Em 2019, a convite do jornalista Phelipe Caldas, a jornalista, professora e pesquisadora Sandra Raquew tornou--se colunista colaboradora de A União (sempre às sextas-feiras, na página 11), enveredando pela seara das crônicas. Manteve a produção semanal contínua, mas teve de passar um tempo em Portugal, ocasião em que não parou de escrever para o jornal. Ao voltar, percebeu que havia trazido na bagagem um livro de crônicas de viagem. Provando que as questões da existência podem gerar ótimas crônicas, Sandra Raquew lança, hoje, O caminho invisível (Editora Marca de Fantasia, 88 páginas, R$ 50), em noite de autógrafos às 19h, na Livraria A União, no piso térreo do Espaço Cultural, em Tambauzinho. Ana Adelaide Peixoto, escritora e também colunista de A União, fará a apresentação da obra.
A viagem era um projeto que tinha há muito tempo. Embarcando no processo de licença para capacitação junto à Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa — a autora montou residência durante três meses na cidade costeira de Setúbal —, resolveu fazer do deslocamento objetivo a paisagem semântica para as crônicas que viriam. Nos textos, ela evoca não só as situações vividas para além do Atlântico, mas também os preparativos de brasileiras e brasileiros emigrantes rumo a terras lusitanas.
“Desde quando você chega no Consulado para tirar o visto, você já observa alguma coisa daquela dinâmica”, diz Sandra. “Todas essas questões de organização, e também o olhar do íntimo, mas o olhar para fora, pras realidades culturais diversas. As últimas crônicas desse período eram um pouco uma leitura do processo de estar vivendo essa experiência. Quando voltei, eu disse: ‘Pôxa vida! Eu tenho um livro de crônicas de viagem’”.
Apercebendo-se da espiral temática dos textos produzidos, a princípio impalpável e inconsciente quando da imersão nos processos da vida cotidiana, Raquew priorizou em O caminho invisível retratar a tensão entre as questões práticas e aquilo a que chama de “viagem dentro da viagem”: “Uma trajetória que vai lhe mostrando coisas dentro daquela experiência”, comenta.
Muitas dessas vicissitudes envolvem dores, como a curva de adaptação dos indivíduos viajantes; experiências que denotam crescimento e maturidade, perspectivadas por lugar de fala feminino. Não à toa, várias das crônicas de Sandra, neste caderno, versam sobre a condição feminina no mundo, em consonância com seu modo de ser e estar, atravessado que é pelo horizonte de sua identidade.
“E de como essa identidade também vai se transformando ao longo das experiências de vida, de maturidade, de encontro com outras mulheres, de questões dentro do social que têm muito a ver com a nossa sobrevivência. Não é fácil a gente, ainda hoje, sobreviver. A gente, ainda hoje, luta como mulher pra sobreviver, mesmo; garantir a integridade física como mulher”, destaca a pesquisadora, pontuando, em contraponto as conquistas e os avanços adquiridos, um horizonte de desigualdades propalado não apenas pelo Brasil, mas também em países do Norte global.
Com ilustrações de Luyse Costa e prefácio de Ana Adelaide Peixoto, a obra tangencia aspectos que afligem o nosso tempo, a exemplo da questão migratória.
Mulheres, barbárie, utopia
Filha de uma geração que passou a garantir o acesso à educação, Sandra afirma ser fruto do trabalho prévio de mulheres, como sua mãe. E lembra de outras tantas que não obtiveram a mesma sorte, ficando nas casas a gerir o trabalho doméstico. “Muitas delas achavam até: ‘Ah, não fiz nada da minha vida. O que foi que eu fiz?’. O trabalho doméstico é tão invisibilizado e desvalorizado socialmente que muitas mulheres achavam que não faziam nada de suas vidas”, aponta.

A autora reforça o resultado de sua jornada como sendo a soma das solidariedades da família, sobretudo do feminino. Afinal, como ela mesma diz, há dificuldades estruturais do meio social que impõem o pleno funcionamento de uma cadeia de sensibilidades e esforços.
“A gente tem uma sociedade que não valoriza a escrita. Isso é construído a partir da informação, da comunicação, mas muitas vezes não tem esse pleno reconhecimento, como até tem da música”, ilustra, ao tempo em que aponta senso comum semelhante em relação à linguagem sonora: “Muitos dizem: ‘Ah, vai ser músico. Mas vai viver de quê?’”.
Vivendo em um mundo perpassado por guerras e acontecimentos de barbárie, Sandra afirma a atitude de “esperançar” e a urgência de antídotos culturais. Cultivar sutilezas, olhares compreensivos — como aqueles que um dia voltaram-se para a sua trajetória — e acreditar mais na política das “pequenas” boas ações coletivas do dia a dia seriam as armas do front intangível da arte.
O caminho invisível guarda também lugar especial para os encontros inusitados. “O inesperado, a surpresa; você se surpreender com o lugar, com as pessoas que você encontra nos lugares, nos trens, nos ônibus, nos deslocamentos. Reencontros de um amigo ou amiga que você não via há muito tempo e a vida te proporciona poder estar junto”.
“Quem for ler meu livro não vai ler só as crônicas, mas vai ter a oportunidade de ler o texto de uma crítica literária muito competente”, destaca, em menção a Ana Adelaide. “Eu me sinto muito honrada de fazer parte de uma Paraíba de mulheres escritoras, como a Ana, Elizabeth Marinheiro, Irene Dias, Marilía Arnaud, Maria Valéria Rezende, Renata Escarião... Tem muitas mulheres. A minha vida inteira — eu sou de Patos —, sabia de homens que escreviam. Ninguém sabia de mulheres que escreviam. É uma alegria fazer parte e de alguma forma lançar sementes”.
Entre as obras da debutante nas crônicas, estão os livros Perfis em jornalismo cultural (2014), Mulheres em pauta – Gênero e violência na agenda midiática (2011), Cartografias – Escritos sobre mídia, cultura e sociedade (2008) e Gênero, rádio e educomunicação – Caminhos entrelaçados (2005), publicados pela Editora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
Com acervo construído há mais de cinco anos, Sandra Raquew atesta o desafio em escrever para o gênero, híbrido de jornalismo e literatura, a reclamar do cotidiano seu universo de motivos. “Acaba que dentro das coisas que a gente realiza na semana, às vezes tem momentos em que o tempo fica curto. Acho muito desafiador, mas estou aprendendo a escrever crônicas. Tenho muito o que aprender”, relata.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 04 de março de 2026.
