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Caldas investiga tragédia da Bica

publicado: 23/02/2026 08h47, última modificação: 23/02/2026 09h39
Jornalista prepara livro sobre jovem que invadiu recinto da leoa e morreu após ser atacado pelo felino
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Escritor já fez mais de 30 entrevistas para o projeto | Foto: Divulgação

por Esmejoano Lincol*

Gerson de Melo Machado. Este era o nome do paraibano de 19 anos, que se tornou conhecido no fim do ano passado após ser morto por uma leoa no Parque Arruda Câmara, a Bica, em João Pessoa: ele adentrou inadvertidamente no recinto do animal, que o atacou por instinto. Os bastidores dessa tragédia são alvo da pesquisa do jornalista Phelipe Caldas. Depois do sucesso do livro-reportagem O Menino que Queria Jogar Futebol, inspiração para o filme Inexplicável, ele prepara, agora, nova obra, tendo Gerson como personagem principal.

Phelipe recorda que, como muitos brasileiros, acompanhou esse drama em “tempo real” pelas redes sociais, que difundiram vídeos explícitos do ataque. Ele que esclarece que, num primeiro, momento, buscou blindar-se do caso, diante da repulsa que sentiu pela abordagem midiática.

“Num debate com o amigo Luiz Fernando Dal Pian, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), ele disse: ‘Bicho, o jornalismo cotidiano não consegue dar conta disso’”, declarou. “Foi ele quem fez a provocação: ‘Por que não escreve um livro-reportagem?’”.

Mediante a idéia, veio o início das investigações e os primeiros contatos com editoras, em busca de apoio para a iniciativa; infelizmente, o autor não obteve respostas positivas. Mesmo com as recusas, ele decidiu tocar o projeto de forma independente, custeando o deslocamento e o desgaste para contatar fontes, com o auxílio voluntário da colega Mirela Vasconcellos e da jurista Nevita Franca.

“Eu já fiz mais de 30 entrevistas presenciais, gravadas. E pedi autorização para ter acesso a processos que correm em segredo de justiça”, pontua.

Uma das informações confirmadas com Phelipe junto a parentes e conhecidos diz respeito ao apelido “Vaqueirinho de Mangabeira”, que ele recebeu pelo contato direto com animais de montaria. Estes eram furtados por incentivo de terceiros, segundo matérias locais.

O rapaz, todavia, odiava ser chamado assim: “Virou um estigma. Não são poucos os documentos públicos que citam ‘Gerson de Melo Machado, alcunha, Vaqueirinho’. As instituições, muitas vezes, reproduzem essas violências, talvez inconscientemente”.

Diferente do livro anterior, que foi adaptado para o cinema, mas diverge, em certos aspectos, do relato real, o autor exigiria, em um novo filme, mais fidelidade à mensagem que pretende passar: “A de tratá-lo de uma forma humanizada, de entender a vulnerabilidade social e de saúde mental que ele sofria, para compreendermos o que aconteceu”.

Phelipe Caldas afirma que apesar das boas intenções que determinados jornalistas tiveram com o caso, é necessário aprofundamento em questões mais complexas, que atravessam outros “Gersons”: “Houve todo um processo de abandono que está sendo contado no livro. A sua morte ‘extraordinária’ escondeu o fato de que vidas como a dele são recorrentes. Se refletirmos sobre o que aconteceu, outros fins trágicos podem ser evitados no futuro”.  

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 22 de fevereiro de 2026.