A reurbanização de cidades, para a ordenação estratégica desses espaços, tem como marcos emblemáticos a reforma urbanística realizada em Paris, na França, pelo prefeito Haussmann, entre 1853 e 1870, e de Pereira Passos no Rio de Janeiro, realizada entre 1902 e 1906. Ambas, em curto prazo, transformaram radicalmente a aparência dessas cidades, demolindo casebres e cortiços para, sobre os escombros, abrir vias amplas, melhorar o saneamento e promover o embelezamento urbano. O que poucos sabem é que, no interior da Paraíba, um gestor também empreendeu uma ousada reforma urbana nesses mesmos moldes. Estamos falando de Vergniaud Borborema Wanderley (1905–1986) que, nas décadas de 1930 e 1940, demoliu centenas de casas e comércios na cidade de Campina Grande para lhe dar uma nova estética e disposição urbanística, mudando quase por completo o cenário da cidade.
Antes dessa “vergnaudnização”, o Centro de Campina Grandemais parecia um vilarejo medieval. Sem saneamento básico, com becos e vielas tortuosas, ruas irregulares — que se alargavam e se estreitavam— acessos impedidos por mocambos de taipa e as pessoas tinham de conviver com as vias tomadas por feirantes e mercadorias, animais defecando nas calçadas, lama, poeira, curtumes, matadouros e prostíbulos.No entanto, a cidade já se notabilizava com um efervescente comércio, quase 3 mil edificações e a posição de terceira praça algodoeira mundial.
Quando assumiu a prefeitura da cidade, Vergniaud Wanderley era um moço de 30 anos, nascido na cidade. Seis anos antes, ele formou-se em Direito, em 1929, ingressando no Ministério Público como promotor, em Blumenau, Santa Catarina, e foi ainda juiz de direito emoutras cidades catarinenses.Mas, em 1935, por ser um homem polido, com formação jurídica e conhecimento das civilizadas cidades do sul do país, foi convidado pelo então governador da Paraíba, Argemiro de Figueiredo(1901–1982), para candidatar-se a prefeito de Campina Grande.
Vencendo o pleito com expressiva maioria, Vergniaud foi o primeiro prefeito eleito por voto direto em Campina Grande e tomou posse no dia 18 de dezembro de 1935. Comprometido com as metas progressistas da Era Vargas, antes mesmo de assumir ele já dava sinais do que faria, pois em entrevista para o Diário de Pernambuco, disse que,apesar do evidente progresso econômico, faltava a Campina Grande o sopro da modernização e uma nova perspectiva arquitetônica. Por isso, logoque assumiu, iniciou um grande serviço de terraplanagens, alinhamentos, nivelamentos e prolongamentos de dezenas de ruas, decretando um rígido código de postura, no qual determinava aos donos dos prédios na cidadea regular o alinhamento dos mesmos nas ruas realinhadas. As reconstruções teriam que ser de alvenaria,de dois ou mais pavimentos, e com plantas arquitetônicas previamente aprovadas pela prefeitura. Com esses decretos, se previa o avanço ou o recuo das casas conforme o novo realinhamento eas reconstruções deveriam atender os padrões de modernidade, pois o prefeito fez uma viagem de quase um mês ao Sul e Sudeste do país para se inteirar das arquiteturas inovadoras, trazendo projetos e mestresdeobras experimentados na moderna arquitetura art déco para ser implantada Campina Grande. A mudança foi tão significativa que a cidade possuía apenas cinco sobrados e, ao final de sua gestão, eram cerca de 300 prédios com dois ou mais pavimentos.

- O elegante Grande Hotel com sua art déco é uma das reformas urbanas da cidade na época | Fotos: Arquivo/IHCG
Vergniaud mandou fazer uma planta do município, indenizações de casas e,diariamente, em vários pontos da cidade, via-se turmas de trabalhadores na execução de serviços mandados realizar pelo prefeito, agentes fazendo recenseamentos dos prédios e cobranças de impostos,calçadas sendo mosaicadas, enquanto becos e travessas eram alargados ou fechados conforme à conveniência urbanística. Com mãodeferro, o gestor fiscalizava pessoalmente as construções e reconstruções que se multiplicavam na cidade.
