Dois ícones da cultura popular paraibana ganham reverência a partir de hoje, no município de Monteiro, situado na mesorregião da Borborema. A 15ª edição do Festival de Cultura Popular Zabé da Loca evidencia, novamente, o legado da mítica tocadora de pífano, natural de Pernambuco e falecida em 2017, mas presta, ainda, uma homenagem a um filho da terra que segue em atividade: o cantor e compositor Flávio José. As atividades, gratuitas, começam às 14h, Sítio Santa Catarina (o Terreiro de Zabé, na zona rural), com a oficina de Literatura de cordel e musicalidade. O evento encerra na madrugada de sábado para domingo, com um show de Sandra Belê, no Parque de Eventos Dejinha de Monteiro, Centro da cidade.
O projeto é gerido pela prefeitura local e conta com o apoio do Governo do Estado e do Sebrae. Ainda hoje, a grade do festival continua no Sítio Santa Catarina: para as 15h, está marcada a roda de conversa Vivência da cultura popular, com representantes dos artistas locais. Às 16h, os presentes serão convidados a subir até a antiga loca de Zabé, mantida aberta à visitação, com muitos dos objetos utilizados pela anciã; o passeio será acompanhado de um grupo de bacamarteiros do município paraibano de Congo. A agenda do dia será encerrada com uma apresentação da artista Erika Sales e do trio pé de serra Zé do Peba.
Amanhã, a programação será deslocada para o parque de eventos, com início às 8h: neste horário, um cortejo de pífanos rumará da feira central da cidade para o palco montado no Dejinha de Monteiro. Às 9h, um grupo de artistas congoenses encontrará a platéia: Kelwys Aboiador, Renê Cavalcante e Xexéu, Luiz Vaqueiro (como poeta declamador) e o trio João de Tião serão convocados. A grade será retomada apenas à noite, com a homenagem ao chamado “caboclo sonhador”. Primeiro, às 20h, apresentações de Diomedes e Afonso Pequeno, Miguel Farias (declamador) e do Grupo de Danças Folclóricas do Sesc.
Também no sábado, às 22h, a cantora e instrumentista Lara Amélia dará continuidade ao festival. Finalmente, às 23h, um grupo de artistas prestará tributo a Flávio José: César Amaral, Tiely e Vinícius Gregório; Flávio Leandro; Farra dos Poetas; Delmiro Barros; Rafael Moura e Santanna, o Cantador. Flávio Leandro, pernambucano, conta que já dividiu os palcos com seu “xará” em diversas ocasiões e que o paraibano já gravou pelo menos 20 composições suas. “Ter uma obra nossa na voz de alguém do nível dele é, sem dúvidas, uma grande abertura de portas. A admiração que nutro por ele ainda é de fã”, assevera.
Sandra Belê conclui os trabalhos por volta da 1h do domingo, com um repertório de faixas extraídas do seu último EP, Sussuarana, que também dá nome ao show. A artista também assinala a importância de Flávio José para a cultura nordestina e brasileira, sendo um pilar de resistência às intempéries do mercado fonográfico e à desvalorização da cultura. “Ele é muito representativo e inspiração para a gente: não parar nunca. Nós somos vizinhos de cidades, então a gente se encontrou algumas vezes, e gravei coisas em seu estúdio, agora nunca cheguei a dividir o palco com ele, o que seria uma honra para mim”, destaca.
A cantora também revela que chegou a conhecer Zabé da Loca pessoalmente, afirmando, ainda, que chegou a trocar experiências com ela e a equipe que cuidava de suas apresentações. Ela aponta a pernambucana como um exemplo para todas as mulheres que, apesar das adversidades, conseguem trabalhar e criar os filhos, mediante a resiliência que repousa nelas. “A importância de reverenciar artistas como Zabé é extrema. É necessário que a gente reconheça os grandes nomes, as pessoas que são influências para que sigamos fortes e nos reconhecendo enquanto gente, enquanto povo nordestino”, conclui Sandra.
Sanfona e pífano
O monteirense Flávio José tem cerca de 50 anos de carreira. Em entrevista para A União, no fim do ano passado, o artista recordou um encontro marcante com o Luiz Gonzaga, ainda na infância, fato determinante para que, anos mais tarde, ele seguisse carreira ao lado de seu famoso instrumento. Foi durante uma viagem à cidade pernambucana de Arcoverde – na ocasião, o Rei do Baião fez um show em frente à casa em que ele estava hospedado. “Meu pai se descuidou e me perdeu. Me encontraram ao pé do caminhão, olhando bem para cima assim, para Luiz e sua sanfona. Esse é um momento inesquecível”, lembrou.
Isabel Marques da Silva, a Zabé da Loca, teve origem na cidade de Buíque, no agreste pernambucano, mas também radicou-se em Monteiro, a partir de certo ponto de sua vida. Tornou-se célebre não somente por seu talento no pífano, como por viver sozinha aos pés de uma gruta na Serra do Tungão, fechada com paredes de taipa. Foi redescoberta na velhice e chegou a gravar alguns CDs, a partir do final dos anos 1990. Apresentou-se em diversas partes do Brasil – em 2004, por exemplo, dividiu palco com Hermeto Pascoal durante o Fórum Cultural Mundial. O centenário da artista popular foi celebrado há dois anos.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 20 de março de 2026.

