Notícias

Mistura de rap com realismo fantástico

Com elogios de nomes como o rapper paulistano Emicida, Gabriel Jardim lança o seu quinto quadrinho: ‘Preto Tipo A’

publicado: 27/06/2022 09h43, última modificação: 27/06/2022 09h43
ImagemGuaráDivulgação.png

Imagem: Guará/Divulgação

por Audaci Junior*

Quando se lê os quadrinhos produzidos por Gabriel Jardim, já se faz presente uma sonoridade bastante habitual ao cotidiano dos paraibanos: o sotaque nordestino. Além disso, o cenário pode muito bem ser reconhecido, já que os “modelos” que posam para cada quadro narrativo desperta um déjà-vu no leitor.

“Para mim é impossível pensar em criar uma história autoral sem imprimir o ambiente em que cresci ou pelo menos o sotaque”, explica o quadrinista. “É como soa natural pra mim. Acho que é uma forma de deixar mais autêntico e interessante, tanto para quem é daqui quanto para quem é de fora”.

Seu novo trabalho acaba de sair, agora por uma editora, após anos produzindo projetos para o financiamento coletivo pela internet. Depois de explorar a boemia do Centro Histórico em Café, deixar seus protagonistas enclausurados em um elevador em De Dentro da Couraça, focar de perto a vaidade e o as mazelas das artes visuais em Matrioska, e viajar pelos confins do espaço via “Uber” interplanetário em Lanço Celestino, o álbum Preto Tipo A (Editora Guará, 128 páginas, R$ 40) apresenta uma nova temática para o autor esmiuçar: o realismo fantástico.

“A ideia veio de uma vontade de contar uma história com um pouco de realismo fantástico misturada com um pouco da cultura de rap”, define Jardim. “Na época, eu estava lendo García Márquez e ouvindo muito rap. Terminou que quando juntei as duas coisas, o rap ficou um pouco mais subliminar. A ideia inicial era que boa parte das falas fossem versos, mas no final só sobrou um balão assim. Além de não ser uma história tão urbana, que geralmente é o cenário do rap. Terminei gostando ainda mais por não ter ficado tão óbvio, mas manter o espírito”, frisou ele.

Em Preto Tipo A, um pequeno vilarejo de pescadores é repentinamente assolado por uma doença misteriosa e devastadora. Nesse cenário no qual as pessoas saudáveis são “Incomuns”, cabe a um garoto chamado Domingos atender ao chamado de seus sonhos, encarar os medos e traumas do mar e tentar salvar o seu povo.

“A história se passa em alguma cidade do litoral nordestino, sem especificar. A verdade é que eu tava um pouco de saco cheio de desenhar cenários e fui atrás de um que fosse mais fácil e rápido de fazer”, confessou Gabriel Jardim. “Terminou que calhou bem com a história, já que o mar é muito facilmente atrelado ao místico ou fantástico. Assim, eu pude focar mais nos personagens e na trama em si. Mas a ideia era essa, um lugar reconhecível, mas não específico pra ser mais fácil a identificação”.

Já de cara, na capa da obra, o tema da representatividade negra se faz presente no título, além em elementos como o rap. “É um tema que me interessa muito e que acho fundamental. Voltando atrás, eu vejo agora nos meus gibis e personagens que fazia ainda criança que sempre foi algo que esteve lá. Só agora, mais velho, que faço isso com mais consciência e propósito. Todos merecem se ver representados e eu procuro contribuir com minha parcela nisso”, contou o quadrinista.

Tanto que a HQ teve comentários de nomes nacionais, a exemplo do rapper Emicida: “Gabriel Jardim é um talentoso artista fruto de muitos sonhos que o antecederam, inclusive os meus. Poder prestigiar sua busca por um caminho original, que seja artisticamente relevante ao mesmo tempo em que alça voos mais altos levando sempre suas raízes é um grande privilégio”, escreveu o músico paulistano.

“A HQ, que leva o verso do grupo paulista Racionais como nome, é de uma riqueza gigante, contando com características regionais e religiosas que apontam para nossos costumes, histórias e crenças. Ouso dizer que Preto Tipo A é quase como uma carta de amor que me fez lembrar porque amo quadrinhos nacionais”, sentenciou Andreza Delgado, criadora da Perifacon, evento de quadrinhos e cultura pop, cujo protagonismo é da periferia de São Paulo.

Arte tipo exportação

Nos últimos anos, Gabriel Jardim se acostumou a colocar suas ilustrações nas redes sociais, como no seu perfil no Instagram (@ogabrieljardim). O que resultou um bom alcance do seu trabalho. “Alguns projetos tiveram uma boa repercussão e o maior de todos até hoje foi a Turma do Morro. Reimaginando os personagens de Mauricio de Sousa em um contexto mais periférico do Brasil. Foi o estopim, na verdade, para eu seguir fazendo coisas do tipo. Mas confesso que nos últimos meses estou meio cansado desse negócio de redes sociais, de me preocupar em postar regularmente. Estou começando a voltar a me dedicar mais para o off-line”, explica ele.

Atualmente, seguindo os passos do artista paraibano que o “apadrinhou”, Mike Deodato Júnior, Gabriel contou que está cada vez mais voltando o seu interesse em publicar para o mercado norte-americano. “Estou sendo agenciado pela ArtistGO, do Chile, e trabalhando para me adaptar ao mercado. Está sendo massa esse novo desafio e retomar um sonho de infância. As primeiras propostas já estão aparecendo e em breve devo estrear nos comics”, garantiu Jardim.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa de 25 de junho de 2022.