A charmosa e histórica cidade de Areia, no Brejo Paraibano, palco de lutas libertárias como as revoluções e do pioneirismo cultural, viveu, há exatos 50 anos, uma outra marcante movimentação. Foram duas semanas, de 1º a 15 de fevereiro de 1976, que reuniram moradores, estudantes, professores, grupos e artistas nacionais e internacionais para fazer acontecer a primeira edição do Festival de Verão de Areia.
A ideia havia sido lançada quatro anos antes, pelo maestro José Alberto Kaplan, que pretendia, como diretor do Setor de Artes da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), interiorizar as atividades do Coral Universitário. No retorno de uma visita à cidade de Areia, escolhida pela forte tradição cultural e significativos nomes projetados no cenário artístico nacional, o regente sugeriu a realização de um festival de artes nos moldes daquele realizado em Ouro Preto, Minas Gerais.
Apesar de o projeto ter sido bem acolhido e incentivado pelo próprio reitor da entidade, ele não chegou a ser realizado. Uma “bomba”, conforme narra o próprio Kaplan, caiu-lhe sobre a cabeça dois meses antes, quando quase tudo já estava preparado. As atividades não poderiam acontecer por determinação do Serviço Nacional de Informação (SNI), órgão de espionagem e inteligência da Ditadura Militar brasileira (1964–1985). O sonho do pianista foi suspenso, tornando-se realidade apenas no verão de 1976, com o apoio da Secretaria de Educação e Cultura (SEC), do Governo do Estado.
“O 1º Festival de Verão de Areia foi praticamente dedicado a cursos, como forma de ter uma atividade extracurricular e trazer pessoas representativas de várias áreas, como cinema, teatro, música, dança, artes plásticas, literatura e escultura, além da programação artística no turno da noite, com apresentações e recitais. Essa primeira experiência foi relativamente bem-sucedida e atraiu pessoas inclusive fora da Paraíba”, explica Paulo Melo, diretor da Divisão de Documentação e Cultura do Estado, de 1969 a 1971, que esteve na linha de frente das primeiras quatro edições do evento.
Ele ressalta que o objetivo era estabelecer um intercâmbio entre diferentes formas de expressão artísticas da Paraíba e do mundo cultural brasileiro. Como não era possível levar as pessoas para os centros de vanguarda cultural brasileira, a estratégia era trazer alguns de seus representantes. Passaram pelo festival expoentes como Ariano Suassuna, Dias Gomes, Jorge Amado, Vladimir Carvalho, Paulo Pontes, Ferreira Gullar, Oscar Niemeyer, José Nêumanne Pinto, Nélida Piñon, Gianfrancesco Guarnieri, Ziraldo, Maria Clara Machado, Elizabeth Savala, José Wilker, Alceu Valença, dentre outros.
“O que aconteceu em Areia de especial foi o fato de reunir nomes representativos da inteligência brasileira com os da paraibana, em particular. Não só pelo concurso de personalidades em suas áreas de ação, mas com estudantes em cursos, na primeira edição, em 1976, que se repetiram com palestras, mesas-redondas, simpósios e seminários nas três seguintes, agora não só com a comunidade local, mas com participantes de quase todo o Brasil”, destaca o produtor cultural.
A cada edição uma personalidade ou obra era evidenciada. Foram homenageados José Américo de Almeida, Virgínius da Gama e Melo, Paulo Pontes e a A Bagaceira, por ocasião do cinquentenário de seu lançamento. Em 1979, o título foi simplificado para Festival de Arte de Areia, mas, em 1983, o evento não foi mais realizado. “Guardo muita afetividade e satisfação pelo festival. Para mim, foi muito prazeroso ter participado daqueles eventos por tudo que ele representou na época”, confessa Paulo Melo, que tem um artigo sobre as primeiras edições na edição do Correio das Artes, suplemento literário do jornal A União, deste mês.
Idas e voltas
Foram justamente as memórias afetivas daquelas primeiras edições que fizeram o Festival de Artes de Areia ressurgir, em 2005, pelas mãos de Ana Clara Maia. Após uma experiência, também descontinuada de 1998 a 1999, coordenada pela gestão municipal, a produtora cultural areiense, de volta à terra natal, levou adiante um projeto para retomada do evento.
“A minha infância e começo da adolescência foi vivendo essa primeira leva de festivais, que durou até 1982. No ano seguinte, eu fui embora de Areia e passei 20 anos fora. Eu e toda minha geração de Areia crescemos vivendo intensamente aqueles momentos e isso influenciou o pessoal da música, teatro, cinema, literatura… e ficou no nosso imaginário, na nossa mente. Quando eu retornei para Areia, voltei com a vontade de retomar aquilo, e fiz um projeto, com Janaína Azevedo, e conseguimos realizar um novo festival, em 2005, com apoio da Lei Rouanet e o patrocínio da Eletrobras”, conta a produtora.
A proposta era fazer outro na sequência, mas os desafios quanto ao financiamento só permitiram que o 10º Festival de Artes de Areia ocorresse apenas em 2008, e com muito sacrifício. Ana Clara conta que só conseguiram captar 40% dos recursos necessários para que o evento pudesse acontecer e, mesmo assim, decidiu topar a empreitada. Apelou para a força dos moradores da cidade e de jovens voluntários, além da parceria com os órgãos de cultura do Governo do Estado, que contribuíram com apresentações e espetáculos.
“Nós retomamos com muita intervenção de rua, muitos shows em espaços abertos e de convivência. Esse foi o diferencial em relação à primeira leva de festivais, que aconteceram em espaços pequenos como o Teatro Minerva e o Colégio Santa Rita, mas sempre procurando esse intercâmbio com o público nacional e internacional. Trouxemos grupos da América Latina, espetáculos no Rio de Janeiro, São Paulo e Tocantins, prezando sempre pela troca de experiências com grupos culturais de música, teatro, dança, artes plásticas e com as pessoas de Areia”, pontua a produtora.
A expectativa da população local sempre foi um elemento importante, que esperava intensamente, desde a primeira edição, pelos dias de movimentação da cidade e participava ativamente das oficinas, palestras, exposições e lançamentos. Recuperar esse ambiente cultural da cidade e contribuir para formação de novas gerações de artistas estava entre as preocupações das últimas três edições do festival, ocorridas de 2012 a 2014, com apoio da Secretaria de Cultura.
A iniciativa do Festival de Areia foi descontinuada há mais de uma década, mas no cinquentenário da primeira edição, permanece o sonho de Ana Clara de que alguém dê prosseguimento à semente lançada. “Eu espero que alguém retome esses festivais, faça com ele aconteça novamente, porque está no limbo com esse hiato de tempo. Eu dei minha contribuição e vamos ver se outros jovens pegam nessa rodilha de novo e botam para andar. Ah… eu queria que o Festival de Areia voltasse a acontecer, ainda mais neste ano do cinquentenário, imagina! Agora, eu queria ir para assistir, ser plateia novamente”, sonha Ana Clara Maia.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de fevereiro de 2026.