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Pensar a Paraíba

publicado: 08/06/2026 09h48, última modificação: 08/06/2026 09h48
Obras recém-lançadas são mais do que uma leitura recomendada para aprofundar o atual cenário de desenvolvimento do estado
2026.06.03 Da bagaceira ao mel & Paraíba século XXI © Leonardo Ariel (19).JPG

Projeto com os livros Da bagaceira ao mel e Paraíba século XXI — estratégias e soluções foi organizado pelos pesquisadores Janete Lins Rodriguez e Marcone Pereira Simões | Fotos: Leonardo Ariel

por Marcos Carvalho*

Olhar o passado para melhor compreender a realidade e projetar o futuro. Essa é a dinâmica que perpassa as obras Da bagaceira ao mel e Paraíba século XXI Estratégias e soluções, organizadas pelos pesquisadores Janete Lins Rodriguez e Marcone Simões. Lançadas em março deste ano num box, os dois volumes pretendem ser mais do que uma leitura recomendada para os que buscam aprofundar o atual cenário de desenvolvimento da Paraíba.

“Essas obras já estão sendo livros de consulta, e nós estamos com um programa de distribuição, que foi proposto no dia do lançamento pelo então governador, João Azevêdo, para levar essa produção a todas as escolas do estado da Paraíba, a todas as bibliotecas e salas de leitura. Quando fomos despachar com o atual governador, Lucas Ribeiro, avançamos nessa propositura e pedimos a ele que encaminhasse também para todos os prefeitos, independente de bandeira, porque nosso objetivo é facilitar e melhorar a gestão”, informa a professora Janete, gerente do Museu da Fundação Casa de José Américo (FCJA).

Foi justamente nas salas da fundação que nasceram os primeiros embriões das publicações, de um seminário que propunha analisar três grandes obras literárias que abordam, sob ângulos diferenciados, as relações socioeconômicas em torno da produção açucareira. A profundidade das conferências proferidas a partir de A bagaceira, de José Américo, Menino de engenho, de José Lins do Rego, e Os Simões da Serra do Gabão, de Marcone Simões, fez com que muitas pessoas buscassem seu conteúdo, estimulando a equipe organizadora a reunir os textos em forma de livro. 

Iniciativa é um conjunto interdisciplinar de temas em perspectiva, colocando cada ensaio como um farol iluminando o futuro

“Este título, Da bagaceira ao mel, é provocativo, porque a bagageira é o resultado do subproduto da extração do açúcar, do mel, do que tem valor econômico e dos seus subprodutos. E essa bagaceira, que foi denunciada não explicitamente nos romances de José Américo, de José Lins do Rego e nos meus escritos também, hoje em dia está no entorno das grandes metrópoles. São as comunidades e pessoas que estão à margem da sociedade, da educação, da saúde, do consumo de alimentos, do lazer e da qualidade de vida”, explica Marcone, ressaltando o diálogo frutífero surgido entre literatura, história e ciências sociais.

Quando foram organizar a publicação, a equipe, que também contou com o apoio dos professores Cláudio Furtado e Marcos Formiga, pensou que poderiam avançar um pouco mais. Relembraram da obra centenária de José Américo de Almeida, A Paraíba e seus problemas, que costuma ser estudada ou retomada a partir do passado e do presente, e decidiram ousar, pensar além.

“O seminário apontou os rumos, foi um farol para que a gente desenvolvesse o segundo livro, que tem tudo a ver com o primeiro, porque partiu de uma temática que já tinha sido apontada e lembrada por José Américo de Almeida. Nós traçamos, então, um plano inicial com os temas e começamos a consultar algumas pessoas se gostariam de fazer parte da proposta. Esses convidados deveriam contribuir com um texto, descrevendo a situação atual de sua área e apontando estratégias e soluções para as próximas duas décadas, de forma a sanar aquele problema”, conta a professora.

As colaborações do segundo volume pretendem formar um amplo painel em torno da Paraíba do futuro. Os organizadores selecionaram secretários de estados, professores universitários ou pesquisadores e profissionais especializados e envolvido diretamente na temática desenvolvida, a exemplo de Pollyanna Werton, Lídia de Moura, Rosália Lucas, Pedro Santos, Cidoval Morais, Tania Bacelar e Marielza Targino, dentre outros. Ao todo são 20 ensaios que discutem o desenvolvimento da Paraíba em áreas como infraestrutura, patrimônio, inclusão social, justiça, educação, cultura, turismo, artesanato, transição energética, economia criativa e inovação tecnológica.

