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“Sitônio Pinto marcou época no jornalismo cultural”

Amigos e companheiros de profissão destacam a fortuna literária deixada pelo jornalista e escritor paraibano

por publicado: 23/06/2022 08h53 última modificação: 23/06/2022 08h53
Foto: Edson Matos

Foto: Edson Matos

por Guilherme Cabral*

“Sitônio Pinto marcou época no jornalismo cultural, através das suas crônicas publicadas na imprensa, ao longo da sua trajetória, grande parte delas dedicada à paisagem social e econômica do Nordeste, escritas de forma muito arguta, cujas citações sempre me remetem a Euclides da Cunha, notadamente aqueles dedicados a sua obra Os Sertões”, disse o escritor e artista plástico Chico Pereira, referindo-se ao legado deixado pelo jornalista e escritor Otávio Sitônio Pinto, que morreu aos 77 anos de idade na última terça-feira (21), na cidade de João Pessoa, em decorrência de complicações causadas pela doença de Parkinson.

O jornalista Gonzaga Rodrigues também ressaltou a produção intelectual do saudoso amigo. “Sitônio Pinto tinha uma escrita muito clara e ostensiva, com uma presença, na crônica, muito forte e de estilo particularíssimo. Tenho absoluta convicção que o leitor de Sitônio também será o leitor do futuro, por sua linguagem e espírito peculiaríssimo”, disse ele.

Gonzaga Rodrigues contou que tinha uma afinidade muito grande com Otávio Sitônio Pinto, daí ter ficado surpreso quando soube da morte do amigo. “Após trabalhar como publicitário em Recife, Sitônio Pinto veio para A União quando eu era diretor. Ele tinha um domínio, não digo genial, mas muito particular da linguagem da crônica, que era particularíssima. Vamos sentir falta dele, mas, com certeza, a sua crônica vai continuar lhe dando vida”, afirmou o jornalista e escritor.

Chico Pereira também lamentou a morte de Sitônio. “Perdi um grande amigo. Fica a saudade e a sua obra para a posteridade. Eu diria que Sitônio é um autor a ser estudado, pois só assim compreenderemos como ele conseguia traduzir sua visão intimista das histórias”, afirmou o artista plástico e escritor, que assina – a convite do diretor de Mídia Impressa da Empresa Paraibana de Comunicação (EPC), William Costa – um perfil do amigo publicado no terceiro volume da obra Paraíba na Literatura.

“Sitônio era um grande amigo, que conheci no início dos anos 1960, em Campina Grande. Ele estava no começo de sua carreira como publicitário, trabalhando na empresa Flamunorte, do seu primo, chamado Hélio Sitônio, enquanto eu era desenhista. Eu me tornei amigo dele e da família e nutrimos essa amizade, às vezes distante, mas nunca cessada”, lembrou Chico Pereira.

O presidente do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, Jean Patrício, destacou que Sitônio Pinto prestou “uma grande contribuição para a cultura paraibana”. Ele acrescentou que também foi muito importante o trabalho desenvolvido por Sitônio no IHGP, entidade onde ingressou na década de 1990 e ocupava a Cadeira número 42, cujo patrono é o historiador Horácio de Almeida. “Era um sócio presente na sua militância, tinha um vínculo muito forte com a família e com sua cidade, Princesa Isabel, e deixou um legado muito forte na produção de crônicas na imprensa, nos últimos anos de sua vida”, disse ele, que ressaltou a biografia sobre o músico Sivuca, publicada por Sitônio Pinto. “Pela forma abrangente e didática com que o autor aborda a vida do grande paraibano, trazendo novos elementos da vida de Sivuca que faz deste trabalho um clássico de nossa historiografia”, justificou.

Otávio Sitônio Pinto também ocupou a Cadeira número 30 da Academia Paraibana de Letras (APL), cujo patrono é Santos Estanislau Pessoa de Vasconcelos. “Era um membro ativo, com vários livros publicados, mas tem uma obra muito respeitada, que é Dom Sertão, Dona Seca. A APL tinha grande respeito por ele”, comentou o presidente da entidade, Ramalho Leite.

Contemporâneo de Sitônio Pinto, o jornalista Agnaldo Almeida também ressaltou o livro Dom Sertão, Dona Seca como importante na bibliografia do amigo. “É um estudo sociológico muito bem-feito sobre a situação sócio e econômica da região do Semiárido, para a qual criou a sigla ‘Sair’ nessa obra, diante do entendimento de alguns de que as pessoas deveriam sair dessa região, conhecida pela seca e falta de chuvas. Ele tinha esses lances de juntar siglas e slogans e ele mesmo dizia que foi o criador do slogan ‘Lula, lá’, utilizado como música em campanhas presidenciais de Lula. Ele entendia um bocado de sociologia, de um modo geral, por ser sertanejo, e gostava muito de usar expressões, como ‘lá em nós’, para dizer que era do lugar que a gente vinha. Mas também era talentoso e um excelente cronista e articulista”, disse Agnaldo.

O poeta Sérgio de Castro Pinto observou que o legado deixado por Sitônio Pinto são os livros que o saudoso jornalista e publicitário lançou. “O homem se foi, mas o cronista, o poeta e escritor continua através de suas obras, principalmente Dom Sertão, Dona Seca, que traça um olhar enviesado sobre a realidade do Nordeste e da seca, principalmente. Apesar de ser temperamental, Sitônio era, na verdade, um homem tímido. Eu que li seu discurso, quando tomou posse na Academia Paraibana de Letras. Ele mesmo se considerava tímido”, afirmou o escritor.

Na bibliografia de Otávio Sitônio Pinto estão as obras como Elogio de Eros (teatro); Tremores da terra (artigos); A morte do vice-governador (artigos); Collor, a raposa do Planalto (artigos); Caminhos de Toboso (poemas); Sessão das bruxas (crônicas); Deliciosos (crônicas); A dança do urubu (contos); e o já citado Dom Sertão, Dona Seca (ensaio).

*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 23 de junho de 2022.

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