Atento aos sujeitos e às instituições que de forma visível ou invisível atuam em nossa sociedade, o cinema brasileiro não poderia deixar de abordar um dos setores de maior importância em nosso cotidiano, com força por vezes desconhecida: a construção civil. Este segmento alicerça os dramas de Paterno, longa-metragem do diretor Marcelo Lordello, que trata das fatalidades de uma família prestes a ruir em meio à disputa pelo poder. Na grade do Cine Bangüê do Espaço Cultural, em João Pessoa, esse filme ganha, hoje, uma sessão especial, seguida de debate, a partir das 19h, com a presença do diretor. Os ingressos custam de R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia), adquiridos presencialmente.
Em Paterno, ambientado na capital de Pernambuco, acompanhamos Sérgio (Marco Ricca), arquiteto e filho de empreiteiro, que deseja assumir a direção da empresa da família — ele ambiciona obter recursos para custear um grande projeto na região.
Mas há muitas “pedras” no caminho do protagonista: o pai, que mesmo prestes a morrer, ainda exerce influência indireta sobre os parentes; o irmão, Lucas, (papel de Nelson Baskerville), que também almeja a presidência; e Thomás (Gustavo Patriota), o filho adolescente com quem busca reconexão. Um acordo com Cláudio (Thomás Aquino), morador “infiltrado” numa área cobiçada pela construtora, pode afundá-lo ainda mais nos negócios escusos da família.
Escrito por Lordello, Fábio Meira e Letícia Simões, o filme parte de um dado real — a especulação imobiliária em Recife, nos anos 2010 — mas, constitui um intento ainda maior do diretor: uma “quadrilogia”, com personagens em idades distintas. Na cronologia indicada, Paterno é o “terceiro capítulo”, com o protagonista aos 50 anos.
“A gente estava vivendo, no Recife, uma explosão da verticalização. Isso me deu um clique para a possibilidade de falar da minha ‘aldeia’, nesses processos de transformação e das famílias, donas de empreiteiras, que disputaram tanto, externamente, o controle da cidade quanto, internamente, para se manterem nesse lugar de privilégio”, afirma.
O roteiro começou a ser filmado, em 2017, num período crítico para as políticas públicas culturais: com a supressão de recursos nos governos de Michel Temer (2016-2018) e Jair Bolsonaro (2019-2022) e a pandemia, o cronograma da produção foi atrasado. Um primeiro corte ficou pronto em 2022, mas Paterno estreou nos cinemas apenas em 2025.
“Nesse hiato entre a escrita e a filmagem, eu tinha certa insegurança de que alguns temas iriam perder o sentido em relação ao contexto, ao momento histórico. Mas a surpresa que tive foi o feedback positivo da atualidade dos temas que o filme desenvolve. Isso demonstra um caráter universalista do que a gente está tentando narrar”, assevera o diretor.
Trabalho na Paraíba
Nascido em Brasília, mas radicado no Recife, Marcelo Lordello declara que absorveu referências culturais de estados distintos graças ao trânsito dos parentes por vários estados do Brasil, diversidade que a própria capital federal ostenta. Mas o realizador pondera que boa parte dessa influência foi acumulada no Recife e por meio do incentivo dos pais.
“Eu fui um rato de locadoras e sempre ia muito para o cinema, muito por estímulo da minha mãe. Ela percebia esse viés e estimulava isso. Lembro de irmos lá nas quartas-feiras, porque você pagava metade do valor, antigamente. E mesmo muito cansado, a gente debatia o filme na volta para casa. A cinefilia faz parte muito da minha formação”, sustenta.
Estreitando os contatos com o audiovisual desde a faculdade, Marcelo acumula mais de 20 anos de experiência e tece parcerias com realizadores de outros estados — incluindo a Paraíba. A partir de 2013, trabalhou na equipe de filmes rodados aqui como Sob Medida e Miami-Cuba, ambos de Caroline Oliveira, e Batguano, realizado por Tavinho Teixeira.
“Compreendi de pronto a verve autoral de Tavinho, uma loucura muito deliciosa de fazer. Inclusive como cinema de risco, cinema que experimenta, que não tem medo. Batguano tem muito isso. Mas a gente teve uma experiência muito rica no set, de possibilidades criativas, inventividade. Foi um filme de guerrilha, feito com amigos”, ressalta.
Como autor e diretor, obteve destaque com o documentário Vigias (2010) e a ficção Eles Voltam (2012) — laureada com o Candango de Melhor Longa-Metragem no Festival de Brasília. A persistência das temáticas sociais propiciou a utilização das obras de Marcelo em trabalhos acadêmicos — pelo menos uma dezena, entre artigos e dissertações de mestrado.
“Para mim, enquanto realizador, é muito bom ver pessoas refletindo sobre o seu filme, perceber que há saberes sendo desenvolvidos, ajudando os pesquisadores e os acadêmicos a confirmarem ou contestarem teorias. Mostra quanto o filme é rico, reverbera. E continua vivo. E enquanto estudioso autodidata, adoro ler esses projetos, essas pesquisas”, revela.
Marcelo Lordello celebra o sucesso internacional de filmes brasileiros, o incremento do público e os projetos que acalentam a promoção de recursos e de espaços de projeção para as obras nacionais, mas aponta que o audiovisual brasileiro ainda vive ciclos de baixa e de alta. Ele rejeita chamar de “confortável” o momento em que Paterno estréia.
“Eu acho que a gente vive uma época muito boa, fruto de muito trabalho e de tentativa de conscientização do público em relação à qualidade do cinema que se faz aqui. Mas penso que ‘conforto’ é uma palavra perigosa, porque ela pode nos cegar um pouco em termos de luta por programas e financiamentos que incentivem a nossa produção”, conclui.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 21 de janeiro de 2026.
