Quando tinha seis anos, Edijanio Rodrigues ganhou da mãe o primeiro item de sua coleção de chaveiros. O interesse foi tamanho que, pouco tempo depois, ganhou também a coleção completa que ela possuía. A coleção de cerca de 150 moedas, no entanto, só começou bem mais tarde, quando cursava Economia na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ao se deparar com um exemplar comemorativo aos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, e descobriu que ela valia bem mais que o valor de um real estampado na sua coroa. O que era apenas um hobby impulsionado pela curiosidade em conhecer mais sobre moedas, cédulas e medalhas, tornou-se investimento e forma de trabalho. Edijanio é um numismata.
“Quando me formei e eu fui para o mercado de trabalho, fui gerente, prestador de serviço e até funcionário público, mas me identifiquei mesmo com a numismática, onde eu estou, todo dia, fazendo o que eu gosto e ganhando dinheiro. Então eu decidi investir nessa carreira e estou há mais de 20 anos nessa profissão”, conta Edijanio, cuja especialidade são as moedas de cobre do Brasil Colonial e do Primeiro Império.
Numismata é o profissional que estuda moedas, papel moeda, medalhas e objetos usados para a fabricação desses objetos. Para além de uma forma de colecionismo, o numismata busca — no conhecimento da história, da heráldica e da simbologia — os elementos necessários para classificar e avaliar os diferentes tipos de moedas e medalhas. Como ainda não existe uma formação regular para essa atividade, os que desejam estudar e se especializar recorrem a uma vasta literatura voltada para essa área.
“Existem dois tipos de livros de numismática. Aqueles que trazem todo o contexto histórico sobre aquela peça, desde como aquela moeda foi cunhada em determinado governo, quantas peças foram fabricadas e o que acontecia naquele período… E também os livros precificadores, que são os famosos catálogos, publicados a cada dois anos”, explica Edijanio, que atualmente é vice-presidente da Sociedade Filatélica e Numismática de João Pessoa (SFNJP).
Ele explica que as moedas do período colonial e do império costumavam ter seu valor diretamente ligado ao peso do metal de que eram feitos. É por isso que encontramos valores como uma moeda de prata de 960 réis, chamada “patacão”, em grande parte recunhada sobre moedas espanholas, ou ainda a de 37,5 réis, cunhada em cobre, e conhecida como “vintém”. O que determina o valor dessas e outras peças, no entanto, são variantes como a raridade e a conservação, ainda que não sejam, necessariamente, a mais antiga.
O numismata paraibano exemplifica que uma determinada moeda de R$ 1, cunhada em 1998, tem valor médio de R$ 180 a R$ 200, porque foram feitas apenas 600 mil peças, enquanto uma moeda cunhada em 1901 não vale mais que R$ 2, porque foram feitas milhões delas.
Além de colecionar e comercializar moedas, Edijanio Rodrigues também entrou no mercado de discos de vinil e CDs. O colecionismo acaba tornando-se um mercado como qualquer outro, com oferta, demanda e inflação, seguindo uma sistemática própria. O preço das moedas, por exemplo, acompanha a cotação do dólar, do ouro e da prata, e tem se tornado uma forma de investimento à qual muitos têm recorrido. “Na Paraíba, nós temos um dos mercados mais fortes da numismática, e dos três eventos anuais que a nossa sociedade promove; um deles é em nível nacional e reúne colecionadores do Brasil e do mundo”, destaca o vice-presidente da instituição.
Com mais de 40 anos de história, a Sociedade Filatélica e Numismática de João Pessoa conta atualmente com cerca de 120 sócios frequentadores e congrega, além de filatelistas e numismatas, colecionadores de figurinhas, discos de vinil e miniaturas. A sede da instituição, situada no bairro do Miramar, em João Pessoa, está aberta aos sábados, das 10h às 16h para visitas, onde é possível comprar ou vender objetos, além de conhecer a biblioteca especializada e algumas peças raras que estão expostas no local.
“Nós temos uma biblioteca para quem quiser pesquisar sobre numismática e colecionismo. Ela funciona como uma escola para quem quer começar. Nossa sala de exposições tem medalhas e peças únicas, como o cunho, isto é, a matriz da medalha comemorativa dos 450 anos da Paraíba, que foi inutilizada e doada à nossa sociedade. Temos também alguns selos e a moeda da visita do papa Francisco ao Brasil, além de uma coleção de cédulas que conta um pouco da história da inflação. Uma dessas cédulas, por exemplo, teve três valores diferentes ao longo dos anos. É muito interessante como a numismática se mistura com a história”, ressalta Rodrigues.
Mercado aquecido?
Memória e curiosidade representam as duas faces dessa mesma moeda chamada “colecionismo”. Para Edijanio Rodrigues, a primeira motivação para alguém começar uma coleção é o saudosismo, pois quase sempre os objetos evocam lembranças da infância ou dos familiares. As figurinhas e os discos de vinil são um exemplo disso. Depois surge a curiosidade, a busca pela história por trás de cada peça e o prazer dessa descoberta.
“A gente nunca para numa coleção, porque, quando se termina uma, já estamos envolvidos com outra. Colecionar é diferente de acumular, é estar sempre em movimento, é você pegar uma peça e estudar sobre todo o contexto dela. É isso que mantém a gente na ativa, que mantém a chama acesa. Então cada peça vai despertando o interesse por outra, como se fosse um carretel”, compara.

Nem as inovações do mundo digital, que tem feito diminuir drasticamente a frequência das correspondências por escrito e, por consequência, o uso de selos, assim tem provocado a redução do dinheiro em papel e em moeda, são obstáculos para os filatelistas e numismatas. Edijanio reconhece a dificuldade sobretudo para os primeiros, já que, há alguns anos, os selos vêm sendo substituídos por etiquetas. Com relação às moedas, porém, relata que a valorização tem sido crescente, inclusive graças à forcinha das redes sociais para divulgar esse tipo de colecionismo.
“Com o avanço da tecnologia, o interesse pelos selos e cartões telefônicos foram se perdendo. O que acontece com as moedas é diferente, porque sempre se lançam moedas comemorativas, como foi o caso das Olimpíadas do Rio de Janeiro de 2016, que despertam muito a curiosidade do cidadão. Recentemente, em 2022, tivemos também a moeda comemorativa pelos 200 anos da Independência do Brasil, que se esgotou no mesmo dia. Isso mantém o mercado numismático aquecido. E tem mais uma coisa: as moedinhas são mais populares e quase todo mundo guarda. Se você for vasculhar as coisas do avô ou da avó, sempre vai encontrar um parzinho de moedas”, argumenta.
Para incentivar o colecionismo, a Sociedade Filatélica e Numismática de João Pessoa pretende oferecer cursos, a exemplo do Curso Online sobre Numismática, promovido em 2020, em parceria com o Instituto Federal da Paraíba (IFPB). Quem desejar se associar à instituição, precisa ser indicado por algum outro colecionador e frequentar as atividades do grupo por pelo menos um ano, até ser integrado definitivamente como membro.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de janeiro de 2026.
