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Quando o cuidador é um familiar

Com o avanço das comorbidades e o agravamento de saúde, geralmente os filhos assumem a função de cuidar dos pais

por publicado: 23/01/2023 12h37 última modificação: 23/01/2023 12h37
Exibir carrossel de imagens Fotos: Arquivo de família Veronica Amaral (E) mora com a mãe Maria da Salette, 89 anos, mas conta com o apoio dos irmãos, como Valéria Amaral (D)

Veronica Amaral (E) mora com a mãe Maria da Salette, 89 anos, mas conta com o apoio dos irmãos, como Valéria Amaral (D)

Por Sara Gomes*

 

O Alzheimer e comorbidades inerentes à velhice trazem mudanças para a saúde física e mental dos pacientes. Com o avanço da condição e agravamento do quadro, pode ser que o idoso precise de acompanhamento contínuo de alguém da família ou de um profissional de saúde para ajudá-lo no cotidiano. No entanto, quando a família não tem condições financeiras de ter o suporte do cuidador, um dos filhos assume este papel.

Ninguém está preparado para acompanhar o agravamento da saúde de qualquer ente querido. No caso do Alzheimer, o paciente sofre alterações cognitivas e comportamentais que fazem com que o idoso não reconheça os familiares mais próximos ou se torne mais agressivo, por exemplo.

A idosa Josefina Queiroz, 83 anos, conhecida como Dona Iná, foi diagnosticada com Alzheimer há 12 anos. A doença foi se agravando para um estágio cada vez mais avançado, mas possui boa condição clínica. Acamada há um ano, Dona Iná interage pouco porque o cérebro não produz mais estímulo.

Ela tem cinco filhos, mas foi sua filha Herta Queiroz que assumiu a missão de cuidar dela na velhice.

Os primeiros anos da doença foram muito conturbados pois a aceitação do Alzheimer é um processo doloroso. Como ela teve que aprender a lidar com esta nova realidade, Herta acabou adquirindo ansiedade. “Eu marquei uma consulta com um cardiologista porque tenho tido taquicardia, deve ser por causa do estresse e ansiedade”, afirmou.

Dona Iná faz fisioterapia domiciliar duas vezes por semana. No momento, Herta não tem condições financeiras de contratar uma cuidadora, pois os gastos com plano de saúde são elevados, cerca de R$ 2.800. “Pago só uma pessoa pra me ajudar a dar banho na mamãe pois ela é muito pesada, então estava prejudicando minha coluna”, finalizou.

Apesar do estresse diário e desgaste emocional, Herta Queiroz sente-se feliz em ver que todo o amor e dedicação resulta no bem-estar da mãe. “Eu me sinto feliz em vê-la bem. Eu costumo dizer que se Deus entregou essa missão é porque ele sabia que eu era a única capaz”, frisou.

Para a psicóloga Danielle Azevedo, os filhos que se propõem a assumir o papel de cuidador são aqueles que referenciam de maneira positiva a figura materna ou paterna. “Os filhos que cuidam dos pais na velhice são movidos pelo sentimento de reciprocidade e gratidão pelo cuidado de uma vida. Quem assume esta responsabilidade não interpreta como obrigação. Logo, o fardo acaba se tornando um pouco mais leve, por mais que a rotina seja cansativa, roubando um pouco do lazer, relações sociais e até o casamento”, analisou.

Os filhos passam a ser provedores dos próprios pais. Quando existe um diálogo entre os irmãos é interessante que se divida as responsabilidades, para que o filho que mora com os pais não se sinta sobrecarregado. “É preciso dividir as obrigações. Um filho fica responsável por levar o idoso à fisioterapia duas vezes por semana, outro cuida da alimentação”, exemplificou.

Veronica Amaral Veras, 62 anos, mora com a mãe Maria da Salette Amaral, 89 anos. Ela conta com o apoio dos irmãos e sobrinhos para auxiliá-la nos cuidados com a matriarca da família. Apesar de Dona Salete ter Alzheimer leve e dificuldade de locomoção devido à osteoporose, a idosa tem boa saúde. “Sempre que preciso comprar comida, por exemplo. Eu aviso a mamãe e escrevo no caderninho para reforçar o lembrete”, contou.

Quando Maria da Salete precisa ir ao médico, Verônica conta com a ajuda dos irmãos Valéria Amaral e Idevaldo Veras. “Minha irmã geralmente é quem a leva ao médico. Se ela não puder, meus sobrinhos ou irmão me dão suporte”, contou.

Valéria e Idevaldo moram próximo da mãe, visitando-a frequentemente. Verônica não se sente sobrecarregada por conta desse apoio diário, tanto emocional como logístico, desfrutando também de momentos de lazer. “Todo domingo de manhã vou à missa, então Valéria fica com mamãe pra eu ter meu momento de comunhão com Deus e socializar com as amigas da igreja”, declarou.

Mesmo que um filho assuma o papel de cuidador na velhice dos pais, o psicólogo e gerontólogo Fabrício Oliveira ressalta a importância de contratar pessoas capacitadas para lidar com o idoso à medida que o estado de saúde for avançando. “Não basta apenas dar amor e carinho, o conhecimento técnico faz toda a diferença. É preciso ter conhecimento sobre administração de medicamentos, como prevenir quedas e como lidar com pessoas com Alzheimer. Se o idoso tiver alguma intercorrência durante a noite, um profissional de saúde prestará os primeiros socorros, diferente de um cuidador leigo”, orientou.

*Máteria publicada originalmente na edição impressa de 21 de janeiro de 2023.

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