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Aberto para o inesperado

publicado: 15/10/2026 09h38, última modificação: 15/10/2026 09h38
Chico Chico volta a Paraíba para shows hoje, em Campina Grande, e amanhã, em João Pessoa, sempre disposto a sair da sequência de músicas prevista
Chico Chico Créditos por Michelle Castilho 0X6A0382.jpg

“Um show nunca é igual ao outro. Sempre há canções novas no repertório”, afirma o cantor | Foto: Michelle Castilho

por Daniel Abath*

A relação de Francisco Ribeiro Eller, o Chico Chico, com o palco passa pela abertura ao inesperado. Mesmo quando há um roteiro definido para o espetáculo, o cantor e compositor prefere deixar espaço para os improvisos, os arranjos que se transformam durante a apresentação e a troca com o público. É nessa dinâmica que ele prepara seu retorno à Paraíba, agora com o repertório de Let it burn / Deixa arder, álbum lançado em outubro de 2025 e que marca uma nova etapa de sua trajetória musical. O artista se apresenta hoje, às 20h, no Teatro Facisa de Campina Grande, e amanhã, também às 20h, no Teatro de Arena do Espaço Cultural, em João Pessoa. Os ingressos estão à venda na plataforma Olha o Ingresso – em Campina, os valores variam de R$ 114 (meia) a R$ 264 (inteira); para o show da capital, custam R$ 240 (inteira), R$ 150 (solidário + 1kg de alimento) e R$ 120 (meia).

Chico Chico esteve em ambas as cidades no ano passado, quando realizou shows com casas lotadas. A expectativa é reencontrar o público local com um espetáculo que, embora tenha como referência o trabalho mais recente, não se limita à reprodução das faixas gravadas em estúdio.

“Foi uma noite muito especial para nós. A Paraíba tem uma energia forte, especial, e estou feliz em voltar”, lembra Chico Chico em conversa com A União acerca do show precedente na capital, no dia 26 de outubro de 2025. A memória da apresentação anterior ajuda a explicar o entusiasmo com o retorno, mas também estabelece uma diferença entre os dois momentos da carreira. Na ocasião, o músico estava concluindo a turnê de Estopim (2024), seu segundo álbum solo. Agora, a viagem pelo estado amplia as possibilidades sonoras exploradas pelo artista. 

Foto: Michelle Castilho

Para ele, a apresentação ao vivo não se resume à execução de uma sequência previamente estabelecida: “De qualquer forma, um show nunca é igual ao outro. Sempre há novas canções no repertório, novos arranjos e improvisos que acontecem na hora. A coisa de que eu mais gosto é estar no palco e o show, embora siga um roteiro, acaba sendo conforme a energia da banda e do público, claro”.

A ideia de um espetáculo aberto à tônica do momento dialoga com uma trajetória construída a partir da composição, da interpretação e da aproximação com diferentes tradições musicais. Entre rock, folk e música popular brasileira, Chico Chico desenvolve um repertório no qual a força de sua voz e a atenção às palavras convivem com arranjos que podem assumir diferentes configurações.

Lançado em 24 de outubro de 2025, Let it burn / Deixa arder sucede Estopim e dá continuidade à construção de uma identidade musical que não se prende a um gênero específico. A mistura de referências está presente tanto nas escolhas instrumentais quanto na maneira de interpretar as canções, já que, ao invés de organizar sua produção a partir de uma fórmula, Chico Chico trabalha com diferentes possibilidades de criação, mantendo a composição autoral como um dos eixos centrais.

Livro livro

Essa liberdade também aparece na origem das músicas. Ao falar sobre o lugar das letras em seu processo criativo, o cantor não estabelece uma hierarquia entre escrever e musicar. “Não tem regra. Às vezes começo a dedilhar o violão e a música surge primeiro, e outras vezes escrevo de forma bem livre e depois avalio se é uma letra ou não”, pontua.

Tal relação com as palavras ganhou outra dimensão em abril deste ano, quando o artista lançou Pequenos sigilos (Ação Editora, 120 páginas), seu primeiro livro. A publicação reúne textos produzidos ao longo do tempo e apresenta ao público uma faceta de sua produção que não depende da estrutura da canção. Dotada de poemas, fragmentos, contos e reflexões, a obra percorre assuntos como memória, afetos, experiências pessoais e a própria passagem do tempo.

A publicação surgiu a partir de escritos que Chico Chico acumulava e compartilhava ocasionalmente. O projeto ganhou forma depois que um poema divulgado por ele nas redes sociais chamou a atenção do editor Pascoal Soto, da Ação Editora. O resultado foi um livro que permite acompanhar outra dimensão de seu processo de criação, mas a despeito da estreia na seara literária, o cantor não pretende estabelecer uma sequência editorial para o projeto. “Eu escrevo muito, o tempo todo, mas por enquanto não estou pensando num livro novo”, afirma.

Fazendo queimar

O momento atual também é marcado pelo reconhecimento da indústria fonográfica. Com Let it burn / Deixa arder, Chico Chico recebeu sua terceira indicação ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Rock ou de Música Alternativa em Língua Portuguesa – seu histórico na premiação inclui a indicação em 2021 de A cidade, parceria com João Mantuano, na categoria Melhor Canção em Língua Portuguesa; e em 2022 foi indicado ao prêmio com Pomares, seu primeiro álbum solo, na categoria Melhor Álbum de Música Popular Brasileira.

O músico, porém, prefere não medir o resultado de seu trabalho apenas pela presença em premiações, como atesta: “Eu fico feliz do álbum ter o reconhecimento, sei que é um prêmio importante, mas o que eu gosto mesmo é de ver as pessoas gostando e acompanhando meu trabalho.

Outro acontecimento recente foi ter gravado com acompanhamento de orquestra – o registro consta nas plataformas de streaming de aúdio repartida em três atos. A iniciativa levou as canções a uma configuração diferente daquela normalmente explorada nos shows e nas gravações com banda. “Foi uma experiência inesquecível poder ser acompanhado pela orquestra, emocionante mesmo”, atesta categórico.

A trajetória de Chico Chico também se encontra associada, entre tantas referências musicais, à presença de Cássia Eller (1962-2001) em sua história. Filho da cantora e compositora com o baixista Tavinho Fialho, Francisco Ribeiro Eller nasceu em 1993, no Rio de Janeiro (RJ), e cresceu em contato com o universo musical. Cássia morreu em dezembro de 2001, quando ele ainda era criança, mas sua obra permanece como uma referência incontornável na formação do artista e na maneira prestigiosa com a qual o público o identifica.

A agenda de 2026 de Chico Chico ainda não está concluída. Inclui ainda uma turnê internacional, prevista para este ano. “Esse ano vou fazer uma turnê na Europa. E fazer os últimos shows do Let it burn. Depois, surpresas virão”, diz ele, atiçando as brasas.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de outubro de 2026.