Quando li pela primeira vez a obra do francês Yves d’Evreux, intitulada “Viagem ao norte do Brasil” — feita nos anos de 1613 a 1614 —, na qual ele dizia que meus antepassados podiam “remontar-nos, sem esquecer-nos, até o tataravô” (2002, p. 137), ou seja, o quarto avô; e, depois de ter feito a experiência de pesquisar in loco, cumprindo o que pede o método científico — embora eu não seja acadêmico —, constatei que havia essa prática entre meu povo ainda. Em um diálogo com meu pai-avô (o pai de minha mãe), escutei, de forma clara e objetiva, os nomes de alguns de meus ancestrais.
Eu, Ezequiel Maria, filho de Itapuana Alves Pinto, que é filha de Antônio Martins Pinto, que é filho de Alzira Maria Justino, que era filha do casal Justino Apolinário José e Joanna Maria da Conceição. O meu pai-avô, Antônio, era filho do senhor Severino Pinto, que era filho de Luiz Pinto, o qual era filho de José Saloia, vulgarmente conhecido como “Pinga-Fogo”, os quais receberam títulos de terras da mão do imperador Dom Pedro II, em 1867, nos nomes de nossos antepassados Antônio Luís Pinto e Rosendo Pinto de Carvalho.
Munido dessas informações e de outras que adquiri ao longo da pesquisa, enveredei-me em reconstruir a genealogia de alguns dos personagens históricos do meu povo potiguara. Questionei-me: por qual linhagem os dois grandes heróis da minha nação, Pedro Poti e Felipe Camarão, eram primos e em qual grau? As informações são escassas e pouco se registrou a esse respeito; contudo, como diz Fernando Pessoa, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”, e minha alma — e refiro-me não ao sentido religioso cristão, mas em sentido etimológico: a psique — desejava a aquisição da verdade dos fatos. Não me contentei em aceitar o simples: “eles eram primos”. Isso é muito vago. Por que eram primos e como provar? Isso, sim, é importante. 
É preciso pontuarmos, ou melhor, traçarmos uma linha lógica que nos ajude a montar essa árvore genealógica. Geraldo de Almeida, em sua obra Indígenas heróis do Brasil: memórias sinceras de uma raça, traz-nos a informação de que Pedro Poti era “parente do célebre Camarão” (1988, p. 102); em outras palavras, primo. Ao analisarmos as Cartas dos Camarões, documento transcrito pelo professor Eduardo de Almeida Navarro, encontraremos que seu pai e seu avô chamavam-se “Jaguarari” (o pai) e “Araruna” (o avô), conforme consta na carta enviada por Felipe Camarão aos 4 dias do mês de outubro de 1645, na qual ele diz:
“Emonãnamo, nde ramỹînha, tuîba’e Araruna, nde ruba Îagûarari, amõ opabenhẽ nhandé anama, t’ererur, senosema”. Tradução: “Portanto, traze teu avô, o velho Araruna, teu pai, Jaguarari, todos os outros parentes nossos, fazendo-os sair contigo daí”.
Portanto, encontramos, na carta enviada por Felipe Camarão, a informação de que Pedro Poti era filho de Jaguarari e neto de Araruna. No entanto, é interessante observarmos que esse mesmo Jaguarari, conforme referiu Francisco de Brito Freyre na obra Nova Lusitânia: história da guerra brasílica, teria sido preso pelos portugueses em Baía da Traição, na represália de 1625, sendo acusado de trair os portugueses, ao alegar que estava tentando salvar sua mulher e seus filhos. No fim, acabou sendo preso por oito anos no Forte dos Reis Magos, sendo libertado pelos holandeses, em 1633, ocasião em que acabou novamente se aliando aos portugueses.
Segundo o mesmo Brito Freyre, esse Jaguarari era “tio de Felippe Camarão” e, entre os portugueses, possuía o nome de “Simão Soares” (1675, p. 275). Esse fato de ele ser tio de Felipe Camarão e natural de Baía da Traição é comprovado por Ronald Raminelli, ao dizer que, “em 1625, na Baía da Traição, para libertar mulher e filhos do assédio batavo, Simão Soares passou para o lado do inimigo, ‘obrigado do amor que lhes tinha’” (2015, p. 138).