Ruas e avenidas, além de serem alinhadas, receberam pavimentação a base de concreto, o prefeito trouxe o primeiro serviço telefônico para a cidade e, com modernodesign art déco, ergueu o elegante Grande Hotel, com cinco pavimentos e elevador (o primeiro elevador da cidade),concorrendo em altura e pujança com a Igreja Matriz. Fez também o moderno prédio da Recebedoria de Rendas (com três pavimentos), o Palácio da Municipalidade para instalar a prefeitura (com quatro pavimentos),demoliu o matadouro do Centro, construindo um novo fora da cidade, construiu a Praça Coronel Antônio Pessoa, uma nova Central Elétrica e ainda guarneceu as margens do Açude Velho,comuma parede de contençãodepedras em toda sua extensão, para embelezar, delinear a orla e também impedir as lavagens de caminhões, automóveis e ônibus nesse manancial, que na época já estava apresentado sinais de poluição.
Uma nova artéria
A vergnaudnização foi interrompida em virtude da Nova Constituição Federal, em novembro de 1937, onde perderam automaticamente os cargos eletivos todos os prefeitos municipais do país. Vergniauddeixou o exercício do cargo, sua gestão sendo bem curta, de um ano e 11 meses. Porém, cinco anos depois,eleretornouà prefeitura de Campina Grande,a convite do novo interventor federal, Ruy Carneiro(1906–1977), e nessa sua segunda gestão, entre 1940 e 1945, no intuito de abrir uma nova artéria de duas vias atravessando toda a cidade (a atual Av. Floriano Peixoto),promoveu um “bota abaixo” ainda maior, indenizando e demolindo tudo que estivesse no caminho de expansão da futura avenida, vivendas e comércios, de pobres e ricos, eaté a antiga Igreja do Rosário, que ficava no Centro, foi demolida.
Vale ressaltar queessa segunda gestão se deu em tempos de Estado Novo,onde os prefeitos dispunham do poder discricionário, de modo queentre as demolições constava, além de casebres, casarões de ricos comerciantes e proprietários rurais, o que lhe rendeu ameaças, e, quando havia resistência dos indenizados de deixarem suas casas ou comércios,o prefeito mandava demolir na calada da noite ou mandava que os tratores abalassem a estrutura das casas com marcha ré para que o morador se atemorizasse. Era daquelas situações de trazer a montanha a Maomé e, segundo o empresário Buega Gadelha, que conviveu com VergniaudWanderley, ele dizia que o povo da cidade prestigiava esses atos. Aliás, a reforma tomou ares épicos e lendários e até hoje circulam fábulassobre suas façanhas. Recentemente, o economista Ermírio Leite, de 95 anos, nos contou que uma vez Vergniaud mandou abalar uma barbearia, cujo dono se recusava a desocupar o prédio, e quando a edificação começou a ruir o cliente que estava se barbeando saiu correndo dali com metade do rosto barbeado e a outra metade ainda com espuma de barbear.
As transformações progressistas de Vergniaud, embora intempestivas e radicais, tiveram a aprovação e simpatia da maioria da população de Campina Grande. Ele era mencionado nos jornais como um administrador operoso, de farta aplicação e merecedor de aplauso público, tanto que, ao encerrar seu mandato, foi eleito senador pelo povo campinense, sendo o primeiro filho de Campina Grande a assumir uma vaga no Senado Federal.Depois disso, ele foi para o Tribunal de Contas da União, exercendo as funções de ministro e presidente do TCU, vindo a se aposentar da vida pública em 1975. Faleceu no Rio de Janeiro, aos 81 anos,em20 de novembro de 1986.
Devido esse planejamento urbano e futurista de Vergniaud, hoje Campina Grande tem boas condições de mobilidade, não apresenta engarrafamentos e vem se expandindo com muita facilidade ao longo das décadas. Embora a cidade tenha perdido seu estilo de vida provinciano, por ter sido quase que totalmente reconstruída, ainda é detentora de um extraordinário patrimônio histórico, pois a política estética-modernizadora desse urbanista ditou na cidadea construção deconjuntos de edificações no estiloart déco, que, com a singularidade de seremextensos e homogêneos, representam hoje um acervo histórico-arquitetônico dos mais importantes do país. Literalmente, Vergniaud Wanderley fez história em Campina Grande.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de junho de 2026.

