Notícias

TEATRO

Barraqueiras voltam ao palco

publicado: 08/01/2026 09h04, última modificação: 08/01/2026 09h04
“Feirantes Profanas”, novo espetáculo da franquia do “Pastoril Profano”, estreia hoje, no Paulo Pontes
Feirantes Profanas. Foto Daniel Silva (1).jpg

Pastoras agora aparecem numa feira em um terreno invadido | Foto: Daniel Silva/Divulgação

por Emerson da Cunha*

Quem já foi pelo menos uma vez na vida a uma feira sabe que ali é um lugar de extrema capacidade imaginativa e criativa. De um lado, os gritos, os bordões e as piadas de duplo sentido, de outro, espaços ocupados muitas vezes de modo irregular, tudo isso passeando pelos tipos de pessoas, como o vendedor avarento, o bêbado cotidiano e a comerciante simpática. Em ano eleitoral, é também o local de conquista de votos — para não falar dos casos de compra e venda deles. É tomando por base as situações envolvendo os mercados e feiras, e ainda o cenário de ano eleitoral, que a Trupe de Humor da Paraíba inicia hoje (8) a temporada de Feirantes Profanas, e tem novas sessões sábado e domingo (10 e 11/1), e quinta a domingo (15 a 18/1), às 20h, no Teatro Paulo Pontes, no Espaço Cultural, novo espetáculo da franquia Pastoril Profano. Os ingressos custam R$ 50 (inteira), R$ 40 + 1 kg de alimento não perecível (social) e R$ 25 (meia), antecipados no site Olha o Ingresso.

O espetáculo começa com a ocupação irregular de um terreno por um grupo de prostitutas, em frente a uma grande favela, e que começam a montar barracas para as vendas de produtos regulares, como bolos, caldinhos e temperos, inusitados, como cordeis “dorama” em coreano, mas também outros ilícitos. Frente à irregularidade, órgãos competentes entram em ação e pedem a saída delas do local.

“As personagens invadem o terreno, montam suas barracas e de lá surge uma feira. Esse terreno não é delas, tem dono, começa a ter denúncia sobre aquelas barracas, de que está tendo ponto de encontro, venda de produtos ilícitos, contrabandeados e aí chega o Ministério Público para dizer que elas têm 24 horas para desocupar”, explica Edilson Alves, diretor do espetáculo e intérprete do palhaço Dengoso. “É quando recorrem a um político para pedir ajuda, para conseguir o alvará para poder ficar lá. E aí é quando o Dengoso, candidato a deputado, negocia, vai trocar o favor em voto. Mas só que para o favor acontecer, ele precisa lançar os vídeos da campanha eleitoral. E esses vídeos da campanha eleitoral precisam de artistas para ilustrar. E aí elas dançam o pastoril”.

Na cenografia, a equipe traz um telão de uma favela gigante de 12 metros de largura por 6 metros de altura, com cinco barracas. O elenco conta com sete atores e um músico na composição, além de mais quatro pessoas na parte técnica.

Uma das personagens é digital influencer e aproveita os cenários para fazer engajamento nas redes sociais. O diretor explica que o texto não baseou-se em feiras específicas, mas a ideia foi trazer um pouco do imaginário de cada uma dessas experiências para o palco.

“Aquela trapalhada toda, aquela bagunça desorganizada e ao mesmo tempo organizada. Pensamos no Mercado Central? Não. Pensamos no Mercado de Mangabeira? Não. Feira de uma maneira geral”, afirma.

A feira, nessa encenação, vem atrelada ao processo eleitoral de 2026. O Dengoso vai incorporar o lugar do candidato que faz as mais profanas promessas, ainda mais tratando-se de um personagem clown.

“Ou seja, a velha história de uma mão lava a outra, das contrapartidas de político, das rachadinhas. A gente fala disso tudo, dos pedidos de emprego, das denúncias”, conta. “É uma denúncia social toda hora, a gente não cita o nome de ninguém, mas, para bom entendedor, meia palavra ou meia comédia vai dar conta dos sentidos”.

Alves explica que anualmente é escolhido um tema. Nesse rol, já entraram praia, fazenda, circo, viagens, cabaré, cruzeiro, escola, os contos de fada e mesmo o terror, tema do ano passado.

“A feira é um ponto de partida onde todos os tipos do mundo aparecem. Gente branca, gente amarela, azul, magro, alto, gente de todos os gêneros e todas as etnias”, aponta. “Então, a gente acreditou que, na feira, teria esse espaço para gente levantar questões políticas, questões da popularidade, nada melhor que bordões da feira para transformar isso numa situação hilária, das relações humanas”.

A proposta é de que, mesmo com um tema específico, características próprias da trupe ainda sejam encontradas, como o uso da irreverência e do humor nordestino como ferramenta de crítica social, mas também de entretenimento. Também a “profanação” do pastoril, elemento próprio da cultura nordestina, vem ainda mais ressignificado pela questão eleitoral. Aliam-se aqui a cultura popular, o linguajar do povo e a espontaneidade das feiras e das ruas.

“A estrutura permanece a mesma, a interatividade com a plateia, humor sem denegrir ninguém, sem ferir a honra de ninguém. Além da própria encenação do pastoril”, finaliza Edilson.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 08 de janeiro de 2026.