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Em um lugar embaralhado entre a memória e a invenção

publicado: 05/01/2026 10h06, última modificação: 05/01/2026 10h07
Reunindo causos, rimas e lembranças sertanejas, Bebé de Natércio mostra em seu mais novo livro, “Verdades que eu inventei”, como a ficção pode iluminar o que a vida, às vezes, deixa de dizer
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Obra é uma tríade de poemas longos com narrativas inventadas, mas que lança luz ao que é profundamente verdadeiro para quem cresceu no interior da Paraíba: a alma sertaneja | Foto: Arquivo pessoal

por Priscila Perez*

Na era das fake news, tem gente que vive iludida por histórias tão bem fabricadas que a verdade chega a parecer mentira. São inverdades criadas para “engabelar” o ouvinte, bem diferentes dos causos que o paraibano Ariano Suassuna defendia, a tal da “mentira boa”, aquela nascida da vontade de dizer o que não aconteceu, mas deveria. É dessa linhagem que vem Bebé de Natércio, que nasceu Francisco Barbosa Sobrinho, em Itaporanga, no Vale do Piancó, e, hoje, aos 70 anos, além de músico, professor e poeta, é autor de Verdades que eu inventei, livro de poesias publicado pela Editora A União no qual entrega histórias tão sinceras que a gente até esquece que são ficção. “Eu misturo realidade e mentira. Metade é verdade, metade não”, brinca o autor.

Em um momento no qual a realidade disputa espaço com versões cada vez mais polidas dela mesma, o lançamento da obra não poderia ser mais oportuno. Nas três narrativas rimadas que compõem o livro, Bebé toma para si o direito de exagerar, rir e imaginar, devolvendo ao público o que a mentira boa sempre teve de mais honesto: a capacidade de revelar o que a vida, hoje tão cheia de filtros, deixou de mostrar. São histórias inventadas, sim — e ele não esconde isso —, mas que acabam iluminando aquilo que é profundamente verdadeiro para quem cresceu no interior da Paraíba: a alma sertaneja. “Mentira que prejudica é crime. Já a mentirinha é algo bucólico, quase um carinho. O mentiroso que não faz mal às pessoas é uma figura sacrossanta”, esclarece.

Um contador de histórias

A ideia do livro nasceu muito antes da escrita. Vem das tardes em que seu pai lia cordéis para os vizinhos na calçada de casa, transformando o fim do dia em espetáculo. “No sábado, ele sempre comprava cinco cordéis na feira. Aí, todo dia, ele lia um cordel antigo e outro mais novo. E a gente acompanhava como se fosse um filme no cinema”, conta.

Foi nessa mesma calçada que Bebé de Natércio aprendeu que a imaginação era ferramenta para interpretar o cotidiano. Ele mesmo lembra que, quando criança, decorava trechos inteiros dos poemas. “Eu venho desse mundo aí”, aponta o autor, que reconhece que o livro não estava em seus planos, assim como não planejou tornar-se maestro, compositor, músico, ator de teatro e professor, mas surge como um desdobramento natural de quem sempre se entendeu como “um contador de histórias”.

Nas palavras de Emanuel Barros, músico, professor e poeta cordelista, que assina a orelha do livro, Bebé “é um desses inventores que toda roda boêmia decente precisa ter”, um narrador popular que fala à plateia como quem conta causos, sempre com um violão a tiracolo.

Verdades que eu inventei nasce de um ímpeto que o acompanhou por toda a vida: o de anotar as “besteiras” que cruzavam seu caminho, desde cenas e jeitos de falar até personagens anônimos que fariam Ariano sorrir pela espontaneidade. Cada poema longo do livro — três, ao todo — vem desse lugar embaralhado entre a memória e a invenção, onde temas como paixão, tragédia, comicidade, cotidiano, moralidade e bondade ganham destaque, ao lado de todas as suas contradições.

O poeta e crítico literário Hildeberto Barbosa Filho, responsável pelo prefácio da obra, resume essa miscelânea como “as fábulas da vida, onde o autor finca suas mais fortes raízes no veio inesgotável da cultura oral e popular”. Segundo Bebé de Natércio, as histórias que cria são exageradas na medida certa, sentimentais quando precisam e, sobretudo, honestas no que importa. “A gente é um pouco do que viveu e um pouco do que inventa. A nossa vida é um livro”, diz.

Remontar o Sertão

A grande mentira, o primeiro da tríade de poemas, traz à tona um universo mais burlesco, que mistura cabaré, exagero e personagens pitorescos para remontar um Sertão que só poderia ter sido poetizado por quem o conhece tão bem. Bebé admite que muitas das figuras que aparecem ali eram conhecidas da juventude. “Eu botei o nome de todas as prostitutas do meu tempo”, confidencia, reafirmando o quanto sua escrita bebe da oralidade.

A noite do amor sem fim segue outro caminho, mais lírico, nascido de um pensamento solto que ganhou corpo no papel: “Eu sou um cara que pensa muito. Se eu achar interessante a história, vira poema”, analisa Natércio.

E, por fim, o poema Duas amigas fecha o livro com delicadeza e tragédia, em uma narrativa que costura amizade, destino e os dramas sertanejos.

Mas por que a poesia e não a prosa? As rimas que costuram as três narrativas dizem mais sobre Bebé de Natércio do que qualquer explicação teórica. Para quem passou a vida entre partituras e compassos, a poesia funciona quase como uma segunda língua. Música tem estrutura e método, assim como os versos que alinhou ao longo das 138 páginas de Verdades que eu inventei. “Nesse formato, eu tenho facilidade. Tem ritmo e forma de melodia”, explica.

Essa métrica sustenta o que ele chama de “coisa liquidificada”, a fusão entre música, teatro, docência e literatura, que marca a sua trajetória. O resultado é uma escrita que soa falada e preserva a espontaneidade dos “causos”, mas com uma construção precisa.

Para quem quiser desbravar esse Sertão inventado e, ainda assim, tão verdadeiro, haverá um lançamento do livro neste mês, durante o Salão do Artesanato Paraibano. No fim das contas, Bebé de Natércio confirma algo que Ariano Suassuna sempre soube: às vezes, a história mais inventada é, justamente, a que melhor revela quem somos.

Como Antonio Sales bem pontua no posfácio da obra, o autor se mostra como “um inato cronista do cotidiano”, disposto a contar suas verdades com a naturalidade de quem convida o leitor a puxar uma cadeira e escutar.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 04 de janeiro de 2026.