Seria o compositor Luiz Ramalho visionário o suficiente para conceber que um dia a Paraíba lhe renderia homenagens pelo seu legado? Podemos considerar que sim. Quando construía suas composições descrevendo o amor e o Sertão com tanta peculiaridade, o letrista não escrevia apenas música, ele gravava seu nome em lugar de destaque na arte paraibana. E como um ‘veio d’água’ que corre na serra e deixa sua marca, o 9º Festival de Música da Paraíba (FMPB) fez da cidade de Conceição o veio por onde ecoou os versos e notas de novos artistas, que buscam espaço e reconhecimento.
Este ano o FMPB exalta o trabalho de Luiz Ramalho e Cecéu. O primeiro, natural de Bonito de Santa Fé, faleceu em 1981, aos 50 anos. Apesar da partida precoce, teve tempo o suficiente para compor centenas de canções, interpretadas por grandes nomes da música brasileira, como Luiz Gonzaga, Amelinha, Elba Ramalho, Genival Lacerda e Dominguinhos.
Na sexta-feira (22), após o encerramento da primeira noite de seletiva, Geber Ramalho e sua esposa, Liziane Ramalho, se apresentaram no palco do Centro Cultural Elba Ramalho, em tributo exaltando os principais sucessos de Luiz. Um acervo musical já rico, que a acaba de ser reforçado com a descoberta de novas canções. “Eu encontrei um material inédito de papai. Muita música não gravada, e a gente tá nesse projeto de lançar e divulgar. O festival também está sendo um trampolim pra gente retomar essa divulgação”, contou Geber.
Já Cecéu, homenageada em vida, tem Campina Grande como origem. Aos 76 anos, segue firme com uma das mais importantes representantes da música paraibana. Autora, ao lado do seu companheiro de arte e coração, Antônio Barros, de clássicos como ‘Bate Coração’, ‘Homem com H’ e ‘Procurando tu’, também imortalizadas nas vozes de grandes intérpretes nacionais.
Alicerçado nas obras consolidadas de Luiz Ramalho e Cecéu, o mais concorrido prêmio de música do estado montou seu palco em pleno Sertão. Em dois dias intensos de eliminatórias, 22 e 23 de maio, 29 canções foram apresentadas. Ou mais que isso. As obras foram defendidas pelos seus intérpretes, com o empenho e a entrega de quem busca na arte o seu lugar de expressão.
Do forró ao trap, do sertanejo ao rap. A diversidade musical do FMPB é uma mostra da versatilidade do cenário musical paraibano. A realidade do Sertão, as belezas do litoral, a fauna, a Caatinga, a feira, a chuva, os amores e o orgulho de ser paraibano. Estava tudo ali, posto verso após verso, carregando a sonoridade de cada estilo. Artistas de todas as idades, apresentando ao público suas criações. Público esse que, pela primeira vez, teve acesso a um evento dessa natureza.
“Nós estamos impressionados com a estrutura e a grandiosidade do festival. É uma grande satisfação receber esses artistas aqui em Conceição. Nossa cidade é muito rica de referências culturais, mas precisamos de incentivos como esse, que inspire as pessoas, para que elas voltem a se envolver com a cultura. Eu estou encantada com o que vi aqui e pretendo estar na final, em João Pessoa”, disse a professora Cleo Pedoni, que acompanhou os dois dias de seletiva.
Preparação das músicas
Antes de serem apresentadas, todas as músicas passam pelas mão dos músicos da banda ‘Glauco Andreza’, capitaneada pelo baixista Sérgio Gallo. Os músicos desenvolvem os arranjos e aprimoram as melodias, até chegarem a versão final, apresentada pelos intérpretes, um trabalho que dura cerca de três meses. “A gente conversa com os compositores para desenvolver esses arranjos. Eu preparo a banda, fazemos os ensaios e depois, quando a gente se encontra na cidade do festival, ensaiamos com os intérpretes”, explicou Gallo, que também destacou ainda a qualidade e a pluralidade das canções propostas. “Aqui tem MC, forró, baião, samba, rock, frevo e uma diversidade de cultura que a Paraíba tem. Isso faz com que nós tenhamos essa qualidade de músicos no palco”, completou.
A banda ‘Glauco Andreza’, que homenageia em seu nome o baterista paraibano, ex-integrante da Orquestra Sinfônica da Paraíba (OSPB), falecido em 2023, é composta por músicos experientes, que acompanham o festival desde o início. É o caso do instrumentista e arranjador, Teinha Formiga. Uma formação de profissionais ecléticos, que fazem valer a versatilidade do evento. “A cada ano que a gente se surpreende com as composições e as formatações das músicas. Existe uma grande responsabilidade em manter o nível e o profissionalismo. Tocar nessa banda é sempre uma alegria, dividindo o palco com esses amigos de tantos anos”, declarou o veterano.
