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Rosas e espinhos

Publicado na edição de 30.01.2016


William Costa

Olho para as nove horas brancas e rosas que o sol acaba de abrir no meu jardim. Não sei por que, me vem à memória a frase final do romance Nadja, de André Breton, que li, há muito tempo, salvo engano em um artigo ou epígrafe de livro do escritor W. J. Solha: “A beleza será convulsiva ou não será”. 

Não devo ter lido Nadja com muita atenção– aliás, o livro me foi emprestado pelo próprio Solha -, pois não me recordo da frase por associá-la ao romance do surrealista francês, mas pela citação do autor paulista, radicado na Paraíba, este sim, um dos leitores mais vorazes e de excepcional memória que conheço.

A beleza do mundo me encanta e assustaexatamente por ser fugaz. Efêmera como as nove horas dos meus jarros, que desabrocham no meio da manhã e murcham muito antes do Sol se pôr. Não se pode retê-las, e sim contemplá-las, deixando de lado a vontade de questionar os motivos de sua existência.

Acontece de, às vezes, sentirmos a sensação de que algo maravilhoso irá se revelar a respeito da natureza. Mas permanecemos em suspense, como se não nos fosse permitido romper, pela razão, os limites da intuição. A sensação agrada e desespera, e, também neste caso, o melhor é respirar e relaxar.

Em momentos como este aplaudo em silêncio o cineasta Richard Donner, que dirigiu o longa-metragem O feitiço de Áquila. No filme, o Bispo de Áquila (John Wood) transforma os amantes Isabeau (Michelle Pfeiffer) e Etienne Navarre (Rutger Hauer) em predadores, aprisionando-os em mundos paralelos.

Durante o dia Isabeau transforma-se em uma águia e, à noite, Etienne toma a forma de um lobo. Eles são apaixonados e tentam se tocar no tênue instante que separa a noite do dia, quando ambos voltam à forma humana. Mas não conseguem, sendo este o verdadeiro castigo imposto pelo bispo feiticeiro.

Podemos associar a felicidade à beleza e esta às flores, uma vez que todas são transitórias - como nossas próprias vidas, aliás. E se tudo é passageiro, a alegria também é um estado de espírito momentâneo, como todas as formas de beleza, sendo o seu oposto, ou seja, a tristeza, oriunda dos inevitáveis espinhos.

Na tentativa de ser feliz, exatamente pela certeza dos espinhos, procuro andar pelo mundo atento aos seus jardins, para flagrar o momento de suas flores. Um amigo que encontro é um desses instantes, assim como o verso do poema e o excerto de conto ou romance que, ao lê-los, me emociono.

Cada vez que o mundo me agride, por meio de atos ou palavras, não escondo as lágrimas. Que a terra consuma minhas mágoas, para que, neste húmus sem rancor, vingue a esperança de uma rosa sem espinho. E quando sou eu o agressor, sinto-me como um ladrão que roubou a flor de um jardim celestial.

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