A dama do reggae Célia Sampaio não ostenta esse título à toa. Com quatro décadas de carreira, em 1984 ela tornou-se a primeira mulher a gravar um disco desse estilo no país, mantendo-se na ativa desde então e em carreira solo desde 2000. Em turnê por estados do Nordeste e do Sudeste, a artista maranhense chega a João Pessoa para um show hoje, às 20h, na Vila do Porto, (bairro do Varadouro), com a participação especial da paraibana Nathalia Bellar. Os ingressos estão à venda no site Shotgun, no valor promocional e único de R$ 30.
Célia está acompanhada de um soundsystem, aparelhagem que mantém estreita relação com esse gênero musical e que traz as bases instrumentais pré-gravadas, sob o comando do DJ Alcides. No repertório, faixas autorais, de compositores do Maranhão. “Eu ganhei [essas canções] e gravei no meu estilo, com minha identidade e referência. O público pode esperar ‘Black power’, que me consagrou como cantora, ‘Mulher negra’, uma composição minha e Tadeu de Obatalá, e ‘Negra nagô’, que canto há 20 anos”, antecipa.
O reggae está fincado em solo maranhense há pouco mais de cinco décadas e, consequentemente, ressoa na vida de Célia a partir da infância, graças à inserção do ritmo do cotidiano no estado, por meio da proximidade geográfica e econômica com países do Caribe. “O reggae se misturou com nossa cultura musical e, desde criança, eu escuto. Os cantores mais conhecidos aqui no Maranhão são Jimmy Cliff, Bob Marley, Peter Tosh, Gregory Isaacs e Eric Donaldson, que se eternizaram e popularizaram aqui na ‘Jamaica brasileira’, aponta.
Apesar disso, o preconceito acabou cercando o reggae – externamente, por ter como base a cultura negra, e internamente, em razão da representação feminina na cena ser menor. Superando esses desafios, o crescimento artístico de Célia tornou-se orgânico com o passar do tempo. “As mulheres encontram essa discriminação, tanto racial quanto de gênero. Mas vejo que hoje a aceitação está melhor para as mulheres, os caminhos foram abertos e agora estamos pavimentando e dizendo como trabalhamos e como devemos ser tratadas”, assevera.
Analisando os avanços desde a sua gênese como vocalista e co-fundadora da banda Guethos, Célia assevera que a principal mudança no seu trajeto e no de outros colegas repousa, justamente, no aumento da presença de mulheres em bandas e projetos solo, além da maior circulação desse estilo – antes relegado às periferias, agora consumido nos grandes centros. “[Sobre a internet,] Vejo que deu uma melhorada na visibilidade, assim como nas rádios. E vemos o aumento de políticas públicas e projetos voltados para o reggae”, avalia.
Célia Sampaio anuncia o lançamento de três singles, ainda em 2026. Dois deles com a cantora Rob Love e mais um, com Gugs, Marina Peralta e o MC Bob 13. “E para 2027, pretendo desenvolver um projeto inédito, um álbum falando de um amor que perdi recentemente. Desejo trabalhar poesias e músicas que estiveram presentes na nossa relação, em homenagem a este amor que fez sua passagem para o Orum”. Além de tudo isso, uma iniciativa perene: “Emprestar meu canto para lutas e historias do povo negro e canto popular”, finaliza.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 15 de outubro de 2026.