Na próxima quinta-feira (26), a poeta, pesquisadora e médica Selma Vasconcelos tomará posse como membro da Academia de Letras de Campina Grande (ALCG), ocupando a vaga de Evaldo Gonçalves de Queiroz. O evento, gratuito, acontece a partir das 19h30, no Museu de Artes e Ciências (MAC) da Rainha da Borborema, no Catolé. Na ocasião, a nova associada trará a público o seu novo livro – João Cabral de Melo Neto: caminhos e artimanhas da linguagem, publicação que dá continuidade a uma extensa pesquisa de Selma em torno da obra do poeta pernambucano, tema de outras obras dela.

- Escritora também vai lançar o livro João Cabral de Melo Neto: caminhos e artimanhas da linguagem | Foto: Divulgação
O interesse de Selma pela literatura surgiu na juventude, por meio dos “caderninhos”, que preenchia com ensaios, poemas e outros escritos, e continuou na idade adulta, graças à publicação de artigos em veículos paraibanos, como A União. A primeira empreitada literária chegou a público há 20 anos — Cio das águas.
“Em seguida, publiquei um livro sobre Zumbi dos Palmares. Na ocasião, eu fiz uma pesquisa histórica sobre essa figura e fiz um livro que é um misto de poesia e história. Levantei, inclusive, os documentos de época. Também tenho outro livro de crônicas, direcionadas por fatos históricos”, cita.
Logo depois, partiu para estreitar laços com seu objeto de estudo mais recorrente, a poesia cabralina. Pautada por pesquisa patrocinada pelo Fundo Cultural de Pernambuco, ela rumou para Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e teve acesso ao arquivo do mestre.
“João Cabral inaugurou uma linguagem nova na poesia, que não é lírica, sabe? Ela se aproxima de uma prosa mais acessível. A poesia, fundamentalmente, é síntese. E os versos dele usam muitas metáforas e imagens no sentido de apresentar ao leitor o que ele menciona, exigindo um pouco de atenção e de uma proatividade”, resume.
Sobre conciliar carreiras tão distintas na medicina e na literatura, Selma destaca que, apesar de parecerem díspares, suas profissões estão unidas por um laço pouco assinalado no cotidiano: a sensibilidade, necessária para ambos os campos. Tanto a médica quanto a escritora lutam por outro desafio em comum — a desumanização.
“Apesar do avanço da tecnologia, nada substitui o olhar da medicina sobre o homem, como ser humano inteiro, com alma, físico, psique. E eu até já escrevi um poema num consultório, antes de chamar o primeiro paciente, falando sobre o sofrimento das mães sem condições econômicas”, revela.
Comentando, por fim, sobre tomar posse na ALCG, justamente no mês das mulheres, Selma Vasconcelos crava que sua conquista é ainda maior diante deste fato, razão pela qual ela tem convidado muitas colegas para prestigiar a posse, partilhando, assim, não somente os desafios da jornada dupla ou tripla da classe feminina.
“E essa carga de trabalho doméstico, familiar, marital pesa muito na rotina da mulher. Isso pode justificar nosso ingresso lento nas várias áreas de ativismo político, intelectual, entende? Talvez seja isso, precisamos fazer esse esforço além do esperado. Mas nós estamos chegando lá”, conclui.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de março de 2026.