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Avesso do avesso

publicado: 19/03/2026 08h47, última modificação: 19/03/2026 08h47
Centenário de Canhoto da Paraíba é celebrado a partir de hoje, com um festival em sua terra natal, Princesa Isabel; o paraibano fez história no mundo do choro
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Data de nascimento de Canhoto foi dúvida, mas documento em Princesa crava que o centenário é hoje | Fotos: Arquivo A União

por Esmejoano Lincol*

Todo dia é dia de celebrar o legado de Francisco Soares de Araújo, o Canhoto da Paraíba. Principalmente porque, durante muito tempo, não havia consenso de que 19 de março de 1926 era a data do seu nascimento, asseverada apenas recentemente, por meio de registro cartorário. Todavia, ao assinalarmos este século de vida do também chamado “Chico Soares”, com boa parte das décadas dedicadas à música, constatamos não apenas a atemporalidade de seu trabalho, descolado das certezas em torno de sua natividade, mas a permanência do instrumentista no imaginário dos conterrâneos, para além de sua principal e mais conhecida característica: dedilhar o violão com a mão esquerda. Um festival gratuito promovido a partir de hoje, às 18h30, em Princesa Isabel — a sua cidade natal —, reverencia toda essa herança com apresentações e cursos. O evento segue até sábado (21).

Canhoto é natural no Sertão do estado. A tese do pesquisador Júlio Córdoba Pires Ferreira sobre o artista, defendida há dois anos junto à Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), assinala, justamente, o desencontro de informações sobre o dia em que ele nasceu. “Na versão on-line do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira (...), consta que ele teria nascido em 9 de março de 1926. Em outro, na página virtual da Casa do Choro, a data informada é 18 de março de 1929 (...). Artigos de jornais de diferentes épocas informam datas conflitantes, tais como 19 de maio de 1928 e os anos de 1926 e 1927”, informa.

Dados mais concretos dão conta de que a influência da família foi determinante para que o menino Francisco aprendesse a tocar um instrumento: o avô Joaquim Soares era clarinetista; o pai, Antônio, e o tio Cícero Soares eram violonistas e seresteiros. A gênese de sua noção de ritmo foi na igreja — como coroinha, era responsável por tocar o sino da matriz de Princesa. Mas, ao ter os primeiros contatos com o objeto que lhe acompanharia diariamente nas décadas posteriores, o futuro artista empunhou o violão com a mão esquerda, fazendo a vista de seu Antônio “doer”, como Canhoto relatou ao Diário de Pernambuco em 1979.  

Com Paulinho da Viola, um de seus grandes parceiros

O descontentamento inicial do pai não demoveu o garoto: ele criou, desde aquela época, um estilo próprio de tocar, sem trocar as cordas de lugar, mas por uma razão bem objetiva: tinha de dividir o instrumento com os demais parentes, todos destros. Também segundo a pesquisa de Júlio Córdoba, a popularidade do choro, nos anos 1930 e 1940, moldou as referências musicais do paraibano: o gênero foi um dos mais presentes no cancioneiro de Canhoto. Ao dar o pontapé inicial na carreira profissional, ainda na adolescência, teve sua primeira estadia em Pernambuco, ao conseguir um posto na Rádio Clube de Recife.

O “errado” que toca certo

As saudades de casa precipitaram uma volta a Princesa Isabel, onde morou até o início da década de 1950. Rumou, então, para a capital do estado: em João Pessoa, conheceu a primeira esposa, Maria Lacerda, e angariou, ainda, espaço na Rádio Tabajara. Em suas apresentações nesse veículo, tinha de ouvir uma infame piada do apresentador Pascoal Carrilho: “Vamos ouvir o único violonista errado que toca certo”, recordou noutra entrevista pinçada por Córdoba. Mas a tese do catarinense destaca que a impressão da crítica em torno do músico do interior era positiva, a partir de textos publicados na coluna do rádio em O Norte.

