No próximo dia 18 de abril se comemora o Dia Nacional do Livro Infantil. Em celebração antecipada à efeméride e à força ancestral que emana da oralidade, o sarau poético “Histórias ao vento: um tributo ao livro infantil e à arte de contar histórias”, acontece amanhã, a partir das 15h30, na sede do Centro Estadual de Arte (Cearte), localizada no Centro da capital. Em meio ao rol de homenagens, encontra-se a professora da instituição e também escritora Manu Coutinho, que estará autografando O menino e o vento (Editora Grafset), sua estreia junto à seara da literatura infantil. O evento é aberto ao público.
O roteiro da aventura se inicia na acolhida musical executada por Ana e Erick (Borboletês). Às 16h é a vez de algumas palavras afetivas sobre o livro infantil e os saberes ancestrais, adornadas às 16h30 pelo lançamento de O menino e o vento. Já o sarau aberto ocorre às 17h, com microfone livre para declamações, leituras e histórias do público.

- Manu Coutinho fala sobre a arte de contar histórias e autografa seu livro infantil, O menino e o vento | Foto: Marcelo Coutniho/Divugação
Priorizando a produção paraibana, o evento guarda lugar cativo no calendário semestral da escola, que há pelo menos 10 anos vem desenvolvendo seus encontros poéticos, com a participação de homens e mulheres da cultura local. “Nesta edição o pessoal decidiu homenagear a prata da casa”, brinca Manu Coutinho, que atua no Cearte como professora de Literatura – o centro oferece cursos livres nas áreas de Artes Visuais, Fotografia/Audiovisual, Dança, Literatura, Música e Teatro. A narração coletiva da tarde de amanhã ficará a cargo de alunos do curso de contação de histórias do Cearte.
Sobre meninos e homens
Dentro de sua área, Manu ministra cursos de formação para contadores de histórias e mediações de clubes de leitura, a princípio voltados para o público adulto, mas posteriormente dedicados ao jardim da infância.
“Eu começo com a contação de histórias a partir da docência. Quando fui dar aula e vi que as histórias poderiam ser aliadas potentes”, diz a professora, que desde 2008 investiga a prática lúdica imbricada à oralidade e à escrita. “Chega uma hora que a gente conta tanta história que acaba escrevendo as nossas próprias histórias”, atesta.
Com ilustrações de Juliane Engelhardt, O menino e o vento surge tanto do contexto de imersão artística no qual mergulhava a escritora, quanto do sopro sensível do seu maternar, na época em que um filho veio trazer-lhe novas lufadas de inspiração. Do lugar da contação, ela afirma sua arte para adultos, bebês e crianças. “Mas esse meu primeiro [livro] vem para as crianças”, pontua. A propósito, o livro foi lançado há dois anos – saindo agora pela editora Grafset – e foi aprovado recentemente no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) para constar em breve no catálogo de livros para escolas.
“Uma história é um presente”
Para Manu, não existe, grosso modo, uma separação temática absoluta entre diferentes faixas etárias quando o assunto é contação. No entanto, ela enumera alguns aspectos: “Desde a linguagem que você vai escolher pra fazer chegar, ao ritmo, ao tempo, à temática. Acho que a gente pode trabalhar com as crianças temas sensíveis como o luto, por exemplo, até porque crianças também passam por processos de luto. Tá na forma de como você chega nessa criança pra passar essas histórias”.
Oriunda da Filosofia, a escritora tem a fagulha da pesquisa acesa em um primeiro momento a partir do contato com o suporte/objeto livro, atenta às possibilidades aproximativas que são próprias à dinâmica de sua utilização. “Existe uma diferença entre ler e contar. Quando eu tô com o livro e passo página a página, eu tô lendo esse livro. Depois que eu leio e quero contar aquilo que ficou em mim do livro, aí eu conto”.
Ela explica que ao contar uma história, seja em contextos de espetáculo, seja “numa varanda, com as crianças ‘tudo espalhada’ pelo terreiro”, outros recursos precisam ser acessados, que não apenas o conteúdo em si. Entram em cena elementos como a entonação de voz, os gestos, entre outros. E mesmo assim, ela consegue enxergar um limite claro que não permite fazer transbordar o gênero para o campo do teatro.
“Na contação eu diria que é um pouco diferente,”, comenta, “porque você nunca conta a mesma história do mesmo jeito. É muito mais dinâmico, tem a interação, uma criança que te interrompe porque quer muito comentar; tem as intempéries que acontecem no caminho, como você está naquele dia. A história vai sair pegando esses recursos de voz, de corpo, talvez de recursos – seja um boneco, um objeto. Eu costumo dizer que uma história é um presente”.
Afinal de contas, entre os povos originários as histórias são consideradas terapêuticas, medicinais, dadas as propriedades curativas da alma presentes nas memórias e relatos orais entre as comunidades. Com a complexificação das estruturas sociais e as transformações entre os tipos de solidariedade social experimentados após o advento da industrialização, a força da tradição oral foi se perdendo em meio à rotina excruciante do operariado.
Porém, a contrapelo das coerções sociais, a instituição da escola no Brasil passou a resgatar o lugar do contar frente às novas gerações. Prova disso é que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), normativa basilar das competências gerais da Educação Básica, elenca já na pré-escola objetivos de aprendizagem como “criar e contar histórias oralmente, com base em imagens ou temas sugeridos” ou “recontar histórias ouvidas e planejar coletivamente roteiros de vídeos e de encenações, definindo os contextos, os personagens, a estrutura da história”. “Contar e ouvir histórias seria é um recurso pedagógico muito poderoso. A escola, de uns tempos pra cá entendeu a importância desse recurso valiosíssimo e começou a trazer para si”, afirma.
Enfática, a escritora considera o repertório como item que não pode faltar na sacola imaginária de um bom contador de histórias. “Um bom contador de histórias precisa, sobretudo, ser um bom ouvinte de histórias. É uma pessoa curiosa de partida”, diz ela, lembrando da contadora paraibana Luzia Teresa dos Santos (1909-1983), que alcançou o recorde de 242 contos narrados, registro catalogado pelo Núcleo de Pesquisa e Documentação da Cultura Popular (Nuppo), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Apesar do trabalho de qualidade que vem desempenhando há décadas no estado, Manu faz ainda um apelo em relação à instituição que integra: “A gente está num estado ‘Cearte pede socorro’. Precisamos que as pessoas comecem a entender e a valorizar esse trabalho incrível que a gente faz. É uma escola imensa, incrível, com professores de referência nacional em suas respectivas áreas e que eu acho que deveria ser melhor valorizada”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de abril de 2026.