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Carvalho marcou a direção de TV

publicado: 03/03/2026 09h00, última modificação: 03/03/2026 09h00
Ator e diretor morreu sábado; ele teve carreira sólida atrás das câmeras em sucessos como Vale tudo
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Dennis Carvalho com Regina Duarte na série Malu Mulher (1979) | Fotos: Divulgação/TV Globo

por Esmejoano Lincol*

Era 1977, Dennis Carvalho finalizava sua participação em Locomotivas, interpretando Netinho, seu personagem mais popular. Ele pediu ao diretor, Régis Cardoso, para conduzir algumas das cenas finais da trama, concebendo um antigo sonho. Seu trabalho agradou e, na semana seguinte ao término da telenovela de Cassiano Gabus Mendes, ele estreava como assistente de Cardoso em Sem lenço, sem documento, de Mário Prata. Começava assim a carreira de um dos mais profícuos realizadores do gênero, que trocou o posto de galã para o de esteta na teledramaturgia brasileira. Carvalho morreu no último sábado (28) deixando sua marca em títulos como Vale tudo, Anos rebeldes e Celebridade, escritas pelo amigo Gilberto Braga.

Dennis iniciou a carreira ainda criança, no fim dos anos 1950, ao fazer teste para o papel título de Oliver Twist, telenovela da TV Paulista, adaptação da obra homônima de Charles Dickens. Perdeu para o colega Osmar Prado, “lourinho, de cabelos tingidos”, como disse em entrevista ao programa Delas, da EBC, décadas depois. Perseverou como ator mirim, galgando, na juventude, o posto como dublador, emprestando voz para as versões brasileiras de desenhos como Johnny Quest e de séries famosas como Jornada nas estrelas e O túnel do tempo.

Enquanto consolidava-se como diretor de dublagem no estúdio AIC, de São Paulo, angariou destaque crescente em novelas da TV Tupi, como Antônio Maria (1968) e Nino, o italianinho (1969). A mudança de chave deu-se em 1974 com Jean, vilão de Ídolo de pano, de Teixeira Filho. Chamando a atenção da Globo, assinou contrato com a emissora para a primeira tentativa de exibição de Roque Santeiro, de Dias Gomes: ele interpretaria Roberto Mathias, ator que, metalinguisticamente, daria vida ao personagem título da trama, que acabou censurada.  

A ida de Carvalho e dos demais artistas que compunham o elenco de Roque Santeiro a Brasília, na tentativa de sensibilizar o general Ernesto Geisel, não surtiu efeito. A estreia no canal foi adiada para o fim de 1975 — em Pecado capital, de Janete Clair, sucesso produzido “a toque de caixa”, interpretou o publicitário Nélio Porto Rico. Anos depois, atuou como o já mencionado Netinho, de Locomotivas, que sofria com a superproteção da mãe, Margarida (Miriam Pires). Os dramas do rapaz eram embalados pela canção “Filho único”, de Erasmo Carlos.

Seu último grande papel foi em Brilhante, de Gilberto Braga, seu futuro grande parceiro profissional. Nesse título de 1981, ele era Inácio, cuja orientação sexual era reprimida pela matriarca Chica (Fernanda Montenegro). Apesar de a sexualidade do personagem nunca ficar evidente, as entrelinhas falavam por si: na última cena, Inácio embarca junto com Cláudio (Buza Ferraz) para os EUA, num inédito final feliz. Antes, o herdeiro sofreu num casamento de aparências com Leonor, composição da atriz Renata Sorrah, companheira de Dennis Carvalho na vida real.

Realizou quase a totalidade dos roteiros de Gilberto Braga a partir de Corpo a corpo (1984). Os destaques da dupla são muitos: um deles, a primeira versão de Vale tudo, escrita com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères em 1988; a trama parou o Brasil com sua discussão sobre honestidade e a morte de Odete Roitman (Beatriz Segall). Outro, Anos rebeldes (1992), minissérie que abordava o regime militar no país e que impulsionou o movimento dos “caras pintadas” pelo impeachment do presidente Fernando Collor de Mello.

Nas últimas décadas, assumiu outras colaborações, como a direção de minisséries JK (de Maria Adelaide Amaral, 2006) e o núcleo do Show da virada e do Criança esperança. Em 2025, Dennis Carvalho foi tema de um dos episódios da série Tributo, do Globoplay. Também no ano passado, assinou o seu derradeiro trabalho: a realização de quadros do programa que celebrou os 60 anos da TV Globo — dentre eles, “o reencontro” de grandes vilãs do gênero como Carminha (Adriana Esteves), de Avenida Brasil, e Raquel (Glória Pires), de Mulheres de areia.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 02 de março de 2026.