Fundado há 20 anos, o Instituto Histórico, Geográfico, Artístico e Literário do Cariri Paraibano (IHGC) vem se consolidando como guardião da identidade regional, atuando na preservação da memória e dos saberes. A instituição foi criada no contexto das discussões do Pacto Novo Cariri, idealizado com o objetivo de identificar e valorizar as potencialidades e promover o desenvolvimento local/regional caririzeiro.
“Nas discussões do pacto, estava o resgate do artesanato, da cultura e também da questão histórica. Formou-se, então, um grupo chamado Kiriri, com representantes ligados à história de cada município do Cariri”, relata o historiador e professor universitário Daniel Duarte, presidente da instituição. “A partir desse grupo, a coisa foi crescendo, então verifiquei a necessidade de criar uma instituição propriamente dita. Comecei a dialogar com várias pessoas e depois de três anos a gente conseguiu formar um núcleo de 105 sócios fundadores”, frisa o gestor.

- Famoso Lajedo do Pai Mateus, no município de Cabaceiras, é uma das riquezas geográfica e histórica regional | Foto: Evandro Pereira
Duarte relembra que a data oficial da fundação, 8 de dezembro de 2005, foi pensada para marcar as comemorações do centenário do Instituto Histórico Geográfico Paraibano (IHGP), com a criação do instituto regional que abarca os 45 municípios do chamado Cariri Velho. O território histórico correspondia a mais de 30% do território do estado, e compreendia desde Monteiro, Teixeira e Patos, até as proximidades de Campina Grande e Umbuzeiro. Na configuração atual do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a região abrange somente 29 cidades.
“O nosso instituto tem a função de resgatar e divulgar os fatos históricos e, dentro do possível, fazer algumas correções dessa história que vem da oralidade e é preciso se debruçar em acervo de cartórios e publicações. Uma dessas correções que venho trabalhando, e que integra a minha tese para professor titular, é a de que provavelmente os holandeses antecederam os portugueses na entrada dessa região”, explica Daniel Duarte.
O historiador pontua a riqueza geográfica e histórica regional, desde as grandes formações como o Lajedo do Pai Mateus e a Serra do Jabitacá, onde nasce o Rio Paraíba, até os sítios arqueológicos, com pinturas rupestres, cemitérios indígenas e sítios paleontológicos onde se encontram material fossilizado, como nas minas de bentonita na região de Boa Vista. No campo político, Duarte destaca personalidades como o presidente da República Epitácio Pessoa, o fundador dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, e o presidente da província, João Pessoa, todos naturais de Umbuzeiro, e no campo artístico lista nomes como Miguel Guilherme e Eunice Braz, nas artes plásticas, Zé Marcolino e Flávio José, na música, além de Fuba de Taperoá, Biliu de Campinas, que tinha raízes no Cariri, Zabé da Loca, que se radicou na região, e o paraibano Ariano Suassuna, que além da ascendência genealógica, retratou cidades como Taperoá em suas obras.
“São muitas contribuições que nós temos e que estavam esquecidas, enterradas, como que ‘mofadas’, e que o instituto, aos poucos, tem feito com que essa essas particularidades geográficas e históricas possam ser conhecidas, não só pelos seus sócios efetivos e honorários, como também pela população de um modo geral”, argumenta Duarte.
Testemunha da história
O IHGC tem como sede o prédio do Solar dos Árabes, casario em estilo mourisco de destacada beleza, localizado no Centro Histórico da cidade de São João do Cariri. O espaço, cedido nos primeiros anos de criação pela gestão municipal ao instituto, abriga uma biblioteca e uma pinacoteca, onde estão expostas pinturas e fotografias de paisagens da região, que recebe visitas de moradores, turistas e estudantes de escolas públicas dos municípios vizinhos.
O edifício constitui uma verdadeira testemunha da história local, pois consta que ali funcionou, no início do século 19, a Casa de Câmara e cadeia. Somente a partir de 1915 recebeu o aspecto atual, dado pelo sírio-libanês José Salomão Raia, que dá nome à biblioteca. No frontão da fachada principal é possível identificar, por exemplo, uma inscrição em árabe, enquanto na lateral estão representadas as bandeiras do Brasil e da Turquia.
Ao longo dessas duas décadas, o IHGC vem fortalecendo a pesquisa, o registro e a valorização das narrativas que constroem a identidade do Cariri paraibano, reunindo acervos, promovendo debates e estimulando o diálogo entre gerações. O presidente da instituição recorda uma outra ação importante, que foi a criação do Museu Balduíno Lélis, situado no prédio do antigo Mercado Público Municipal de São João do Cariri, e que homenageia um dos grandes fundadores de museus e arqueólogos, que também era membro da entidade.
Para marcar as comemorações pelos 20 anos, foram promovidas, em dezembro último, atividades como cortejo cultural, palestra e lançamento de livros, entrega de títulos de sócios honorários e uma feirinha de livros, artesanato e antiguidades. O instituto continua a celebrar a data com outras atividades, sempre em busca de ampliar o acesso ao conhecimento histórico, incentivando a participação da comunidade e contribuindo para que a história permaneça ativa e respeitada.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de janeiro de 2026.