Seleção das músicas
A seleção das 14 músicas finalistas foi responsabilidade de um corpo de jurados, com expertise em música e olhar técnico sobre as composições. Os avaliadores são de outros estados, fator importante para manter a lisura do processo de análise das canções. “A gente avalia harmonia, melodia, ritmo e a autoria. Foi tenso, porque nós estamos mexendo com sonhos e isso é uma grande responsabilidade. Os jurados estavam muito conectados e o resultado foi justo”, avaliou o produtor musical e jurado pernambucano, R4mos ST.
Para garantir a idoneidade da votação, a equipe de tecnologia do festival desenvolveu um sistema exclusivo de votação, abolindo a pontuação em papel. As notas são lançadas pelos jurados a partir de um tablet e imediatamente calculadas, gerando a média final. Encerradas as seletivas, as músicas seguem para votação aberta. No site, o público pode ouvir e votar quantas vezes quiser, para eleger a música que considera melhor entre as finalistas.
Incentivo à cultura
O Festival de Música da Paraíba é uma iniciativa do Governo do Estado, por meio da Empresa Paraíbana de Comunicação (EPC), Fundação Espaço Cultural (Funesc) e Secretaria de Estado da Comunicação (Secom). Em sua nona edição, o evento vem circulando por todas as regiões do estado, promovendo acesso à cultura. “A gente não pode ficar restrito a João Pessoa, é preciso interiorizar, no sentido que todos os municípios possam conhecer o que se promove em relação a difusão da cultura em nosso estado, nas mais diversas manifestações”, afirmou Rui Leitão, diretor de Rádio e TV da EPC.
Um dos diferenciais deste ano, será a qualidade da entrega do produto final aos competidores. A final do festival será gravada em multipista. O processo garante a captura do áudio com mais robustez, em faixas individuais para voz e instrumentos. Em seguida a mídia será mixada e masterizada. “Os artistas que participarem da final terão suas canções gravadas com qualidade para lançar nos streamings e para tocar na rádio. Afora o formato audiovisual que a gente já tinha antes, para as redes sociais. A gente pensou nesse desdobramento como mais uma forma de contribuir para a cena musical”, revelou Bia Cagliani, presidente da Funesc.
O evento recebeu o apoio da Prefeitura Municipal de Conceição, através da Secretaria de Cultura. “Nós recebemos [o festival] com muito entusiasmo. Veio reavivar a arte, a cultura e a música de Conceição. Muitos cantores e compositores que nem sabiam o que era um festival se entusiasmaram para, quem sabe, no próximo ano participarem como competidores”, afirmou Fidélis Mangueira, gestor cultural.
Etapa final
A grande final do Festival de Música da Paraíba acontecerá no próximo sábado, dia 30 de maio, no Teatro de Arena do Espaço Cultural José Lins do Rego, em João Pessoa. Na ocasião, os 14 finalistas apresentarão suas músicas mais uma vez. A noite também reservará uma homenagem à compositora Cecéu. O evento terá transmissão ao vivo pela Rádio Tabajara FM, além dos canais do Youtube da Tabajara, Funesc e TV Assembleia.
Após a divulgação do resultado e das homenagens, a banda Os Fulano se apresentará no palco no palco do Espaço Cultural.
Este ano, o FMPB premiará o primeiro lugar com R$ 10 mil, R$ 7 mil para o segundo, R$ 5 mil para o terceiro classificado. Também será reconhecido o melhor intérprete, que receberá R$ 3 mil e a canção vencedora do júri popular, garantirá um prêmio de R$ 5 mil.
As selecionadas para a final são:
- “A Saída Perfeita” (Lily Sanfoneira, Guga Limeira, Ely Porto e Hélio Geovanni) interpretada por Lily Sanfoneira
- “Abstinência” (Andrei Lira e Iann), interpretada por Andrei Lira, Iann, Diogo Rodrigues e Arthur Vinícius;
- “Filho do Sertão” (Heitor Loureiro), interpretada por Heitor Loureiro e Raul Hendrix;
- “Jacumã” (Gaby Hardman), interpretada por Gaby Hardman
- “Manifesto” (M.a.r.i.a),interpretação de M.a.r.i.a;
- “Tudo Pode Acontecer” (Pedro Francisco), interpretada por Igor Tadeu;
- “Viva a Arte, Salve Artista” (Will Cor), interpretada por Will Cor;
- “Caatinga” (RobSom MC), interpretação de RobSom MC;
- “Coragem de Viver” (Sofia Gayoso), interpretada por Sarah Soul;
- “Dia de Feira” (Salvador di Alcântara), interpretação de Salvador di Alcântara
- “Jamais vão acabar com o Forró no meu São João” (Bibiu do Jatobá), interpretação de Bibiu do Jatobá;
- “Quem Vive Diz” (Yuri Gonzaga e Carlos Mendonça), interpretada por Yuri Gonzaga;
- “Receita de um Forró” (Ananias do Acordeon), interpretada por Ananias do Acordeon
- “Relampeou no Sertão” (Cecília Albuquerque e Ana Wal), interpretação de Cecília Albuquerque e Ana Wal.
Através deste link, vote para definir a canção campeã
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 26 de maio de 2026.