Sendo assim, munidos dessas informações, podemos cogitar o seguinte: Pedro Poti, filho de Jaguarari, deixou-se aliar aos batavos (holandeses) com a sua mãe e o seu irmão, fato que, de alguma forma, obrigou Simão Jaguarari, seu pai, a aliar-se também, não por querer trair os portugueses, mas por amor à sua família. Contudo, conforme a informação passada nas Cartas dos Camarões, não só seu filho Pedro Poti, como também seu pai, Araruna, permaneceram aliados aos holandeses; e ele, juntamente com um de seus filhos, Diogo da Costa — que era um dos filhos mais velhos e portador das cartas entre Camarão e Poti, conforme registrado na carta enviada aos 17 dias do mês de outubro de 1645.
Outra informação importante aparece nas cartas enviadas a Pedro Poti: a de que sua própria mãe e seu irmão — chamado “Lippe Tocaia” — foram assassinados na aldeia de São Miguel do Maçuí, na região do atual estado de Pernambuco.
Dessa forma, podemos alinhar a seguinte sequência genealógica: Araruna é pai de Jaguarari, que é pai de Pedro Poti, e seus irmãos Diogo da Costa e Lippe Tocaia, cujos ambos tiveram a mãe assassinada na aldeia de São Miguel do Maçuí, em Pernambuco.
Em minha obra Os Potiguara: a arte da guerra e sua organização social histórica (Coleção Potiguara), mencionei que “Felipe Camarão seria neto de Araruna e sobrinho de Jaguarari” (2025, p. 50); porém, ao analisar de forma mais incisiva as Cartas dos Camarões e ao revisitar e refletir novamente sobre as fontes por mim utilizadas, constatei outra possibilidade. Eduardo de Almeida Navarro, ao comentar sobre a procedência de Felipe Camarão, diz ser ele filho de “Potiguaçu, índio da aldeia do Igapó, situada na margem esquerda do Rio Potengi, perto de Natal”. Esse mesmo Potiguaçu, mencionado por Simão de Vasconcelos, foi o que, no ano de 1599, depois de selada a paz entre os potiguaras e os lusos-tabajara, hospedou Manuel Mascarenhas em sua aldeia, onde já se encontrava hospedado Feliciano Coelho. Isso ocorreu em 24 de junho de 1599 (Varnhagen, p. 395; Salvador, 2010, p. 356).
Potiguaçu, pai de Felipe Camarão, era irmão de Jacauna, o mesmo que auxiliou Martim Soares Moreno e Jerônimo de Albuquerque Maranhão na conquista do Ceará e Maranhão contra os franceses, por volta de 1614. Conforme expõe Geraldo de Almeida, o cacique Baturité “era pai de Jatobá e avô de Jacauna” (1988, p. 63), além de ser “irmão de Potiguaçu” (ibid. 1988, p. 82), ou seja, era tio de Felipe Camarão. O que se sabe, de fato, é que Baturité era pai de Jatobá; este, por sua vez, teve, com sua esposa, Saí, dois filhos: Jacauna e Potiguaçu (Almeida, 1988, p. 107). E Araruna? Bem, isso só pode acontecer por um motivo: “pelo fato de Araruna e Jatobá serem irmãos” (Maria, 2025, p. 88). Mas como provar isso? Entre os tupis, era comum o tio paterno ser chamado de “Tuba”, a mesma palavra utilizada para se referir a “pai”; isso não acontecia com o irmão da mãe, que era chamado de “Tutyra”. Já para se referir a primos, é comum utilizar “Tyky’yra”, embora também possa, em alguns casos, ser utilizado “Tuba”. Ambas as formas referem-se a primos por parte do pai ou primos paternos do pai.
Partindo dessa reflexão, embora simples, a conclusão é que Araruna e Jatobá são irmãos, ambos filhos de Baturité e tios do pai de Felipe Camarão. Já Felipe Camarão seria primo terceiro de Pedro Poti e primo mais novo de Jaguarari, que, por ser da parte paterna, era considerado tio, isso pelo costume da época.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 28 de junho de 2026.