A cada fim e início de ano, folhinhas e almanaques movimentavam o mercado editorial de publicações populares brasileiro. Os primeiros, calendários de parede que têm suas folhas destacadas (ou viradas) a cada mês, ainda resistem, aliando funcionalidade e estética pela reprodução de pinturas clássicas, figuras religiosas ou fotografias. Já os almanaques, ao contrário, são bem mais raros hoje em dia. Eles serviam como uma espécie de guia anual para datas comemorativas religiosas e civis, mas também como fonte de informações histórica, geográfica, econômica e cultural voltadas para o dia a dia.
Derivada do árabe al manâkh, que significa “contar”, o seu sentido pode ser estendido para “livro de contas” ou calendário. Os primeiros almanaques de que se tem notícia são manuscritos da Idade Média, que circulavam na Europa. Com a invenção da imprensa, esse tipo de publicação tornou-se tão popular, a ponto de ser superado apenas pela Bíblia. Tal façanha deve-se, em parte, ao fato de misturar desenhos e pinturas aos textos, de modo que pudesse ser “decodificado” por quem possuía pouca habilidade de leitura, assim como por reunir informações e saberes de interesse práticos, como previsões meteorológicas, conselhos, receitas culinárias e de remédios caseiros, além de astrologia, curiosidades, contos e anedotas.
No Brasil, de modo especial no Nordeste, os almanaques tiveram um papel fundamental para as populações sertanejas, orientando os agricultores sobre a melhor época do ano para o plantio e para a colheita, como explica a consultora da Pró-Reitoria de Cultura da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), professora Joseilda Diniz: “Esses livros eram conhecidos como ‘Almanaques de Feira’ e também como ‘Folhinhas de Inverno’. Como tais, eram as publicações anuais mais esperadas pelos leitores-ouvintes do cordel, que se apropriaram desse tipo de escrito para diversificar as suas vendas na chamada ‘indústria do cordel’”.
A pesquisadora especializada em literatura de cordel cita, por exemplo, o Almanaque de Pernambuco e o Almanaque do Nordeste Brasileiro, ambos publicados pela Tipografia São Francisco, de Juazeiro do Norte (CE), a partir da década de 1950. Entre os paraibanos versados nessa arte, um dos destaques foi o sapeense José da Costa Leite (1927–2021), que publicou o almanaque Calendário Brasileiro, nas décadas de 1960 a 1980. Joseilda Diniz recorda que, além de informações sobre plantas medicinais, banhos e outras recomendações para o combate a doenças, as publicações traziam previsões astrológicas e horóscopos, introduzindo noções das ciências ocultas, muitas delas já arraigadas aos saberes tradicionais, religiosos e místicos locais.
“A formação dos poetas, editores e horoscopistas era de indivíduos autodidatas. Na maioria das vezes, esses editores, que se especializaram na edição de almanaques, faziam uso de leitura de livros como Lunário Perpétuo, obra que faz menção ao livro Lunário Perpétuo de Jerônimo Cortez, adaptada para Portugal, em 1703. Os poetas editores recorreriam aos saberes tradicionais e populares e às próprias experiências, unindo ao seu arcabouço poético, conselhos, previsões e compartilhamento de saberes coletivos enraizados na sua história cultural, transcendendo as tendências do tempo”, enfatiza a professora.
A substituição dos métodos tradicionais de impressão com tipos móveis de metal ou madeira pelas tecnologias digitais, que culminou com o desaparecimento das tipografias, é uma das principais causas apontadas por Diniz para a redução desse tipo de publicação. Como o público agora tem acesso às previsões de tempo, aos mapas astrais e aos diferentes conhecimentos dos almanaques tradicionais de modo mais ampliado pelo rádio, televisão e na internet, sua publicação tem sido inviável editorialmente.
Exemplares de almanaques editados pelos poetas populares fazem parte do acervo da Biblioteca de Obras Raras Átila Almeida, da UEPB, em Campina Grande, evidenciando como esse gênero assumiu características próprias do povo nordestino com a apropriação pela indústria do cordel.
“Santo Antônio”, um almanaque ainda em circulação
Prestes a completar 50 anos, o Almanaque Santo Antônio é um dos poucos do gênero que resistiram ao tempo. Frei Edrian Pasini, da Ordem dos Frades Menores (OFM), editor do anuário, reforça que mesmo com as previsões de que os livros em papel acabariam com a chegada da internet, a popularidade do gênero mantém-se nas bienais e feiras de livros das quais participa.

- Prestes a completar 50 anos, com uma tiragem média de oito mil exemplares, a publicação recorre a ilustrações e conhecimentos culturais e religiosos para atrair famílias, professores e estudantes | Imagem: Divulgação/Editora Vozes
“No contexto digital, as pessoas ainda mantêm o hábito de ter um livro em mãos, pronto para folhear, anotar. E os leitores especificamente de almanaques não dispensam a sua leitura na forma física ou o hábito de colecioná-los a cada ano. Mesmo com sites de buscas e toda a tecnologia adentrando velozmente através da internet, o prazer de ler um almanaque que reúne temas múltiplos é algo tentador, e isso faz parte do que poderíamos chamar de ‘relação afetiva’ com esse tipo de publicação. Ela não pode ser simplesmente substituída”, argumenta o editor.
Com uma tiragem média de oito mil exemplares, a publicação de 224 páginas recorre a ilustrações e conhecimentos culturais e religiosos para atrair famílias, professores e estudantes, que também colaboram enviando mensagens, piadas, receitas e dicas culinárias. Essa participação é um dos termômetros que frei Edrian utiliza para medir o interesse dos leitores. Há mais de 20 anos à frente do anuário, ele revela que a preparação começa mais de um ano antes, recolhendo matérias e selecionando os assuntos. A edição de 2027, por exemplo, comemorativa dos 50 anos, já está em fase de diagramação, com previsão para que fique pronta para impressão até março deste ano.
“O Almanaque Santo Antônio tem um caráter multitemático, sempre novo e atual a cada ano, trazendo calendários (civil, religioso, de agricultura e de pesca), curiosidades, humor, dados científicos, literários e informativos, como cuidados com a saúde e dicas de economia doméstica. Rico em sabedoria, traz diversos tipos de textos sobre personagens de nossa história e folclore, e de cunho religioso e evangelização, como a vida de santos e, claro, de Santo Antônio de Pádua, que dá título à publicação”, elenca o religioso.
O Almanaque Santo Antônio pode ser adquirido em livrarias católicas, grandes livrarias ou pelo site da Editora Vozes (www.vozes.com.br). Almanaques mais específicos, como de Astrologia, também ainda são editados, ao contrário daqueles produzidos por laboratórios farmacêuticos, como o da Biotônico Fontoura, que era distribuído gratuitamente aos clientes em farmácias, que tiveram bastante popularidade até a década de 1970.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de janeiro de 2026.

