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Tradição

No batuque da Jurema

publicado: 09/02/2026 09h17, última modificação: 09/02/2026 09h17
Papel do tocador de atabaque é essencial para ditar o ritmo, conduzir os pontos cantados e sustentar o axé durante as giras e rituais
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Há cerca de 30 anos, Pai Naldo é batedor de Jurema no Templo de Mãe Rita, no Alto das Populares, em Santa Rita | Ilustrações : Bruno Chiossi

por Ademilson José (Especial para A União)*

No mundo dos músicos e mais precisamente dos percussionistas, há um personagem pouco lembrado que, para uma grande comunidade de juremeiros e umbandistas, é de importância fundamental. Além de proporcionar ritmo que serve para mexer o corpo, o batuque executado por ele também determina e dá cadência à espiritualidade dos integrantes da religião.

Trata-se do tocador de atabaque que, na Jurema da Paraíba e região, é conhecido como “batedor”, e que, nos espaços mais amplos dos orixás (englobando Umbanda e Candomblé) ganha o nome de “ogã”. É, de fato, um personagem essencial, porque, além de ditar o ritmo, ele conduz os pontos cantados e sustenta o axé (a energia) durante as giras e rituais do terreiro ou barracão.

Considerado elo de ligação entre o sagrado e a comunidade religiosa, Ednaldo Joaquim de Oliveira (o Pai Naldo, de 52 anos) é um desses percussionistas diferenciados e espirituais. Há cerca de 30 anos, é isso que ele faz no Templo de Mãe Rita, situado na Rua Nilo Peçanha, no Alto das Populares, em Santa Rita, na Grande João Pessoa.

Quem assiste a uma prolongada sessão de cânticos e rituais, percebe isto: enquanto baterista, o percussionista musical comum toca para dar ritmo e cadência à banda que ele participa; para fazer as pessoas mexerem o corpo, o batedor de Jurema toca para muito mais: toca para mexer com o espírito de quem participa do ritual. Muitas vezes, é ele que também precisa puxar o cântico para melhor entoar o coletivo do terreiro no ritual. 

Seu filho, o jovem João Pedro, também toca para mexer com o espírito de quem participa do ritual

Não é de estranhar, numa visita, alguém do terreiro não permitir que a pessoa aproxime-se ou mexa com aquele instrumento de percussão. É porque, segundo o próprio Pai Naldo, o atabaque é sagrado e só os batedores ou ogãs podem mexer com ele. Embora tenha momentos que lembra um baião ou um samba qualquer, seu toque é considerado “um som, uma voz da ancestralidade”.

Segundo Pai Naldo, os atabaques são em três tonalidades e tamanhos diferentes: o rum (maior e mais grave); rumpi (médio) e lé (menor e de sonoridade mais aguda). São feitos de madeira, também chamados “ilús” e muito comuns na Jurema e na gira de Exu/Pombagira. “Esses instrumentos oferecem som e ritmo específicos para a força dessas entidades”, explica.

Mas o suingue com força de fé não se resume ao atabaque. Na Jurema (que é paraibana e, mais precisamente, de Alhandra, no nosso Litoral Sul) e nas religiões originárias do continente africano, o maracá, o agogô e o xequerê também são instrumentos muito presentes nas reuniões e rituais. Os dois últimos, inclusive, são de ferro e oferecem toques de agitação que complementam o som dos atabaques.

Sobre os ritmos, Pai Naldo esclarece que são vários. Uns mais agitados e outros mais lentos, predominando entre eles o congo, o nagô e o samba caboclo, variando conforme a linha de trabalho da religião. São ritmos também oriundos da África e os mais conhecidos e praticados no Brasil são originários de Angola, de onde vieram muitos escravizados no nosso período colonial.

Na Jurema Sagrada, principalmente, a percussão é muito forte e marcada, tradição indígena que foi seguida por todos os mestres. É por isso, segundo Naldo, que as sessões religiosas não podem se prolongar até tarde da noite ou pela madrugada. “A reclamação da vizinhança se torna inevitável. Eu mesmo costumo abrir as reuniões por volta das 17h para não passarmos das 21h”, diz ele.

Ele fala com essa autoridade, porque, além de batedor no Templo de Mãe Rita, no Alto das Populares, Naldo também tem seu próprio barracão em casa, no conjunto Marco Moura, também no município de Santa Rita. A partir deste começo de ano, com outros juremeiros, assume também a coordenação de um outro barracão em Natal (RN). “Mas lá, no Rio Grande do Norte, como na minha casa, no Marco Moura, eu não sou do toque. Quem comanda terreiro não pode ser batedor”, afirma o pai de santo, ao explicar que, nesses outros espaços, dedica seu tempo somente à organização e ao comando das reuniões e, no dia a dia, a atender pessoas que recorrem ao terreiro em busca de alguma ajuda ou serviço.

Ele esclarece que, ao contrário dos percussionistas comuns, os batedores, atabaqueiros e ogãs não recebem pagamento (cachê) para atuarem em sessões religiosas, por mais prolongadas que elas sejam. O chefe do terreiro ou algumas pessoas que participam das sessões às vezes ajudam, dão contribuições, mas sem compromisso. “Meus ganhos são dos atendimentos e do meu trabalho como pedreiro”, afirma.

De pai para filho

Com tantos anos batendo atabaque, desde os 20 anos e por influência do pai, Naldo não poderia deixar de também influenciar. Seu filho, João Pedro, de 17 anos, já anda dando ritmo à Jurema com ele. Juntos, pai e filho também tocam nas Giras de Roda (sessões que ocorrem na rua) e nas Juremas de Chão (quando os participantes atuam em círculo e sentados em posição de ioga).

Como só o tempo de prática define quem é quem e como ainda não recebe entidade nenhuma, o jovem João Pedro ainda é pai ogã, cargo que lhe dá direito de tocar atabaque para a Jurema e para outros orixás, mas que ainda precisa de uma boa estrada para ser pai de santo.

Em termos de divulgação do seu trabalho como batedor e de sua própria religião, Naldo ainda é do tempo do boca a boca, mas o filho, o jovem João Pedro, tem perfil no Instagram (@ogadeaxé05), espaço em que acaba divulgando o trabalho religioso e de percussionista dos dois.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 08 de fevereiro de 2026.