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Protótipo do trio elétrico na Paraíba

publicado: 02/02/2026 09h41, última modificação: 02/02/2026 10h12
Estado contribuiu para aperfeiçoar o que é considerada uma mídia sonora genuinamente brasileira
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Um dos primeiros modelos (baseado no “duo elétrico” de Newton Monteiro, do fim dos anos 1930), inventado por Genival Macedo, Gilvan Macedo e o próprio Monteiro (ilustração); sistema de som agitando a Rua Maciel Pinheiro, em 1978 e o verdadeiro trio elétrico na Micarande de 1998 | Foto: Arquivo A União

por Marcos Carvalho*

Ilustração: Bruno Chiossi

Alguém duvida que o trio elétrico é uma criação baiana? Os registros de carros de som utilizados nas festas de Momo da capital paraibana têm sido reivindicados como precursores da invenção que, hoje, mobiliza boa parte do Carnaval no país. A pesquisa do jornalista Wills Leal (1936–2020), baseada em fotos e notícias divulgadas em jornais da década de 1940, afirma que, já naquela época, brincava-se o Carnaval nas ruas de João Pessoa com equipamentos que poderiam ser considerados o protótipo do trio elétrico.

Os argumentos são compilados num dos capítulos do livro No tempo do Lança-perfume, espécie de historiografia do Carnaval pessoense. O primitivo carro elétrico carnavalesco paraibano, um Chevrolet modelo 1939, foi iniciativa do conhecido técnico de motores e eletricidade, Newton Monteiro, em parceria com um grande folião, o major Ciraulo. Uma invenção que foi aperfeiçoada, logo depois, pelo compositor Genival Macedo, para divulgar o frevo, novo ritmo pernambucano, tanto que a engenhoca recebeu o nome de Palácio do Frevo.

“Além de compositor, Genival Macedo era uma espécie de publicitário e radialista que fazia reclames para os jornais, e resolveu colocar, com o irmão, um carro com uma corneta imensa para tocar música de Carnaval e anunciar os patrocinadores de lojas, padarias etc. Isso foi logo depois da Segunda Guerra Mundial, por volta de 1946, por aí. O trio elétrico da Bahia surgiu em 1950. Se a gente considerar a questão cronológica, é um precursor dentro da lógica de sonorizar um veículo, mas não se trata propriamente de um trio elétrico, porque não tinha músico tocando em cima”, explica o jornalista e escritor Fernando Moura, que colheu esses relatos do próprio Genival Macedo e, com os registros fotográficos, estão no livro Jackson do Pandeiro: O rei do ritmo (Editora 34).

O pesquisador prefere chamar o equipamento paraibano de “duo elétrico” para distinguir da fobica baiana, mas não vê problema em considerá-lo um precursor do trio elétrico. Ele atribui a falta de referência a essa experiência local na história do Carnaval brasileiro em parte à diferença quanto ao uso de música ao vivo amplificada, como também ao fato do trio baiano ter se consolidado e expandido-se pelo restante do país. Argumenta, no entanto, que ambas as experiências precisam ser situadas em seus respectivos contextos históricos e culturais como embriões do trio elétrico tal qual conhecemos hoje.

O músico e produtor cultural Mestre Fuba, um dos fundadores do bloco Muriçocas do Miramar, presenciou a chegada do trio elétrico no Carnaval paraibano, na década de 1980, e defende o pioneirismo paraibano. Ele acredita que essa experiência não repercutiu nacionalmente porque não houve muita projeção na mídia, ao contrário do que ocorreu no Carnaval soteropolitano, em que o trio elétrico popularizou-se na década de 1970, com artistas como Moraes Moreira, firmando-se definitivamente com a ascensão do axe music, com cantores como Luiz Caldas. Tudo isso contribuiu para aperfeiçoar a invenção que é considerada uma mídia sonora genuinamente brasileira.

“No fim dos anos 1980, quando o Luiz Carlos lançou ‘Fricote’, ele começou a aparecer por aqui, mas eram trios com limitações, inclusive os primeiros que saíram no bloco das Muriçocas. A partir da década de 1990 é que eles foram se popularizando e crescendo cada vez mais em tecnologia, então começaram a utilizar caminhões trucados e depois passaram a utilizar carretas”, explica o músico. Neste ano, quando o bloco completa 40 carnavais, serão seis trios elétricos a animar o trajeto entre as avenidas Tito Silva e Epitácio Pessoa.

Até chegar ao que temos hoje, a festa de Momo reinventou-se com iniciativas de som amplificado, segundo a tecnologia existente na época, como as charangas, que se utilizavam de caminhões para fazer acontecer a folia de rua com o corso carnavalesco.

“Um desses caminhões das charangas bem famoso era o do grupo Os Morcegos, da Rua da Areia. Era um caminhão resgatado da Segunda Guerra que ficava estacionado o ano todo na frente da casa de alguém do grupo e, quando chegava perto do Carnaval, eles ajeitavam a mecânica e limpavam para sair com a banda de música, circulando pela cidade. Eles visitavam as casas com todos os integrantes fardadinhos, com a mesma roupa”, conta Fernando Moura, que chegou a participar desses carnavais na década de 1970.

Animados pela batucada em carro aberto, as charangas tornavam disputadas as chamadas Visitas de Momo, que podiam ser de surpresa ou combinadas com o dono da casa. A brincadeira do mela-mela complementava a diversão do corso carnavalesco. Mestre Fuba considera esse carnaval de rua bem mais confortável acusticamente, mas havia opção para todos os públicos, inclusive para quem não queria perder nada e brincava tanto nas charangas quanto, à noite, nos bailes dos principais clubes da cidade.

“João Pessoa foi considerada um dos melhores carnavais do Nordeste porque havia uma disputa entre os clubes Cabo Branco e Astréa, que faziam com que eles trouxessem as melhores atrações do Brasil daquela época. Eu me lembro não só da Orquestra de Severino Araújo, como da Orquestra do Maestro Cipó, das Mulatas do Sargentelli e das pessoas ligadas ao Carnaval da época, como Elza Soares, Capiba e Claudionor Germano, que davam um salto qualitativo e fazia com que João Pessoa fosse conhecida”, destaca o produtor cultural.

Fuba conta que o declínio do corso, no fim da década de 1970, deu-se em razão da violência que começou a vigorar no mela-mela, somado às proibições para sair nas ruas em caminhões ou carros abertos. Com a baixa nas tradições de rua e a popularidade das folias de Olinda, Recife e Salvador, veio também o enfraquecimento dos clubes, que já não atraíam mais a juventude. Apesar das tentativas de revitalização da festa, o Carnaval pessoense só superaria a crise na segunda metade da década de 1980, com o Muriçocas do Miramar, bloco que, segundo Fuba, surgiu justamente para responder a divulgação na imprensa de que a capital paraibana era lugar para descansar nos dias de Momo.

“Quando Muriçocas saiu pela primeira vez foi uma brincadeira, mas no segundo ano resolvemos colocar de novo o bloco na rua, com dois pequenos trios elétricos, e já existia no inconsciente coletivo essa vontade de brincar o Carnaval”, completa Fuba, que está lançando o livro A Celebração da Alegria 40 anos de Muriçocas (Editora A União), no qual conta a história do bloco e também das tradições dos carnavais brasileiro e paraibano.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 1º de fevereiro de 2026.