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Contos como curtas-metragens: Ricardo Oliveira lança sua primeira antologia de ficção

por publicado: 04/06/2020 10h56 última modificação: 04/06/2020 10h57

por Cairé Andrade


Lançando seu primeiro livro de ficção, o jornalista Ricardo Oliveira desengaveta um antigo projeto durante esta quarentena: Eu Te Filmei e Isso Não Fez de Mim um Cineasta já pode ser encontrado em formato de e-book no site da Amazon. O novo projeto também traz um propósito social: todas as vendas realizadas no mês de junho serão revertidas à organização Visão Mundial, como proposta para auxílio de famílias em situação de risco durante a pandemia.

Oliveira já publicou outros dois livros: Blogs: Cultura Convergente e Participativa (Marca de Fantasia, 2010) e O Futuro do Conteúdo (e-book independente, 2019), além de manter o blog Diversitá desde 2007. Entretanto, o novo projeto significa um marco em relação aos novos horizontes explorados, que foram revisados para esse lançamento. “O livro estava guardado há um bom tempo. Tem textos nele que foram escritos há mais de 10 anos, outros que tem uns seis ou sete anos. Esta foi a segunda vez que retomei esse projeto, porque na primeira eu ainda não estava satisfeito com a quantidade de material e ainda não se tinha a cultura de leitura dos e-books tão forte quanto hoje, que existe a possibilidade mais facilitada para a autopublicação no sistema da Amazon, por exemplo”, comenta o autor.

"Tenho roteiros e outros projetos relacionados a cinema, mas percebi que não quero mais fazer isso. Sempre escrevi mais do que filmei e acredito que faça muito mais sentido que eu continue fazendo isso"

O escritor paraibano percebeu que não retomaria o projeto para uma possibilidade de um livro mais robusto. “Era uma produção que seguia o fluxo de pensamentos muito rápido e isso foi importante para o tratamento do texto. Nessa segunda revisão, eu reeditei todos os escritos para que fizessem mais sentido no meu sentimento de hoje em dia. Esse olhar foi superimportante porque um dos textos é contextualizado no meio das manifestações de 2013, quando eu estava em São Paulo em uma viagem de trabalho, mas que fala sobre distanciamento e se passa no meio daquele turbilhão que ainda ressoa no mundo de hoje de um jeito interessante”, aponta.

Na época em que começou a escrever, o projeto não se destinava a um livro, como explica Ricardo, mas era pensado para seu blog. Antes com o sonho de se tornar diretor de cinema, atualmente o jornalista se realiza na literatura, mas reforça a influência da Sétima Arte em suas produções e vida pessoal. “Às vezes, há influência mais direta, tem diretores e filmes mais mencionados no decorrer do livro, mas, no geral, é algo do cinema enquanto uma parte da minha vida mesmo. Quando escrevia eu atuava como jornalista cultural, redigia crítica de cinema, então é algo que faz muito parte da minha vida e é fácil fazer essa relação”.

Um dos focos na sua criação literária, aponta o autor, é a criação de sensações visuais no decorrer do texto. “O mais frequente é um sentimento do clima de filmes que gostava muito na época, como Amor à Flor da Pele, Amores Expressos e 2046”. O sentimento, como comenta Oliveira, é em relação aos relacionamentos: “gosto muito dos filmes de Wong Kar-Wai e quando olho para o todo, percebo que estava sendo muito mais influenciado do que imaginava”, brinca.

Capa.pngEu Te Filmei e Isso Não Fez de Mim um Cineasta é um marco para a carreira do jornalista. Ele é a representação da nova percepção de não querer se tornar um diretor de cinema. “Tenho roteiros e outros projetos relacionados a cinema, mas percebi que não quero mais fazer isso. Sempre escrevi mais do que filmei e acredito que faça muito mais sentido que eu continue fazendo isso”.

A época marcada pelo desejo de adolescência também passava por influências como do diretor e amigo Arthur Lins, com quem compartilhava ideias e adianta ser bastante estimulado pelo cineasta de seguir com os projetos. “Mas não quero mais, e acredito ainda que o título do livro meio que já resolve isso pra mim. É uma obra muito simbólica porque sinto que esse material precisava ser publicado”. Ricardo Oliveira, que entrou em contato com alguns amigos da área de literatura – como Lau Siqueira e Tiago Germano – para conferência de seu material, diz ter recebido suporte para a realização da publicação. “Eu sou muito grato a eles por isso e estou muito feliz com esse projeto, que significa um passo importante”.

O marco de seu primeiro livro de ficção representa também uma nova fase literária: o escritor revela que está em fase de produção de seu primeiro romance, ainda sem título, que pretende lançar ainda neste ano ou, no máximo, no ano que vem.

‘Trilogia do Antes’

O período de isolamento social tem sido, para Ricardo Oliveira, uma motivação criativa para seus projetos. “Tenho visto filmes, lido e escrito bastante”.

Em uma nova rotina, com a dinâmica de trabalho voltada para o home office, ele conta ter ganhado mais tempo livre para investir em novos projetos, e tem se dedicado ao novo romance. “Participei de uma oficina de escrita com Débora Ferraz que me ajudou muito”.

Entre indicações de filmes, ele segue na estética explorada no livro de contos, e destaca seus preferidos. “A trilogia do Antes (Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol e Antes da Meia-Noite) também tem esse clima que gosto muito e que acho que tem a ver com o isolamento e com essa época de Dia dos Namorados”, comenta.

Ricardo reforça a temática da data comemorativa do dia 12 de junho como o melhor período para o lançamento dos minicontos. “O livro se refere a esse romance fora de moda e que ninguém escreve mais, ninguém se declara mais para as pessoas, há pouquíssimas músicas românticas ou sobre relacionamentos mais à moda antiga, e acredito que esse sentimento é muito legal para resgatar”.

Produtivo na quarentena, o primeiro passo do jornalista foi o ajuste do livro de minicontos e engatar a primeira narrativa longa. “É um romance pós-apocalíptico”, adianta. Ironicamente, o novo projeto foi iniciado anteriormente à disseminação do covid-19, mas para ele, esse momento trouxe o pensamento inevitável do que está acontecendo no Brasil atualmente.


Confira minicontos do livro:


Teu olhar de cinema sueco

Levava a sério e perseguia todo dia teu sorriso, para guardar de um jeito que não se esqueça, não adormeça no fim da graça, no curso errado do que costumamos crer. Habituei-me a compreender – teu sorriso – não como acaso ou como algo que aguardo por agora e sempre, mas da forma que se deve, em constância que não se dilui, que não se perde em meio às tensões dramáticas do teu olhar de cinema sueco, em preto e branco, do século passado.

Se Bergman visse o teu sorriso, faria as comédias de Woody Allen.


Valsa doce, piano leve

Eu me calei naquela tarde de segunda e isso fez muito bem a você. Não havia minha voz, orquestra ou banda: fiz daquele instante meu clube do silêncio particular. Você me puxou para uma dança sem partitura, pois já não há música. Então dancei descompassado junto à sua respiração e quando ficou sem ar, sem chão, teu pulmão saltou contra a parede e quebrou aquele vácuo.

Respirou pela metade, me olhou com as bochechas rosadas e pediu uma valsa doce, um piano leve, um violoncelo tenso.

Dançou, me levando onde queria, mesmo que dissesse não querer. Cantou com os olhos duas lágrimas azuis, rasgou meu lenço, tua respiração ficou. Deu play, enfim: não te ouvi. (me soltou no palco e foi embora).


*publicado originalmente na edição impressa de 04 de junho de 2020.

 

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