Os recônditos geográficos da Paraíba, por vezes esquecidos nas brumas da história, dormitam mais tristes com a morte do professor, historiador e jornalista campinense Thomas Bruno Oliveira, na madrugada de sábado (27). Submetido recentemente a uma cirurgia bariátrica, Thomas Bruno sentiu-se mal na véspera do Natal e foi internado no Hospital de Emergência e Trauma Dom Luiz Gonzaga Fernandes, em Campina Grande. Teve uma melhora no dia 25, mas à 1h30 do sábado faleceu, aos 41 anos de idade — o sepultamento ocorreu na tarde do dia 27, no Cemitério Municipal de Bodocongó.
Autor de Impressões do Cotidiano (editora Mondrongo, 2019) e colunista de A União aos sábados na seção Crônica em Destaque, Thomas Bruno era mestre em História e especialista em História do Brasil e da Paraíba, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e da Academia de Letras de Campina Grande. Era também sócio-fundador da Sociedade Paraibana de Arqueologia e do Instituto Histórico e Geográfico de Serra Branca, do Instituto Histórico e Geográfico de Esperança e do Instituto Histórico e Geográfico de Areia.
No dia 23 de setembro de 2017, Thomas narrava no texto “A sombra do marizeiro”, primeiro de muitos, seu encontro com o painel rupestre da enigmática Pedra do Altar, em Barra de Santana, no Cariri paraibano — não à toa, o cronista chegou a conhecer cerca de 300 sítios arqueológicos do estado. As paisagens mais rústicas da caatinga, como o Lajedo do Marinho, ou as casas de outrora, a exemplo do Casino Eldorado de Campina Grande, ganhavam contornos de um greco Olimpo sob a pena historiográfico-literária do colunista, que chamava toda essa região de “nosso Mundo-Sertão”.
“20 anos do IHGC”, sua crônica derradeira, relembrou o dia em que foi agraciado com a titularidade de sócio do Instituto Histórico de Campina Grande, em 2007, tratando, sobretudo, da palestra proferida por seu confrade, o escritor e presidente da Academia de Letras de Campina Grande, Thélio Queiroz Farias, a quem chamava de “irmão do coração”.
“Conheci Thomas por meio do meu pai, Leidson Farias, há uns 10 anos”, conta Thélio. “Thomas e meu pai eram apaixonados pela cidade de Serra Branca e iniciaram uma grande amizade, em que pese a diferença de idade. Foram fundadores do Instituto Histórico de Serra Branca. Sempre admirei o escritor, pelo seu olhar de cronista das coisas e das pessoas simples. A partida de Thomas deixa uma grande tristeza para a Paraíba e um prejuízo cultural irreparável, pois considerava Gonzaga Rodrigues e Thomas Bruno como os dois maiores cronistas contemporâneos da Paraíba”.
Já o escritor e professor Bruno Gaudêncio conheceu Thomas em 2005, quando entrou para o curso de História na Universidade Estadual da Paraíba. “Era meu compadre. A vida dele era ler, escrever, estudar e ter a sociabilidade com os amigos e vizinhos”, atesta Gaudêncio, com quem Thomas tinha muita aproximação.
Gaudêncio explica que Thomas tinha uma relação muito forte com o povo, o que justifica sua escolha pela crônica. Frequentador assíduo das feiras livres, o cronista detinha relação orgânica com a vivência prática do cotidiano, apaixonado pelo encanto das ruas, mas também por arquivos de museus. “Ele foi um aprendiz de arqueólogo, com um papel fundamental na arqueologia da Paraíba. Passava semanas em escavações em vários municípios. Uma paixão muito forte com a arqueologia, que nunca deixou de ter”, afirma Gaudêncio.
“Ele viajava bastante. Já gostava muito de conhecer outros municípios, então se apaixonou profundamente pelo Cariri paraibano. Era um homem de muita leitura, mas ele não acreditava que a leitura estaria em primeiro plano — o principal era ter contato com a vida. Era um historiador do cotidiano apaixonado pelo patrimônio cultural, com uma visão preservacionista, e por isso era conhecido como uma espécie de guardião da história de Campina Grande”, comenta o escritor, sentindo que, mesmo a despeito de uma morte prematura, Thomas Bruno deixou o legado de uma vida intensamente vivida por suas múltiplas experiências.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 30 de dezembro de 2025.