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Zé Ramalho mergulha no Nordeste profundo

por publicado: 21/07/2020 11h18 última modificação: 21/07/2020 11h18

 

Segundo o jornalista e pesquisador paraibano Assis Ângelo, corria por volta de 1998 quando, em Feira de Santana (BA), Zé Ramalho topou com uma fita k7 do conterrâneo Flávio José e, ali, descobriu uma das maiores pérolas do cancioneiro oculto do nordeste: “O meu país”. Chamo de “oculto” um conjunto de canções soberbas que nunca chegaram ao grande público, em especial do Sul-Sudeste do país, mas constituem uma verdadeira fortuna da nossa música.

O xote de Livardo Alves, Orlando Tejo e Gilvan Chaves veio ao mundo em 1994 e, quatro anos depois, foi o mosquito que picou o autor de ‘Avôhai’ para que este produzisse um dos seus melhores trabalhos - ou para Ângelo, o melhor disco de Zé: Nação Nordestina.

Lançados há exatos 20 anos em CD duplo pela extinta BMG e nunca editado em LP, Nação Nordestina é um mergulho profundo nas raízes do cantor e compositor de Brejo do Cruz, inaugurando uma fase na discografia de Zé Ramalho não autoral, em que ele relê, à sua maneira, obras de Raul Seixas, Bob Dylan, Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga e até dos próprios Beatles, cujo Sgt. Peppers serviu de inspiração para o projeto gráfico do disco.

Nação Nordestina é um reencontro de Zé com os seus pares, 25 anos depois de ter deixado a Paraíba e alcançado o estrelato. Nesse mergulho, ele encontra obras dos conterrâneos Geraldo Vandré (‘Pra não dizer que não falei das flores’), Fuba e Braulio Tavares (‘Temporal’), Pedro Osmar e Jaiel de Assis (‘Beijo-morte-beijo’), Vital Farias (‘Bandeira desfraldada’), Cecéu (‘Paraí-ba’) e Oliveira de Panelas (‘Esses discos voadores me preocupam demais’).

Também dá voz a obras de Gilberto Gil (‘Lamento sertanejo’, em parceria com Dominguinhos), Petrúcio Amorim (‘Meninos do Sertão’, com Maciel Melo) e Edgard Ferreira (‘Ele disse’), além de emplacar seis músicas próprias, que costuram com as demais um retrato valente, político e social do Nordeste que deu ao mundo essa constelação notável.

Não por acaso, muitas das letras, como ‘O meu país’, seguem atualíssimas, infelizmente: “Um país que perdeu a identidade / Sepultou o idioma português / Aprendeu a falar pornofonês / Aderindo à global vulgaridade / Um país que não tem capacidade / De saber o que pensa e o que diz / Que não pode esconder a cicatriz / De um povo de bem que vive mal / Pode ser o país do carnaval / Mas não é com certeza o meu país…” diz um trecho.

O tom político segue em “Ele disse”, que Jackson do Pandeiro lançou em 1958. Com letra inspirada em carta-testamento de Getúlio Vargas antes de seu suicídio, quatro anos antes, foi escrita por Edgar Ferreira, sindicalista militante e getulista de carteirinha, segundo anotações de Fernando Moura e Antônio Vicente Filho em Jackson do Pandeiro - O Rei do Ritmo. A inclusão da faixa no projeto de Zé Ramalho, segundo Assis Ângelo no comentário faixa-a-faixa que acompanha o CD, “demonstra, para surpresa geral, o respeito e a admiração até então insuspeitos nutridos por um político que soube administrar a coisa pública com brio e exatidão, em prol dos carentes”.

O tom político é permeado pela condição do nordestino raíz. ‘Seres alados’, da lavra de inéditas autorais de Zé, é um contraponto à ‘Lamento sertanejo’ (“Eu quase não falo / Eu quase não sei de nada…”) quando ele canta “Não mais estaremos calados / Como seres alados / Que voam em silêncio”. “(A letra aborda) o sonho do fim da submissão, do jugo, da opressão”, comentou Ângelo. Um dos clássicos de Luiz Gonzaga (em parceria com Guio de Moraes), 'Pau-de-arara' também envereda pela condição do sertanejo, mas do sertanejo vitorioso, que alcança uma condição superior depois de amargar uma sofrida caminhada ("Só trazia a coragem e a cara / Viajando num pau-de-arara / Eu penei, mas aqui cheguei). É a história de muitos nordestinos, e de Zé Ramalho também.

O CD 2 incorpora diversos convidados - todos nordestinos, diga-se de passagem - nesta jornada pelo região. Hermeto Pascoal acompanha Zé Ramalho é uma rara composição instrumental do paraibano (‘Violando com Hermeto’). Elba acompanha o primo em ‘Bandeira desfraldada’, enquanto Ivete Sangalo e Fagner fazem dueto com o anfritrião em ‘Amar quem eu já amei’ e ‘Garrote ferido’, respectivamente. 

Flávio José e a banda Cascabulho encerram o elenco. O primeiro, entoando os versos “Pê-a-pá / Erre-a-ra-í / Bê-a-bá / Paraíba’, que Cecéu compôs em 1979 e ficou no fundo da gaveta até vir à luz na voz de Messias Holanda. A banda pernambucana (ainda com Silvério Pessoa nos vocais) dá suporte à Zé Ramalho em ‘Eu vou para lua’, lançada por Ary Lobo em 1960 e regravada por Genival Lacerda no ano seguinte.

Independente de ser, ou não, o melhor disco de Zé Ramalho, Nação Nordestina, 20 anos depois, permanece um trabalho irretocável (a produção é  de Robertinho do Recife), seja pelo repertório cirurgicamente selecionado, seja pela atualidade das letras e pelo reflexo da condição nordestina, que entra clássico, sai clássico, segue mais-ou-menos o mesmo.

*publicado originalmente na edição impressa de 21 de julho de 2020
  

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