Transferiu-se mais uma vez para o estado vizinho na segunda metade dos anos 1950, onde permaneceu até o seu falecimento, em 2008. Na volta a Recife, ele ampliou seus contatos e sua fama. Um dos “causos” mais curiosos envolvendo Canhoto trata-se de uma viagem, em comitiva, ao Rio de Janeiro, para conhecer o músico Jacob do Bandolim, em 1959. Hospedado na casa do fluminense, aproximou-se dos mestres Dilermando Reis e Radamés Gnattali — este, bêbado e entusiasmado com o talento do paraibano, teria jogado um jogo para o alto, deixando uma mancha permanente no teto do apartamento de Jacob.

Nessa estadia na então capital do Brasil, conheceu um de seus maiores parceiros na música: Paulinho da Viola, com apenas 17 anos. O encontro foi determinante para ambos: ao passo que o paraibano tornou-se um modelo para o futuro ás da MPB, nos anos seguintes, já consolidado, Paulinho usou de sua influência para fazer o choro ressurgir.

Em entrevista ao programa Ensaio, da TV Cultura, o antigo pupilo disse que, ao utilizar a outra mão para tocar violão, Canhoto criava sonoridades ricas e distintas, ao mesmo tempo que lhe impunha dificuldades: “Eu conheço alguns que tocam assim, mas não com essa habilidade”.

A partir dos anos 1970, angariando novos públicos, foi redescoberto pelo mercado fonográfico e editou outros cinco álbuns. E, em 1984, tempos depois de sua mudança definitiva para Recife, ganhou o título de cidadão pernambucano. Acometido de um AVC, em 1998, Canhoto encerrou sua carreira ostensiva como músico.

Todavia, toda essa empreitada não foi esquecida pelos paraibanos, mesmo com sua partida. Por meio da lei estadual no 7.694/2004, estabeleceu-se o Registro de Mestres das Artes (Rema), concedido a nossos grandes artistas populares. Apelidada de “Lei Canhoto da Paraíba”, o prêmio reconhece a empreitada de sujeitos que, como ele, transcenderam datas de nascimento e falecimento.

Festival e estátua

A cidade de Princesa Isabel promove, a partir de hoje, uma grande homenagem a um de seus mais ilustres cidadãos. A nova edição do Festival Canhoto da Paraíba, que volta a ser promovido no município em um novo formato, segue até sábado (21) com uma programação gratuita, com shows e oficinas. A abertura, na Praça Frei Damião, no Centro, contará com a inauguração de uma estátua do músico, às 18h30, seguida de apresentações musicais no palco Chico Soares, a partir das 20h: Betto do Bandolim e Bozó 7 Cordas e o Baião Choro Jazz encontram o público, intercalados por um sarau com a poeta princesense Nilda Cordeiro. A grade completa pode ser conferida no perfil @festival.canhotodaparaiba, no Instagram.

Os idealizadores do evento conseguiram ratificar junto ao cartório local a data em que Canhoto nasceu — 26 de março de 1926 —, a partir de registro feito oito anos mais tarde, confirmando, assim, o seu centenário. O produtor cultural Laurindo Medeiros conta que a ideia do festival parte do anseio de manter viva essa memória de Canhoto, mas de incentivar, também, projetos similares na região, que evidenciam a música instrumental.

“Assim como em todo o Brasil, ainda há muito a ser feito na terra natal de Canhoto para preservá-lo e difundi--lo, graças a obras como ‘Glória da relâmpago’, com sua riqueza melódica”, afirma.

Laurindo conheceu Canhoto da Paraíba em 1993 e esteve com ele noutras ocasiões. “A última aconteceu em novembro de 2006, em sua derradeira visita à cidade, em uma emocionante roda de choro no Sítio Cedro. Sabíamos que seria um momento de despedida, e ele, com sua alegria e generosidade, nos presenteou com sua presença”.

Para além de principal faculdade de Canhoto, o dedilhar esquerdo, o produtor assevera que o centenário desafiava a si mesmo como músico e não somente na técnica. “O festival é, ainda, uma forma de justiça, um propósito compartilhado por aqueles que conheceram o homem e o artista”, conclui.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 19 de março de 2026.