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Cine-Teatro São José: história de resistência e simbolismo

Equipamento cultural histórico de Campina Grande vai sediar a primeira etapa do 5° Festival de Música da Paraíba, nesta semana

por publicado: 23/05/2022 09h41 última modificação: 23/05/2022 09h41
Foto: Fabiana Veloso

Foto: Fabiana Veloso

por Giovannia Brito*

Um dos primeiros espaços dedicados à arte em Campina Grande é o histórico Cine São José. Fundado em 1945, o local, assim como outros equipamentos do mesmo segmento, integra uma lista dos famosos cinemas de bairro da cidade, que, já no início dos anos de 1900, encantava a sociedade campinense com a exibição de filmes. A sua história é de resistência e simbolismo: hoje, ele está requalificado e passou a ser Cine-Teatro São José, acolhendo múltiplas formas de arte, como o 5º Festival de Música da Paraíba, que acontecerá nos próximos dias 27 e 28. Ele será palco para as eliminatórias da competição, marcando uma de suas primeiras atividades após dois anos fechado por conta da pandemia. A grande homenageada do evento, Marinês (1935-2007), chegou a se apresentar diversas vezes no palco do equipamento.

O São José, edificado no estilo art déco, foi construído pela família Wanderley, que possuía diversas salas cinematográficas na Paraíba e em outras cidades do Nordeste. Diferentemente dos demais cinemas dos seus proprietários, ele foi criado para atender o público das classes B e C, e, assim, proporcionar à sua popularização ingressos mais baratos. Além disso, quando foi planejado, os donos o ergueram em uma área estratégica para atender a audiência do público-alvo. Construído no bairro São José, o cinema se avizinha aos bairros da Liberdade, Prata, Cruzeiro e também ao centro da cidade. Com essa estratégia, o Cine São José foi inaugurado em 10 de novembro de 1945. “Sua primeira sessão foi com o filme Sempre no Meu Coração. Depois, assim como em outras salas de exibição, ele passou a ser palco para shows musicais e espetáculos cênicos”, explicou o professor e coordenador do curso de Comunicação Social da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), Hipólito Lucena.

Uma destacada característica da programação do São José eram as sessões de matinês dominicais. “Com a exibição de filmes popularescos de produções romanas, dos estúdios americanos de Hollywood, chanchadas brasileiras e os dramalhões mexicanos, que não tinham muito espaço nos cinemas da elite campinense”, destacou Hipólito.

Anos depois, o São José também passou a exibir seriados norte-americanos e noticiários, valendo-se do fato de, nos anos 1950 e 60, a televisão não ser tão popular, sendo artigo de luxo nas residências. Mas foi justamente pela popularização da TV, vivenciado nos anos 1970, que o cinema do bairro de São José, começou a ver seu brilho ofuscado, entrando em processo de decadência, ao ter seu público reduzido aos poucos. A direção ainda tentou colocar em prática uma estratégia: priorizar a exibição de roteiros de baixa qualidade ou de apelo popular. “Pornochanchadas brasileiras, comédias dos Trapalhões e os filmes de lutas marciais, sendo inclusive um filme de kung-fu a última exibição, uma plateia de pouco mais de 50 espectadores assistiram”, relembrou Hipólito. Essa última exibição ocorreu em 1983, em seguida suas portas foram fechadas e assim permaneceram por quase 30 anos.

Entretanto, nesse meio tempo, a família proprietária decidiu se desfazer do prédio, vendendo para uma igreja. “A classe artística da cidade tomou conhecimento do fato e se rebelou, não admitindo que o local que deu história a um dos primeiros cinemas de Campina Grande fosse apagado. Os artistas procuraram a professora e ativista cultural Eneida Agra Maracajá e juntos foram até a prefeitura falar com o então prefeito Ronaldo Cunha Lima, para que ele impedisse que o negócio fosse concretizado”, disse a atual diretora do Cine-Teatro São José, Moema Vilar. A iniciativa teve êxito, mas o local permaneceu fechado. Em 1990, passou para as mãos do Governo do Estado, porém, nenhuma iniciativa de reabri-lo foi colocada em prática.

Ato de ocupação

Em 2010, revoltados com o descaso do poder público que abandonou o prédio, fazendo com que o local fosse abrigo para usuários de drogas e moradores de rua, o São José foi inspiração para uma revolução encabeçada por estudantes e artistas.

Após perceber que a situação de um dos patrimônios da cidade poderia ter como fim a ruína, estudantes se movimentaram para ocupá-lo e promover seu reavivamento cultural. “Decidimos ocupar e fazer alguma coisa por aquele espaço, que é tão representativo para toda sociedade. Foi durante debates no Comunicurtas, festival audiovisual promovido pela UEPB, que vimos a necessidade de ocupar e tornar o São José um espaço para música, cinema, teatro e artes plásticas”, disse Moema Vilar, que na época era estudante. “Lembro bem que após tomarmos o espaço, comprei um cadeado e fui responsável por colocá-lo no portão. A partir desse ato, o Cine-Teatro passou a ser novamente das pessoas que realmente passaram a cuidar e usá-lo em favor da arte”, frisou a diretora do equipamento.

Após a ocupação foi feita uma escala de apresentações dando palco a artistas locais e regionais que haviam encontrado um espaço para sua arte. O São José ficou um ano sendo administrado de forma coletiva. Em 2011, em uma iniciativa do Governo do Estado, o local passou por uma requalificação, sendo transformado de cinema para cine-teatro. Também foi promovida uma reforma. Em 2014 ocorreu a reinauguração e a partir disso, ele passou a ser administrado pela Fundação Espaço Cultural da Paraíba (Funesc).

O São José faz parte de uma estratégia da Funesc de interiorizar da cultura. “Ele passa por um processo de reocupação nesse cenário pós-pandêmico. Nesse primeiro semestre, o equipamento recebeu parte da programação do ‘Mês das Mulheres’, realizado pelo Governo do Estado, além de oficinas de formação promovidas pela Funesc”, destacou o presidente da Fundação, Pedro Santos.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 22 de maio de 2022

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