Rio Tinto virou cidade em 1956 (tem 69 anos), mas contando do momento que a fábrica de tecidos foi inaugurada, em 1924, são 102 anos de história. Considerando suas reais origens, tem muito mais. São mais de 300 anos porque, fugidas das guerras no litoral, na Baía da Traição, famílias potiguaras já viviam na região no começo do século 18. Tanto é assim que, ajudando um grupo de frades carmelitas, entre 1713 e 1718, essas famílias indígenas ergueram a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, na aldeia que já se chamava Monte-mor.
O problema é que, ao longo dos anos, para ofuscar os sinais indígenas, os fundadores da fábrica ensinaram o povo a chamar a aldeia de Vila Regina. O próprio Arthur Lundgren, o segundo na ordem de comando dos negócios do Grupo Lundgren, alertou o irmão Frederico (comprador dos 600 hectares) de que ele iria enfrentar problemas na justiça com os indígenas por causa daquela ocupação.
Arthur Lundgren chegou a comandar o empreendimento industrial depois da morte de Frederico, em 1946, mas a sua previsão foi tão certeira que, após a Constituição de 1988, os nativos retomaram a posse das terras, pelo menos da Vila Regina (ou Aldeia de Monte-mor) até o litoral. Com isso, os Lundgren não perderam somente parte das terras. Perderam também mais de 800 casas, incluindo um grande anexo da fábrica e também o famoso palacete que Frederico havia construído, em 1944, para recepcionar autoridades e amigos europeus.
Na paz e no Direito, os potiguaras arremataram essa conquista no ano passado, mas, lá em 1918, a ocupação dos Lundgren foi bastante traumática. Pesquisa do geógrafo Cássio Marques aponta para o que ficou chamado de “A noite da palha queimada”, quando capangas com tochas queimaram as casas dos caboclos, afastando-os de perto do local onde a fábrica começava a ser construída.
“Qual o poder que não pode!”, foi assim que, em cima da aldeia e de amplos manguezais, a indústria foi inaugurada, em 1924, e, ainda como Vila Operária, Rio Tinto viveu um apogeu que causava inveja a cidades vizinhas bem mais estruturadas, inclusive Mamanguape, dona do território e que, em 1859, já havia recebido ninguém menos que o imperador Dom Pedro II (1859).
No auge desse apogeu, a Vila Operária não deixou por menos e, em 1933, recebeu o então presidente da República Getúlio Vargas, acompanhado de sete ministros, entre eles, o todo poderoso Góis Monteiro (da Guerra). Como os Lundgren disputavam o poder político da região com os Fernandes, há registro de que, com ciúme, Mamanguape até fechou as portas para não ver a caravana de Vargas passar.
Getúlio não veio para a capital João Pessoa e aproveitou para dar uma passadinha em Rio Tinto. Ele veio direto do Rio de Janeiro para assinar um contrato que levou a fábrica a produzir tecidos para as fardas das Forças Armadas. 
O contrato levou a Vila Operária a disparar no desenvolvimento e, por aquele período, segundo a tese de mestrado da rio-tintense Maria Bernadete Ferreira de Macedo, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a folha da fábrica chegou a contar com 15 mil empregados, o que não era normal para uma comunidade com apenas 25 mil habitantes, mais ou menos a população de hoje, conforme dados do último censo do IBGE.
Era assim: quase todo mundo da vila trabalhava na fábrica — homens, mulheres, idosos e adolescentes. Era uma época que ficou conhecida como “tempo da fartura” e, concomitantemente, “tempo da morosa”, uma referência à exploração e controle total da vida operária. Conforme Bernadete Ferreira, o operário que cruzasse os braços por alguns minutos ou demorasse no banheiro, não recebia chicotada, mas tomava muito grito quando não era demitido. Aqui tem emprego e moradia, mas “escreveu não leu...”
O clima de feudo rural transportado para um espaço urbano tomava conta da vila. Tanto que, ao invés de presidente ou diretor, o fundador era chamado, tido e havido como “coronel Frederico” — de patente comprada, claro. Esse apogeu se prolongaria entre as décadas de 1960 e 1970, mas começou a degringolar justamente quando o coronel morreu, em fevereiro de 1946.
Com a patente de “comendador”, Arthur Lundgren assumiu o comando de tudo, virou primeiro prefeito em 1950 e reinou até 1962, ano em que veio a falecer. E, em 1983, após várias tentativas de socorro junto à Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), quem morreu foi a fábrica. A população, acreditem, passou alguns anos de banzo, sem ouvir o apito da fábrica chamar o povo para trabalhar.
Em franca decadência, a vila, que havia virado município em 6 de dezembro de 1956, mergulhou numa pindaíba que, se não fosse a prefeitura e as poucas atividades de economia alternativa, a cidade também teria se acabado. Era uma penúria ver um lugar de tanta produção, pompa e poder se transformar num lugarejo de aposentados, e muitos dos filhos debandarem para João Pessoa e para o “sul maravilha” desse capitalismo de quintal.
O desastre social só não se consumou mesmo porque, em 2005, feito uma luz num fim de túnel, juntamente com Mamanguape, Rio Tinto ganhou um novo campus da UFPB. Um centro de ponta, precisamente de Ciências Aplicadas e Educação. Era uma espécie de resplendor.
Não porque a população fosse ganhar dinheiro estudando. Mas porque a economia gerada em torno e por causa do campus (principalmente a construção de prédios com apartamentos para alugar a professores, funcionários e estudantes), deu uma sacolejada no baixo astral que a economia da cidade havia mergulhado.
Chega o povo respirou aliviado. Foi trágico, mas gerou e restou muita história. E estórias também. Entre elas, a de que os galegos pernambucanos de origem sueca teriam construído o famoso palacete da Aldeia de Monte-mor para abrigar/esconder o próprio Hitler, ao final da Segunda Guerra Mundial. Que Rio Tinto tinha um bocado de nazistas, não há como negar. Até porque vivia-se uma época em que onde havia alemães, havia partidários do nazismo.
Agora, daí a dizer que Hitler vinha morar em Rio Tinto, aí já é demais. “Era só o que faltava...!”, costumava comentar o primeiro historiador a traçar a vida de Rio Tinto, João Batista Fernandes, o saudoso Batistinha.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 12 de abril de 2026.
