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Cultura popular celebrada em Monteiro

publicado: 20/03/2026 09h15, última modificação: 20/03/2026 09h15
Festival Zabé da Loca começa hoje e reúne cantores para homenagear Flávio José
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A pifeira Zabé da Loca inspirou o festival, que chega à sua 15ª edição | Foto: Reprodução

por Esmejoano Lincol*

Dois ícones da cultura popular paraibana ganham reverência a partir de hoje, no município de Monteiro, situado na mesorregião da Borborema. A 15ª edição do Festival de Cultura Popular Zabé da Loca evidencia, novamente, o legado da mítica tocadora de pífano, natural de Pernambuco e falecida em 2017, mas presta, ainda, uma homenagem a um filho da terra que segue em atividade: o cantor e compositor Flávio José. As atividades, gratuitas, começam às 14h, Sítio Santa Catarina (o Terreiro de Zabé, na zona rural), com a oficina de Literatura de cordel e musicalidade. O evento encerra na madrugada de sábado para domingo, com um show de Sandra Belê, no Parque de Eventos Dejinha de Monteiro, Centro da cidade.

Flávio José se apresenta no sábado com convidados | Foto: Reprodução/Facebook

O projeto é gerido pela prefeitura local e conta com o apoio do Governo do Estado e do Sebrae. Ainda hoje, a grade do festival continua no Sítio Santa Catarina: para as 15h, está marcada a roda de conversa Vivência da cultura popular, com representantes dos artistas locais. Às 16h, os presentes serão convidados a subir até a antiga loca de Zabé, mantida aberta à visitação, com muitos dos objetos utilizados pela anciã; o passeio será acompanhado de um grupo de bacamarteiros do município paraibano de Congo. A agenda do dia será encerrada com uma apresentação da artista Erika Sales e do trio pé de serra Zé do Peba.

Amanhã, a programação será deslocada para o parque de eventos, com início às 8h: neste horário, um cortejo de pífanos rumará da feira central da cidade para o palco montado no Dejinha de Monteiro. Às 9h, um grupo de artistas congoenses encontrará a platéia: Kelwys Aboiador, Renê Cavalcante e Xexéu, Luiz Vaqueiro (como poeta declamador) e o trio João de Tião serão convocados. A grade será retomada apenas à noite, com a homenagem ao chamado “caboclo sonhador”. Primeiro, às 20h, apresentações de Diomedes e Afonso Pequeno, Miguel Farias (declamador) e do Grupo de Danças Folclóricas do Sesc.

Também no sábado, às 22h, a cantora e instrumentista Lara Amélia dará continuidade ao festival. Finalmente, às 23h, um grupo de artistas prestará tributo a Flávio José: César Amaral, Tiely e Vinícius Gregório; Flávio Leandro; Farra dos Poetas; Delmiro Barros; Rafael Moura e Santanna, o Cantador. Flávio Leandro, pernambucano, conta que já dividiu os palcos com seu “xará” em diversas ocasiões e que o paraibano já gravou pelo menos 20 composições suas. “Ter uma obra nossa na voz de alguém do nível dele é, sem  dúvidas, uma grande abertura de portas. A admiração que nutro por ele ainda é de fã”, assevera.

Sandra Belê conclui os trabalhos por volta da 1h do domingo, com um repertório de faixas extraídas do seu último EP, Sussuarana, que também dá nome ao show. A artista também assinala a importância de Flávio José para a cultura nordestina e brasileira, sendo um pilar de resistência às intempéries do mercado fonográfico e à desvalorização da cultura. “Ele é muito representativo e inspiração para a gente: não parar nunca. Nós somos vizinhos de cidades, então a gente se encontrou algumas vezes, e gravei coisas em seu estúdio, agora nunca cheguei a dividir o palco com ele, o que seria uma honra para mim”, destaca. 

Sandra Belê finaliza o dia | Foto: Kate Joenne/Divulgação

A cantora também revela que chegou a conhecer Zabé da Loca pessoalmente, afirmando, ainda, que chegou a trocar experiências com ela e a equipe que cuidava de suas apresentações. Ela aponta a pernambucana como um exemplo para todas as mulheres que, apesar das adversidades, conseguem trabalhar e criar os filhos, mediante a resiliência que repousa nelas. “A importância de reverenciar artistas como Zabé é extrema. É necessário que a gente reconheça os grandes nomes, as pessoas que são influências para que sigamos fortes e nos reconhecendo enquanto gente, enquanto povo nordestino”, conclui Sandra.

Sanfona e pífano

O monteirense Flávio José tem cerca de 50 anos de carreira. Em entrevista para A União, no fim do ano passado, o artista recordou um encontro marcante com o Luiz Gonzaga, ainda na infância, fato determinante para que, anos mais tarde, ele seguisse carreira ao lado de seu famoso instrumento. Foi durante uma viagem à cidade pernambucana de Arcoverde – na ocasião, o Rei do Baião fez um show em frente à casa em que ele estava hospedado. “Meu pai se descuidou e me perdeu. Me encontraram ao pé do caminhão, olhando bem para cima assim, para Luiz e sua sanfona. Esse é um momento inesquecível”, lembrou.

Isabel Marques da Silva, a Zabé da Loca, teve origem na cidade de Buíque, no agreste pernambucano, mas também radicou-se em Monteiro, a partir de certo ponto de sua vida. Tornou-se célebre não somente por seu talento no pífano, como por viver sozinha aos pés de uma gruta na Serra do Tungão, fechada com paredes de taipa. Foi redescoberta na velhice e chegou a gravar alguns CDs, a partir do final dos anos 1990. Apresentou-se em diversas partes do Brasil – em 2004, por exemplo, dividiu palco com Hermeto Pascoal durante o Fórum Cultural Mundial. O centenário da artista popular foi celebrado há dois anos.  

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 20 de março de 2026.