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Forró forte, sim senhor!

publicado: 01/06/2026 09h52, última modificação: 01/06/2026 09h52
Na esteira da abertura dos festejos juninos, veja algumas iniciativas que a Paraíba realiza para manter acesa a chama da tradição
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Forró tradicional luta para ser considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade | Foto: Roberto Guedes

por Marcos Carvalho*

Para além das disputas em torno das festas juninas, Paraíba e Pernambuco também disputam o título dos maiores celeiros de forró do país. Segundo Joana Alves, pesquisadora e ativista na preservação dessa expressão artística considerada Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, a ligação da Paraíba com o forró é muito forte.

“Nós temos a maior parte dos foles de oito baixos aqui no interior do estado, como a Família Calixto. A gente catalogou e documentou, com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), mais de 100 folistas na Paraíba. Temos muitos artistas de forró aqui, que não são necessariamente forrozeiros, mas que trabalham, na maior parte do tempo, com forró”, relata Alves, que também é presidente da Associação Cultural Balaio Nordeste (ACBN), ONG que desenvolve projetos para fortalecer o ritmo.

Apesar de ter sido criada ouvindo forró e tendo Luiz Gonzaga como referência musical, Joana Alves só despertou para importância dessa expressão popular nordestina depois que a filha, que era professora de música, começou a trabalhar com o ritmo no grupo As Bastianas, e percebeu a necessidade do registro e da preservação. Fundaram a ONG, sediada em João Pessoa, onde desenvolvem vários projetos, dentre os quais a Escola de Música Mestre Dominguinhos, que dispõe de cinco professores para ensinar fole de baixo, sanfona, percussão e também canto coral. 

1º de junho é Dia Estadual do Forró; nacionalmente, o ritmo é festejado em 13 de dezembro (nascimento de Gonzagão) | Foto: Reprodução/ACBN

“A escola de música atende cerca de 60 alunos e está tendo uma grande importância para o fortalecimento da cadeia produtiva do forró. Quando a gente começou, não tinha o curso de acordeão na universidade. Hoje, temos uma parceria e capacitamos os alunos para fazer as provas para a universidade; depois, eles voltam como professores para trabalhar com a gente ou estão por aí, tocando forró. Temos aqueles que buscam por entretenimento, só para treinar e se aperfeiçoar em algum instrumento”, explica.

O tempo médio de curso é de dois anos. As ações envolvem, ainda, oficinas, palestras e debates em escolas públicas de cidades paraibanas como Mamanguape, Alagoa Grande e Conde. A ideia do projeto é também dar suporte aos artistas em formação para o ingresso no mercado musical, orientando sobre o registro de composições, auxiliando a fazer um portfólio ou na divulgação nas redes e na imprensa.

Outra frente de atuação da ativista tem sido o Fórum Nacional Forró de Raiz, espaço de diálogo e mobilização que tem revelado o protagonismo paraibano para a preservação das tradições do forró. “Todo o movimento do fórum nasceu aqui, na Paraíba. Primeiro, no município, depois se estendeu para o estado, até que a gente viu que precisava ir mais além. Já fizemos reuniões até fora do país, em Londres, na França e em Portugal. Hoje, estamos reunidos com nove coordenadores, que representam os estados do Nordeste, e mais outros estados que se agregaram — que são Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Goiás — todos trabalhando com o forró juntamente com a Instituição Balaio do Nordeste”, destaca.

Foi graças ao esforço do fórum levado adiante por Joana Alves que o forró foi reconhecido, há cinco anos, como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan. A empreitada agora tem sido a campanha para que o forró tradicional seja considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade. Para isso, ela recolheu assinaturas, tanto no Brasil como no exterior, que foram integradas ao dossiê de candidatura, encaminhado, em março deste ano, pelos órgãos brasileiros à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Um dos principais pontos para pleitear isso é que, apesar do ritmo ser mais lembrado por ocasião das festas juninas, ele costuma ser consumido em outros períodos ao longo do ano. Joana ressalta que, enquanto no Brasil a música tem sido mais forte, no exterior é a que conquista, ao menos, 35 países estrangeiros. Na visão da pesquisadora, todo esse movimento afasta de vez o risco do forró tradicional desaparecer, ainda que se perceba uma tendência a outros ritmos derivados dele.

“Ele pode ficar misturado, mas desaparecer, jamais. Ele pode sair dos palcos, porque alguns gestores, produtores e patrocinadores não possuem o entendimento do que é preservação e estão colocando tudo dentro das festas. Aí, corre o risco do forró ficar na periferia, voltar às casas e palhoças, como era antigamente. Quem gosta dessa música nordestina, que é uma música belíssima, não vai deixá-la morrer”, insiste Joana Alves, que defende ações institucionais, pela via legislativa ou judiciária, para que as tradições não sejam deixadas de lado.

Fazer com que o forró tradicional esteja permanente acessível aos paraibanos e aos turistas é outra proposta defendida pela presidente da Balaio do Nordeste. O projeto é que cada estado do Nordeste tenha um centro cultural do forró, uma espécie de casa patrimônio voltada à preservação da história, com exposições, produção de pesquisa, escolas de música e dança.

“Porque deixar de dar visibilidade ao produto da sua casa, um produto vendável e que tem trazido muitas empresas para o país, e trazer um produto de fora para substituir? Por que se pega um milhão de reais para trazer um artista de fora e se paga 500 reais para um artista daqui, com as mesmas funções e tempo de trabalho?”, questiona. “Essa é uma questão de consciência político-social, por isso precisamos de uma lei que trate de maneira honesta quem trabalha com forró”, conclui.

Nos passos do ritmo

Para valorizar e difundir a cultura popular nordestina e promover a integração da comunidade acadêmica, a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) está promovendo um curso gratuito de forró. O professor e coreógrafo Eduardo Moura explica que, por enquanto, a iniciativa procurou atender a professores, alunos e técnicos universitários, mas a ideia é expandir, permitindo a participação da comunidade em geral.

Curso gratuito de forró na Universidade Federal da Paraíba (UFPB): a base da dança em questão é o abraço | Foto: Reprodução/Coex/Proex

Depois de viajar por diversos estados do Nordeste e conhecer diferentes modos de dançar forró, Moura afirma que, na Paraíba, o passo é mais batido. “Todo forró tem uma conexão com a terra, com o chão, mas aqui esse sentir o pé no chão é mais forte. Ele está ligado às músicas tradicionais, como o xote e o pé de serra, é mais agarradinho e não tem muitos giros nem floreios, que são aquelas brincadeiras com as pernas”, descreve.

O coreógrafo destaca alguns benefícios da dança tanto para a saúde do corpo, auxiliando na prevenção de acidentes, quanto da mente, reduzindo a timidez e contribuindo para o autoconhecimento. O curso começa mostrando o forró tradicional, a partir de músicas interpretadas por Elba Ramalho e Santanna, por exemplo, mas ensina também outras variantes do ritmo, como o chamado forró estilizado, mais performático e com elementos como o giro, baseados em ritmos como a salsa e o jazz, e o forró universitário, versão que ganhou popularidade no Sudeste do país.

Apesar dos alunos chegarem buscando esses estilos mais recentes, depois de algumas semanas o professor percebe a mudança. “As pessoas entram para aprender a girar, e a gente oferece o que elas querem, mas ao longo das aulas acontece uma conversão. Eles começam a perceber que o retorno ao abraço é fundamental e pedem para dançar mais agarradinho, então eles voltam à raiz. A base do forró é o abraço e sem ele, sem essa conexão, não funciona”, frisa Moura.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 31 de maio de 2026.