“Uma cabeça ‘nordestina’” e um “olhar doce e triste”. A descrição estereotipada, mas sensível do diretor fluminense Walter Lima Jr., em entrevista concedida nos anos 2000, justifica a escolha do então garoto Sávio Rolim para o papel principal de Menino de engenho, longa-metragem de 1966 que alçou o paraibano ao estrelato, mas que não foi suficiente para mantê-lo em evidência nos anos que se passaram. Morto na última sexta-feira (13), Sávio, cajazeirense, deixou um legado importante, mas tão melancólico quanto a trajetória de Carlinhos, seu personagem de estréia, pinçado do universo regional de José Lins do Rêgo.
Após o sucesso de Menino de engenho, ele prosseguiu na carreira como ator, em papéis menores. Seu crédito seguinte é datado de 1970, no obscuro filme Amor em quatro tempos, de Vander Sílvio. Na mesma década, integrou o elenco de Soledade – A bagaceira, longa de Paulo Thiago, baseado em obra seminal da nossa literatura, escrita por José Américo de Almeida. No início dos anos 1980, fez uma participação no seriado Carga Pesada, da TV, num episódio intitulado “Lance final”, um dos últimos desta fase do programa.
Adulto, ingressou no jornalismo, trabalhando como repórter de A União e do Correio da Paraíba; ao mesmo tempo, os convites para o audiovisual começaram a rarear. Uma de suas derradeiras aparições foi em Bonitinha, mas ordinária, (Braz Chediak, 1981), filme inspirado no livro homônimo de Nelson Rodrigues. Em busca de melhores condições de vida, partiu para Serra Pelada, mítico garimpo do Pará, na tentativa desesperada de encontrar ouro. Sem sucesso, regressou à Paraíba no final da década de 1980, e passou a viver de bicos.
Sávio foi “resgatado” do ostracismo nos anos 2000 por meio do média-metragem documental O menino e a bagaceira, de Lúcio Vilar. Ele e o roteirista Audaci Junior (atual editor do suplemento Correio das artes) reencontraram o ator morando num cortiço, na capital, em situação de vulnerabilidade. “As pessoas que conheciam Sávio diziam ‘Olha, se quiser fazer um filme sobre ele, corre, porque a situação dele está crítica’, devido à dependência química. Mas Sávio foi super receptivo ao projeto desde o início”, recorda Lúcio.
A equipe acompanhou seu cotidiano em João Pessoa e viajou com Sávio até Cajazeiras; por lá, os realizadores conversaram com sua mãe, Marilda. Bem recebido em mostras brasileiras, o longa, disponível no YouTube, angariou diversos prêmios. Mas essa empreitada, segundo Lúcio, também foi benéfica para o “menino de Engenho”. “Era uma história congelada no tempo. Mas nós colocamos o dedo na ferida, provocando o espectador sobre a condição dos nossos atores mirins, a exemplo de Fernando Ramos da Silva, o ‘Pixote’”, ressalta.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de março de 2026.