Dois paraibanos são finalistas do 42ºTroféu Angelo Agostini, uma das principais e mais antigas láureas dos quadrinhos no Brasil, promovida pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo (AQC-ESP). Paulo Moreira concorre em seis modalidades por sua HQ Boca de siri, lançada no fim do ano passado: Melhor Quadrinho, Quadrinho Digital, Desenhista-Roteirista e Desenhista de Humor Gráfico, além de duas categorias especiais — Melhor Capista e Letrista. Já a Top! Top!, evento de cultura pop coordenado pelo empresário Manassés Filho, foi nomeado ao Prêmio Jayme Cortez, dedicado às iniciativas que ajudam a difundir esse segmento das artes visuais. O resultado virá a público no dia 29 de maio.
Em Boca de siri (selo Pitaya, vinculado à editora HarperCollins), acompanhamos as aventuras de Ygo, Vitória e Duda, crianças que seguem, de bicicleta, rumo à orla de João Pessoa, munidos da informação de que um caranguejo gigante deve passar por lá. O crustáceo vem para mostrar seu desagravo contra as obras públicas que pretendem alargar a faixa de areia da praia. Mas as autoridades locais acompanham de perto essa movimentação. A obra remonta a infância do próprio Paulo e outros elementos da cultura popular, como os mangás.
Paulo Moreira tem circulado o Brasil participando de eventos — como o Circuito Amazônico de Quadrinhos, em Belém —, e, nessas viagens, tem recebido feedback positivo do público, mesmo que algumas referências sejam mais bem reconhecidas pelos paraibanos.
“As pessoas estão indo atrás sem saber como é. E eu sempre fico num suspense para conferir se vão gostar ou não, mas, até agora, estão gostando. E eu acho que, mais do que em Bom dia, Socorro [seu trabalho anterior], esse fala muito mais da cidade de João Pessoa”, analisa.
O projeto de Paulo ganhou medalha de prata no Prêmio Grampo 2026, ficando a apenas quatro pontos do primeiro colocado, Algumas de suas verdades ainda moram em mim, de Alexandre Lourenço. O artista declara que essas conquistas são importantes em termos pessoais e coletivos.
“Dão um holofote para as histórias da nossa região. Isso é massa demais, tanto para quem é de fora e lê como para quem é daqui e vê um livro que se passa no Centro e na Praia de Cabo Branco ganhar um troféu e ser indicado a outros”, assevera.
A Top! Top! — Convenção Paraibana de Quadrinhos tem edições regulares desde 2012. Comentando sobre a evolução do evento em quase 15 anos, Manassés Filho afirma que a iniciativa também se modificou, buscando aproximações com tendências contemporâneas, como a internet e a ideia de sustentabilidade.
“Mas a entrada é gratuita. O intuito é fazer eventos em que as pessoas possam estar lá. Não podemos falar em inclusão e ter uma entrada a pagar”, defende.
Manassés aponta, por fim, que sua empreitada já havia sido previamente indicada ao Troféu Angelo Agostini e concorreu por três vezes ao HQ Mix, outra das láureas importantes para o segmento nacional.
“Eu acolho essas indicações com muita alegria, independente do resultado. Estar ao lado de tantas pessoas que também fazem trabalhos maravilhosos e que têm a capacidade de promover a formação da leitura, de possibilitar que pessoas venham a produzir quadrinhos, para mim, já é algo maravilhoso”, conclui.
Quem foi
Angelo Agostini, artista italiano naturalizado brasileiro que dá nome ao troféu, é peça importante para a consolidação dos quadrinhos no país. Foi o fundador de importantes periódicos na virada do século 19 para o 20: Diabo coxo, O tico-tico, Don Quixote e Revista illustrada — esta conhecida por irradiar ideais republicanos e abolicionistas. Sua relação extraconjugal ruidosa com Abigail de Andrade, artista visual, precipitou seu autoexílio em Paris; retornou ao Brasil anos depois, após a morte dela. Angelo faleceu em 1910.
Indicados a melhor quadrinho:
- Boca de siri, de Paulo Moreira (Pitaya)
- Cangaceira, de Pedro Mauro e Jairo Moreno (Trem Fantasma)
- Domingos, de Sidney Gusman e Jefferson Costa (Pipoca & Nanquim)
- Dormindo entre cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci (Comix Zone!)
- Incidente em Antares, de Rafael Scavone, Olavo Costa e Mariane Gusmão (Quadrinhos na Cia.)
- Mulher-diaba no rastro da perdição, de Ataíde Braz e Laudo Ferreira (Trem Fantasma)
- Música popular em quadrinhos: Bossa Nova, de Laura Athayde, Juliana Russo, Lielson Zeni, Samanta Flôor, Helena Cunha, Carol Ito, Cora Ottoni, João Lin e Alexandre S. Lourenço (Brasa)
- Ouroboros, de Luckas Iohanathan (Comix Zone!)
- Relatos autistas, de Fulvio Pacheco, Celina Pacheco, Raphaela Corsi e Carol Sakura (Arte & Letra)
- Você precisa saber de mim, de Helena Cunha (nVersos)
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de abril de 2026.

