (“Rua Nascimento Silva, cento e sete/Você ensinando pra Elizete/ as canções de canção do amor demais...”, lembram?). Lá, demos de cara com Tereza Rachel em trajes de casa, bem à vontade, até mesmo com bobs no cabelo. Este detalhe, aliás, deixou-a incomodada. Tanto que sumiu no corredor, queixando-se em voz alta: “Mas, Ipojuca, como é que você traz visita pra casa sem me avisar?”. Procurei tirar a queixa da cabeça dela: “Mas você está ótima!”, gritei. Quando voltou para a sala (lenço na cabeça), conversou um pouco e, atendendo ao marido, me passou a chave do carro dela (um Monza): “Fique à vontade, Martinho, o carro é seu”. E, acompanhado de Ipojuca, passamos a tarde inteira do sábado mostrando lugares do Rio a Maria Luiza.

A segunda lembrança é da Praia do Poço, aqui mesmo, em Cabedelo. Era também manhã de sábado. Ipojuca trouxera Tereza para um final de semana em João Pessoa e, a meu convite e de Goreti, levou-a ao restaurante Casa de Palha. Biu Ramos, outro convidado, compôs a mesa conosco. Entre cervejas, refrigerantes, caranguejos e camarões, jogamos conversa fora até que Tereza pediu licença para ver o mar. Só que foi, viu e não voltou. Pelos menos nas duas ou três horas seguintes, não. Com o passar do tempo, fizemos conjecturas que iam do “será que se perdeu?” ao sequestro e até ao afogamento. Indo à sua procura, Ipojuca encontrou-a sã e salva conversando numa casa de pescadores. E voltamos para casa felizes como sempre.

Por fim, liguei uma noite de domingo para o Rio, disposto a comentar com Ipojuca uma vitória do Flamengo sobre o Vasco (ele é tricolor, bem entendido). Tereza Rachel, que é rubro-negra, atendeu, disse que o marido havia saído e, percebendo minha euforia, perguntou: “Você é Flamengo, Martinho?”. Respondi, na lata: “Sou Flamengo e tenho uma amiga chamada Tereza!”. Ela soltou uma gargalhada. Juro que igual à da Rainha Valentine. Foi do que mais me lembrei quando soube da sua triste partida.

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