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Crise no mundo das letras

publicado: 13/04/2026 09h08, última modificação: 13/04/2026 09h08
Retirada em massa do júri de premiação da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) faz a entidade entrar em colapso

por Daniel Abath*

Todos os anos, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) divulga listas de livros recomendados por especialistas e confere prêmios às melhores publicações desse segmento literário. Ou melhor, divulgava e conferia, pois uma crise institucional sem precedentes na história da entidade levou o grupo de votantes dos prêmios da fundação a anunciarem – em carta aberta publicada em veículos como O Globo e Folha de S. Paulo no mês passado – uma retirada em massa do júri.

Na prática, o Brasil agora está fora da principal instituição internacional de literatura infantojuvenil, o International Board on Books for Young People (IBBY), não podendo mais indicar nomes das letras nacionais ao prestigiado prêmio “Hans Christian Andersen” (espécie de Nobel da literatura infantojuvenil), no qual já venceu por três ocasiões – pelo conjunto da obra, venceram as escritoras Lygia Bojunga, em 1982, e Ana Maria Machado, em 2000; já Roger Mello foi laureado em 2014 na categoria “Ilustração”. Pela primeira vez, em mais de 40 anos, o Brasil não teve sequer um indicado à última edição do prêmio.

“Assim, comunicamos publicamente nossa saída coletiva da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil”, diz a íntegra do documento, “reafirmando nosso compromisso com a literatura infantil e juvenil brasileira, com seus leitores, autores, ilustradores, editores, pesquisadores e mediadores – compromisso este que não pode ser sustentado em uma estrutura que, em nossa avaliação, apresenta sinais de abandono institucional, falta de transparência e fragilidade de gestão”.

Durante 25 anos, a escritora e professora aposentada da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Neide Medeiros, foi leitora votante da fundação, sempre atuante junto à literatura infantil, com a divulgação dos bons livros. “Recebia livros das editoras na minha casa, fazia resenhas desses livros, analisava-os e depois enviava para a fundação”, detalha a colunista colaboradora de A União acerca do processo de trabalho que desempenhava junto à entidade. Contando com Neide, havia 25 leitoras votantes – o universo é predominantemente feminino, a exemplo de Alcione Pauli, Alice Martha, Aline Frederico, Ana Crélia e Vera Teixeira Aguiar.

A partir de 1974, a FNLIJ vinha selecionando mensalmente os melhores livros do ano, separando-os em cerca de 18 categorias, tais como “Criança”, “Jovem”, “Imagem”, “Poesia”. De cada publicação anual, as editoras enviavam cinco exemplares para a instituição, além de encaminharem os mesmos livros para as casas dos votantes, que liam e avaliavam voluntariamente todas as obras. Os melhores livros eram encaminhados para feiras especializadas, como a “Feira do Livro Infantil de Bolonha” e a “Bienal de Ilustração de Bratislava”.

De 1978 a 2024, quem esteve à frente do projeto como secretária-geral da FNLIJ foi a pedagoga Elizabeth Serra. “A ‘Beth’ entrava em contato com o presidente e o que ela ficava sabendo era isso: não tem dinheiro, os editores não contribuem com mais nada”, atesta a professora aposentada da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Vera Aguiar. “Ele entrou na fundação como interventor, dado o dinheiro que não existia. Ficou como interventor e um belo dia ele passou a presidente”, completa.

Em 2021, o professor e advogado Julio Cesar Silva assumiu como presidente da FNLIJ, para quem a indicação dos livros realizada pelos votantes não seria a mais importante das funções desempenhadas pela fundação. “Essa é uma função muito importante, muito relevante para os escritores que estimulam a produção de literatura, é muito importante para os editores. Mas além desse trabalho, a fundação tem também a função de buscar fazer projetos e atividades onde ela possa desenvolver formação de leitores”, diz Julio, ao que Vera rebate: “O princípio da fundação é incentivar e trabalhar com a questão do livro infantil e juvenil no Brasil e a sua divulgação e leitura”.

Falta de diálogo

Um dos motivos da saída coletiva, explicitado na carta pública, diz respeito às “reiteradas tentativas de diálogo com a Presidência da Fundação”. Conforme explica Neide Medeiros, Elizabeth Serra sempre organizava um cronograma de reuniões, o que não acontecia na atual gestão. “O Julio Cesar fez pouquíssimas reuniões. [...] Gerou uma certa insatisfação. Muitos dos editores que contribuíam com subvenções para a fundação foram se afastando e a entidade ficou sem dinheiro para pagar [por exemplo] uma bibliotecária, que passou a trabalhar de forma voluntária”, ela afirma. “A realidade é essa: ele não foi um presidente eficiente e deixou a fundação afundar”. Vera Aguiar confirma o fato: “Fez poucas reuniões conosco [...] não ouvia ninguém, nem nada, e terminava que no outro mês ia resolver tudo. E no outro mês não resolvia nada”.

Julio Cesar, que afirma sua expertise em ter acompanhado o surgimento dos primeiros autores de literatura infantil no Brasil, defende, entretanto, sua função como estritamente administrativa. E alega ter feito reuniões com alguns dos ex-integrantes da FNLIJ a fim de esclarecer seus esforços para angariar recursos junto a investidores. “Não há pessoa mais aberta para diálogo do que eu – pode existir próximo disso”, comenta. “O que não adianta é abrir diálogo sem ter nada pra falar – ‘vou ter recursos pra fazer o projeto?’. Não, não tem”.

Novo instituto

De acordo com Neide, escritores do segmento como Roger Mello e Daniel Munduruku se movimentaram desde meados do ano passado para criar o instituto Todas As Linguagens: Livros, Infâncias, Juventudes (Tal), que pretende ser uma alternativa para a representatividade do setor frente a atual inviabilidade da FNLIJ. No último dia 2 de abril, inclusive, ocorreu o “1º Seminário Internacional Todas as Linguagens”, do qual participaram alguns dos membros dissidentes da FNLIJ.

 “Há essa intenção. Esses leitores votantes devem integrar agora o Tal, continuando sem fins lucrativos; são pessoas idealistas”, diz Neide, ao citar Roger Mello. “Estamos com esperança de que esse movimento crie raízes e possa vingar”.

Quanto à posição dos votantes, Julio diz não ter crítica alguma a fazer. “Compreendo a posição dos votantes, respeito a posição dos votantes, e continuo acreditando na recuperação da fundação, na luta de buscar recursos – e conseguindo recursos, eu aí retomo o prêmio da fundação”, afirma. “Se esses votantes não quiserem mais eu vou buscar novos votantes na academia”.

Com sede no Rio de Janeiro e criada em 23 de maio de 1968, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil segue sua história com futuro incerto. O site da instituição, pelo menos até o fechamento desta reportagem, continua fora do ar por falta de manutenção.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 12 de abril de 2026.