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“Um burgo de beberrões”

publicado: 25/05/2026 09h50, última modificação: 25/05/2026 09h50
No tempo dos flamengos, até indígenas do litoral paraibano absorveram vícios vindos do invasor da Holanda, como a atração pelas bebidas alcoólicas
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Pintura de Pieter Symonsz Potter (1597–1652) é uma obra do século 17 que representa um grupo de soldados holandeses num quartel, descansando e bebendo após uma batalha | Imagem: Reprodução/Staatliches Museum Schwerin

por Ademilson José (Especial para A União)*

Muitos dos indígenas potiguaras da Baía da Traição e do litoral da Paraíba que se aliaram e ajudaram os holandeses a conquistar o Nordeste e a constituir o Brasil-holandês (1630–1654), não somente se educaram e aderiram à religião reformada, como também acabaram absorvendo muitos hábitos e costumes, inclusive os nada recomendáveis, que foram trazidos por esses invasores.

Entre esses costumes, o mais marcante foi o da “bebedeira”, no qual, os holandeses eram tão habituados que, na obra Sobrados e mucambos (1936), o sociólogo Gilberto Freyre chega a dizer que, no tempo dos flamengos, sobretudo em Recife, esse vício tomou “um desenvolvimento alarmante”. Algo que tornava a cidade “um burgo de beberrões”, onde até mesmo “pessoas da melhor posição social eram encontradas bêbadas pelas ruas”.

Como gostavam e tinham os holandeses como aliados para enfrentar os portugueses, os potiguaras que abraçaram o calvinismo, inclusive o líder maior, Pedro Poti, viciaram-se ao ponto de serem proibidos pelos missionários europeus de realizarem sozinhos o ritual da Santa Ceia, que incluía vinho. É que, segundo o historiador Frans Leonard, depois do ritual, alguns indígenas não queriam parar de beber.

Quando trata desse tema na sua obra, Tempo dos flamengos, Gonsalves de Mello ressalta que isso era um dos fatores que mais prejudicava a credibilidade de Pedro Poti diante dos europeus, especialmente diante dos inimigos portugueses, que costumavam fazer uso dessa informação para prejudicar a imagem do líder potiguara. Como não gostavam da amizade de Poti com os holandeses, os lusitanos tratavam-no como “um sujeito perigoso e afeito à bebedeira”.

Baseada em outras fontes, no entanto, em sua dissertação de mestrado e na sua tese de doutorado, a pesquisadora Jaquelini Viração pondera um pouco. Diz que o caso de Poti nunca foi do jeito que os seus inimigos espalhavam e que se limitava a “recaídas” em momentos de ócio. Somente quando não tinha tarefas do governo holandês e nem de campo com seus liderados. O fato é que, naquele tempo, a discriminação contra nossos povos originários era muito mais forte que hoje, inclusive entre parte dos próprios holandeses. O que, de certa forma, nem fazia sentido.

De acordo com o polímata pernambucano Gilberto Freyre: “Não há Wanderley que não beba; Albuquerque que não minta; e Cavalcanti que não deva” | Foto: Arquivo Estadão Conteúdo

Como principal influenciador do vício — antes dele os indígenas não iam além de uma cajuína natural —, holandês nenhum tinha moral para repreender nativo sobre bebida. Particularmente depois do governo de Maurício de Nassau (1637–1643), quando os indígenas se tornaram livres e muitos deles tinham até trabalhos remunerados na regência. Pela lei de Nassau, dono de engenho que escravizasse indígena era punido.

A atração do holandês pelo copo era tão conhecida e comentada pela população do Recife e da Frederika (então capital da Parahyba) que, em Casa Grande & Senzala, Gilberto Freyre registra como popular no folclore do povo rural do Brasil-holandês, um ditado relacionado a costumes judeus e a essa questão da bebida no período: “Não há Wanderley que não beba; Albuquerque que não minta; e Cavalcanti que não deva” (Casa Grande & Senzala, 51ª edição, Global, São Paulo, 2006, p. 336).

O Wanderley aqui não é somente um indivíduo, não. Trata-se de uma grande família que, segundo Freyre, era de “descendência holandesa e formada de degenerados pelo álcool”. Inclusive e principalmente o chefe da prole, Gaspar van der Ley, “fidalgo da confiança do conde Maurício de Nassau” e muito conhecido no território do Brasil-holandês, de Sergipe aos confins do Maranhão.

No prefácio à obra Tempo dos flamengos, lançada em 1947 por Gonsalves de Mello, Freyre também faz um comentário, aliás muito bem humorado, sobre um tio seu que era “tipicamente Wanderley... pelo arrastado da voz fanhosa, pela lentidão dos gestos semelhantes aos dos fidalgos arruinados, pelo gosto de bebidas fortes, de cavalos grandes e de mulatas quase negras, faltando-lhe para ser o completo tipo clássico de Wanderley de Serinhaém ou Rio Formoso a gordura flamenga”.

Com base nessas observações de Freyre, Frans Leonard e Gonsalves de Mello, talvez seja razoável supor que a reputação desfrutada pelos neerlandeses seiscentistas tenha sido mesmo legada aos seus descendentes no Brasil. E isto, aliás, é o que vem podendo se constatar melhor nos trabalhos dessa nova geração de pesquisadores surgida a partir da década de 1980.

Um bom exemplo desses trabalhos, éa dissertação de mestrado Bebidas e bebedores no Norte do Brasil à época da conquista holandesa (1624–1654), defendida pelo professor Gabriel Ferreira Gurian, na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Franca-SP, 2018).

Pelos detalhes da pesquisa de Gurian, é possível imaginar que, assim como brood e edam (“brote” e “queijo” do reino em holandês antigo), essehábitotão nordestino, e brasileiro mesmo, de apreciar uma festança em família e um churrasco entre amigos, também pode ser herança dos velhos batavos, do Brasil-holandês.

Do catolicismo lusitano, com a Santa Inquisição e a escravidão de 400 anos é que não pode ter sido...

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de maio de 2026.