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A imaginação nos porquês

publicado: 22/04/2026 09h03, última modificação: 22/04/2026 09h03
Clássico absoluto da literatura infantil brasileira, Marcelo, marmelo, martelo, de Ruth Rocha, completa 50 anos
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A autora Ruth Rocha em 2023, com o elenco da série de TV baseada no livro | Foto: Divulgação

por Daniel Abath*

Certa vez, um menino curioso resolveu cismar com os nomes do mundo. “Mamãe, por que é que eu me chamo Marcelo?”, perguntava com franqueza crítica ao constatar a correspondência naturalizada entre as palavras e as coisas. Era Marcelo, marmelo, martelo (Editora Salamandra, 1976), história criada por aquela que viria a se tornar uma das maiores escritoras de livros infantis do país, Ruth Rocha – mal sabia ela que a obra viria a se tornar um best-seller internacional, resistente ao tempo, contando hoje com 50 anos de existência. A propósito da data, A União presta sua homenagem ao clássico infantil lançando também algumas perguntas aos adultos que entendem do assunto.

Ruth Machado Lousada Rocha nasceu em 2 de março de 1931, em São Paulo. E foi lá mesmo, na primeira infância, que teve os contatos iniciais com a literatura, a exemplo dos contos clássicos dos irmãos Grimm, de Hans Christian Andersen (1805-1875) e Charles Perrault (1628-1703). Mas a leitura de As reinações de Narizinho (1931) e Memórias de Emília (1936), de Monteiro Lobato foram mesmo decisivas para os rumos que tomaria jornada da escritora.

Sua estreia na literatura infantil se deu em 1976 com Palavras, muitas palavras, em um texto dotado de coloquialidade e de respeito aos leitores mirins, desafiador das convenções de um Brasil fustigado pelo regime militar. Formada em Ciências Políticas e Sociais pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, a veia crítica vem na esteira da obra de Ruth de maneira indelével. No mesmo ano, lançou o segundo rebento, Marcelo, Marmelo, Martelo, livro que se tornou um dos maiores sucessos editoriais do país – são mais de 70 edições e cerca de 20 milhões de exemplares vendidos, tendo sido publicado em espanhol e lançado nos Estados Unidos e em Portugal. 

A capa da primeira edição de Marcelo, marmelo, martelo, de 1976 | Imagem: Reprodução

A escritora e colunista de A União, Neide Medeiros, por exemplo, diz que chegou a utilizar a obra em sala de aula quando de seu ofício docente. “Ruth Rocha teve uma importância muito grande para a literatura infantil. Juntamente com Ana Maria [Machado], ali nos anos 1980, fizeram uma espécie de revolução na literatura infantil brasileira”, comenta Neide, lembrando que para além da afinidade das letras, Ruth e Ana Maria Machado eram também cunhadas.

“Depois houve a separação da Ana Maria com o marido, mas elas continuaram muito amigas; e principalmente nessa inovação da literatura infantil brasileira, inclusive as duas escrevendo para a revista Recreio”, afirma. “Com Marcelo, marmelo, martelo a Ruth fazia uma espécie de jogo de palavras para que as crianças entendessem um pouco dessa linguagem onomatopaica, muito lúdica para as crianças”.

Entre os anos de 1957 e 1972, Ruth foi orientadora educacional do Colégio Rio Branco. Nessa época, passou a escrever sobre educação para a revista Cláudia e durante muitos anos para a Recreio, além de ter assumido a coordenação do departamento de publicações infanto-juvenis da editora Abril em 1973.

À prova do tempo

Professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ana Crélia Dias conheceu a obra cinquentenária quando trabalhou como professora de crianças na década de 1990. Defendeu, mais tarde, a dissertação do mestrado em Letras sob o título “Nem tudo o que seu mestre mandar: o discurso ideológico em textos infantis”, analisando as obras de Ruth Rocha e Ana Maria Machado.

“Esse livro faz um divisor de águas muito grande na literatura infantil, na minha opinião”, diz Ana Crélia. “Ela é uma autora que trabalha muito com o humor, com as caricaturas de reis, de poderosos, mas com Marcelo, marmelo, martelo ela vai em uma outra direção. Não deixa de trabalhar com essa ideia do humor também, porque Marcelo é muito inventivo, muito semelhante às crianças que ela cria; crianças que eu chamo de ‘Emílias’, que vêm na contramão da ideia de obediência infantil”, atesta, pontuando a tácita inspiração da obra de Lobato sobre as criações de Rocha e Machado.

Crélia explica que as crianças sempre gostaram muito do livro por enxergarem nele a brincadeira contida no ato de imaginar. Posterior ao mestrado, a pesquisadora trabalhou ainda com as autoras clássicas ao ministrar aulas na especialização em Literatura Infantil e Juvenil da UFRJ. “Esse livro sempre esteve nos repertórios das minhas aulas como professora no ensino superior também”, admite.

O crossover com a Turma da Mônica

Autor de Escrito no ônibus (2007), Rapunzel e outros poemas da infância (2012) e Augusto dos Anjos em quadrinhos (2014), o escritor e professor paraibano Jairo Cézar acredita que Marcelo, marmelo, martelo permanece atual. “Principalmente pela forma como trata a linguagem, de maneira criativa, inventiva e questionadora [...] valoriza o pensamento crítico desde cedo, mostrando que é válido questionar o mundo ao redor”, diz ele.

Já a escritora Ida Steinmüller, que debutou na seara literária infantil com O jacaré do Açude Velho (Centro Editorial IHCG, 2023) e atualmente trabalha em um novo livro do segmento, considera o clássico de Ruth como “inspirador”, identificando a profundidade extraordinária da obra. “A obra de Ruth tem um conteúdo ímpar, primaz. Entrou num universo de compreensão de leitura, de formação de leitor. O Marcelo é pura criatividade”, diz ela.

“A obra é atualíssima! É um clássico, tá no mesmo nível do Monteiro Lobato, mas é preciso que essa obra volte a ser estudada nas escolas, na pré-escola, no ensino fundamental, porque ela é apropriada para essa nova geração, porque as crianças estão hoje se educando com a palma da mão em um celular. Tem que ser com o livro. Ruth Rocha tem que retornar aos ambientes escolares”, conclama Ida.

Para Ana Crélia, não há como negar que a literatura passa por transformações próprias ao tempo histórico. “O que a gente tem hoje não é mais aquele perfil de literatura infantil que a Ruth Rocha produziu e que é clássico hoje. Hoje é muito mais voltado pras temáticas, pra ensinamentos. A gente deu meio que uma regredida em relação ao projeto estético de criar para as crianças pautado na imaginação”, considera, ressalvando a excelência de autores contrafeitos à demanda mercadológica por temas, citando o escritor brasiliense Roger Mello. “Os melhores autores hoje estão investindo muito na introspecção da criança, na capacidade de imaginar mais por uma via de aprofundamento psicológico das personagens”, acresce.

Curto, de linguagem simples, mas ao mesmo tangenciando questões profundas e complexas, a exemplo da máxima shakespeariana de que a rosa com outro nome exalaria a mesma fragrância, Marcelo, marmelo, martelo continua a suscitar dúvidas, perguntas e questionamentos salutares ao desenvolvimento responsável das nossas crianças. Mesmo diante das absolutas certezas das pessoas grandes.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de abril de 2026.