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Erasmo Carlos: morre um gigante gentil

Ídolo da Jovem Guarda morreu, ontem, aos 81 anos de idade, cinco dias após ganhar um Grammy Latino pelo seu último disco

por publicado: 23/11/2022 12h13 última modificação: 23/11/2022 12h13
Foto: Marcos Arcoverde/Estadão Conteúdo Ídolo da Jovem Guarda morreu, ontem, 
aos 81 anos de idade, cinco dias após ganhar um Grammy Latino pelo seu último disco

Ídolo da Jovem Guarda morreu, ontem, aos 81 anos de idade, cinco dias após ganhar um Grammy Latino pelo seu último disco

por André Cananéa*

 

As lágrimas mal secaram após a morte de Gal Costa e Rolando Boldrin, em 9 de novembro, e voltaram a transbordar dos olhos dos fãs de música brasileira, ontem, quando da partida do “Tremendão” Erasmo Carlos, aos 81 anos de idade. De acordo com informações divulgadas pelos principais jornais eletrônicos do país, um dos mais festejados pioneiros do rock brasileiro e ícone da Jovem Guarda foi internado, às pressas, na madrugada de segunda (21) para terça-feira (22) no Hospital Barra Do’r, no Rio de Janeiro, mesmo hospital onde ele permaneceu entre o fim de outubro e início de novembro, com quadro de síndrome edemigênica. A causa da morte, entretanto, não foi divulgada até o fechamento deste caderno.

Cantor e compositor, foi responsável por sucessos como ‘Sentado à beira do caminho’, ‘Minha fama de mau’, ‘Amigo’, ‘Vem quente que eu estou fervendo’, ‘Festa de arromba’, ‘Mulher (Sexo frágil)’, ‘Mesmo que seja eu’ etc., boa parte em parceria com Roberto Carlos, em meio a mais de 600 composições, que formam um legado gigante, vibrante e afetuoso.

Aliás, o “gigante gentil”, apelido que ganhou nos anos 1970 (afinal, ele tinha 1,93m de altura), foi o primeiro do trio mais famosa da Jovem Guarda a partir. Roberto Carlos escreveu em suas redes sociais, ontem à noite: “Minha dor é muito grande, nem sei como dizer tudo o que eu penso desse meu amigo querido, meu grande irmão. Meu ídolo por tudo, pela sua lealdade, sua inteligência, sua bondade, por tudo o que eu conheço dele”. Até o fechamento deste caderno, Wanderléa não havia se pronunciado.


Porém, muitos famosos foram às redes sociais lamentar a partida do músico. Do presidente eleito Lula a outros ícones da MPB, como Maria Bethânia e Djavan, a grupos de rock e duplas sertanejas, passando por atores e atrizes, como Ary Fontoura e Patrícia Pillar, não perderam tempo em lamentar a morte do astro.
Em seus perfis, Milton Nascimento compartilhou a seguinte história: “Ele até salvou minha vida uma vez, na Urca, estava atravessando a rua e não vi o carro vindo. Erasmo saiu correndo e me empurrou bem na hora. Depois, até brinquei com ele dizendo que, se não tivesse morrido atropelado, poderia ter morrido com a força do empurrão dele. Erasmo era coração puro, fiquei muito emocionado quando o encontrei na minha última temporada no Rio, em agosto, quando dediquei o show pra ele. Vai deixar muitas saudades”.

Grammy Latino
Cinco dias antes de morrer, Erasmo Carlos chegou a vencer o Grammy Latino 2022 com seu último disco de estúdio, ‘O futuro pertence à... Jovem Guarda’, lançado em fevereiro deste ano. O álbum do Tremendão com canções lançadas entre 1964 e 1966, mas até então inéditas na voz do autor, foi considerado o “Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa”.
Diretor artístico do projeto, Marcus Preto foi às redes sociais, ontem, e, abaixo de uma foto onde aparece com uma garrafa de vinho chamada Erasmo, que diz ter recebido do músico em 2019, afirmou que “o nome no rótulo era o retrato perfeito da personalidade de quem me dava o presente: Erasmo. Amor e humor, sempre”.

Na postagem, Preto faz menção ao Grammy recebido no último dia 17: “Olhei pra o vinho. Era a hora. Saquei a rolha, enchi uma taça, pedi pra o Danilo tirar essa foto e enviei pra ele (Erasmo) - que logo me ligou de vídeo do hospital com os olhos cheios de lágrimas. ‘Bicho, ganhamos! Tô tão feliz que tô até chorando’. Eu também tava. Brindei com ele, à distância, aquele dia extraordinário que jamais vou esquecer. E é assim que eu quero me despedir desse meu amigo, desse ídolo que me deu tanto na vida: com um sorriso e uma taça de Erasmo na mão. Amor e humor, como ele ensinou”.

Influências do Nordeste
Erasmo Carlos chegou a dizer a este repórter, em entrevista publicada no extinto Jornal Paraíba, em janeiro de 2010, por ocasião da passagem da turnê ‘Rock ‘n’ Roll’ (título de seu álbum lançado em 2009) por João Pessoa, que ‘Sentado à beira do caminho’ é a música pela qual ele gostaria de ser sempre lembrado.

“Estou feliz, pois fiz músicas que são importantes para a vida de muitas pessoas”, declarou, à época. “Se eu for lembrado por ‘Sentado à beira do caminho’, eu vou ficar muito feliz. É a música que é a minha cara, embora ela não traduza o Erasmo, mas é meu maior sucesso e uma música que eu vou cantar para sempre”.

Na época da entrevista, o músico carioca estava com 68 anos e aproveitava a turnê nacional de seu álbum para celebrar 50 anos de carreira. “Nas minhas músicas, mesmo o rock, há muito fraseado nordestino. É a influência que eu tenho. Eu cresci ouvindo Jackson do Pandeiro e Luis Vieira”, disse, citando canções como ‘Mané João’ (“O pessoal do samba-rock diz que (a canção) é um samba-rock, mas se você prestar atenção, vai notar que o fraseado é nordestino”) e ‘Jogo sujo’ (No início da música, quando eu canto ‘Numa carta escondida na manga…’, aquilo é um baião”).

Na mesma entrevista, ele falou sobre Tim Maia (“Ele me ensinou a tocar os primeiros acordes do violão”) e, claro, sobre a Jovem Guarda (“A Jovem Guarda era ingênua, mas era uma ingenuidade da época... mas mesmo os ingênuos não são santos”).

Ele também foi provocado a falar sobre seu livro de memórias, ‘Minha Fama de Mau’, lançado em 2009. “Não chega a ser uma biografia, porque se fosse, eu iria entregar muita gente, magoar muita gente...”, declarou, antes de arrematar: “Biografia só é legal quando a pessoa morre! Aí as pessoas chegam e dizem: -Eu o conhecia, ele era assim, não era assado... mas com o cara vivo, é sem graça”.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 23 de novembro de 2022.

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