Na visão de Simões, esse diagnóstico é importante, pois permite avaliar de maneira consciente os passos que foram dados. Apesar de admitir não ser especialista em história ou economia — é engenheiro civil —, e reconhecer que ainda há muito para avançar, o pesquisador nota um grande crescimento na Paraíba. “Nós nunca tivemos algo, fora o próprio ciclo da cana-de-açúcar, que fomentasse o desenvolvimento do estado. A Paraíba andou dormindo, sabe? E é inegável que no governo de João Azevêdo vários setores começaram a despertar. A gente ainda precisa criar e fortalecer uma indústria, mas a gente vê que as pessoas trocaram o jumento por uma moto, por exemplo, e passaram a ter uma qualidade de vida melhor”, argumenta.

Desenvolvimento integral

A professora Janete Rodriguez destaca que a principal ideia por trás de uma Paraíba do futuro é o desenvolvimento integral, capaz de estimular a educação e dar melhores condições de vida e saúde para todos. “Uma população saudável, uma população que lê é uma população que promete. Por isso, através da memória, da história, das estratégias e soluções, a gente propõe esse conjunto interdisciplinar de temas em perspectiva, como um farol iluminando o futuro”, sintetiza.

A recomendação da organizadora é começar a leitura pelo primeiro volume, Da bagaceira ao mel, para ter uma percepção maior das injustiças sociais ainda hoje existentes e suas raízes histórico-culturais. Quanto a Paraíba século XXI, não há indicação para sequência da leitura. Se alguém é curioso, pode iniciar, por exemplo, pelo último capítulo, que aborda questões atuais como ciência e tecnologia. O texto tem autoria dos pesquisadores Amilcar Amílcar Rabêlo de Queiroz, presidente da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (Fapesq), e Cláudio Furtado, Secretário de Estado da Ciência, Tecnologia, Inovação e Ensino Superior, que participou da equipe de formatação do projeto.

“O momento atual da Paraíba na área de ciência e tecnologia é muito importante. Foram feitos investimentos em diversos setores e no apoio às universidades, sobretudo nas pós-graduações, que mostram um estado à frente na formação de recursos humanos altamente estratégicos, segundo dados da própria Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior)”, pontua o secretário.

Furtado chama atenção para iniciativas ligadas às ciências e tecnologias promovem o desenvolvimento regional, estimulando o turismo e outras áreas econômicas, a exemplo do Parque Tecnológico Horizontes de Inovação (PTHI), do Centro Internacional de Computação Quântica da Paraíba (Ciquanta-PB) e do Complexo Científico do Sertão, que engloba infraestruturas de pesquisa como a Cidade da Astronomia, o radiotelescópio Bingo, o Monumento Natural Vale dos Dinossauros e o Museu de Arqueologia da Paraíba.

“Foi feita uma série de investimentos no estado, por isso sempre gosto de falar de ‘um estado de conhecimento’, porque nós temos mais de 200 mil alunos no ensino superior e formamos uma grande quantidade de mestres de doutores, ação que impacta muito para que a Paraíba possa, nesse mundo da inteligência artificial e da chegada da computação quântica, estar bem preparada em todas as áreas e formar mais pessoas e mão de obra qualificada para atrair cada vez mais investimentos”, frisa o gestor.

A Paraíba do futuro implica, segundo Marcone Simões, uma abertura ao novo, sem deixar de lado aquilo que é específico do próprio território. É justamente isso que a ilustração da capa do segundo volume, pintada pelo artista Flávio Tavares, procura representar: um computador quântico e o astro-rei, cujos raios incidem em primeiro nas terras paraibanas. “Depois desse projeto, no qual conversamos com cabeças tão brilhantes, percebo que temos uma necessidade urgente de dialogar e trocar experiências. Já mandamos artistas para outros lugares, temos estudantes fazendo intercâmbios... O caminho é esse: quebrar o isolamento no qual estivemos por muito tempo. O segredo da Paraíba, agora, é abrir janelas e portas para dialogar com o mundo”, aposta o pesquisador.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 07 de maio de 2026.