O cineasta João Wainer é torcedor do Santos. Mas ser um apoiador do time em que jogou o maior de todos, Pelé, não o impede de reconhecer a grandeza de outro gênio, jogador-símbolo de um rival. “Eu nasci em 1976. E então, quando eu comecei a gostar de futebol, na era pós-Pelé, o Zico foi o maior cara que eu vi jogar”, diz. “Sou santista e também sou ziqueense, que eu acho que é uma categoria que tá acima de clube, acima de rivalidade”. É com essa perspectiva que ele dirigiu Zico, o samurai de Quintino, documentário que estreia hoje nos cinemas brasileiros (na Paraíba, será exibido em salas de João Pessoa, Patos e Guarabira).
“Eu acho que esse poderia ser um filme que ia funcionar pros flamenguistas, para a nação, que é gigantesca, e já seria ótimo”, conta, em conversa com A União. “Mas a gente queria fazer um filme que funcionasse também para quem não é flamenguista, também para quem não gosta de futebol. E um filme sobre um cara, um filme sobre o Zico”.
Para ele, isso tem funcionado por contar uma história universal. “É sobre um ser humano, sobre um cara com seus conflitos. Seus dramas, suas vitórias, seu talento. A maneira com que ele administrava tudo, como ele administrava a vida, como ele olhava para a vida”, explica.

- Cenário criado pela direção de arte provoca memórias e filme dá a importância devida a Sandra, esposa do craque | Fotos: Pedro Curi/Divulgação
O título é revelador ao unir a origem de Arthur Antunes Coimbra, no bairro carioca de Quintino, e seu grande feito do fim da carreira, ao praticamente refundar o futebol no Japão, ao levar profissionalismo junto do seu talento quando foi jogar no país asiático. Entre essas duas pontas, ele se consagrou como o maior jogador da história do Flamengo e maior goleador do Maracanã, entre outras conquistas.
O respeito aos colegas e ao torcedor são marcas que perpassam pelo filme. “Na primeira frase do filme, o Zico fala o seguinte: ‘Eu tô há 60 anos no futebol e eu nunca perdi um voo, nunca perdi um ônibus’. Eu acho que essa frase diz mais sobre o Zico e sobre o que eu quero falar no filme do que se fosse uma frase relacionada ao esporte diretamente, sabe?”, opina o diretor. “Quando o cara fala que, em 60 anos de futebol, ele tem orgulho de nunca ter perdido um ônibus, isso mostra o tamanho do comprometimento que ele tem com a profissão dele, o tamanho do respeito que ele tem com os companheiros dele, com a equipe dele, com o contratante dele. Enfim, para a lealdade, para o trabalho”.
Mas, para os amantes do futebol bem jogado, há muito com o que se deleitar. O filme conta com muitas cenas dos grandes momentos de Zico em campo, com imagens impressionantemente nítidas para a tela grande. “Hoje em dia, com a tecnologia, a gente consegue fazer upscale de imagem: você pega uma imagem que é SD, que tem aquela resolução mais baixa, que é a imagem que se trabalhava na TV nos anos 1980, 1990, e transforma ela em 4K, usando IA. Sem alterar nada, obviamente. Você só faz um upscale, deixa ela maior. As imagens do Canal 100 nem se fala, né? 35 mm, então, é coisa linda”, explica, referindo-se ao cinejornal que exibia lances do futebol brasileiro nos cinemas de 1957 a 2000, referência eterna de como se filmar futebol.

Além das imagens de TV do Canal 100, entram em cena registros em super-8 e em VHS da vida pessoal do craque, diretamente dos arquivos da família. Isso ajuda o filme a dar um destaque merecido a Sandra, esposa de Zico desde o começo dos anos 1970 e sua namorada dos tempos de Quintino.
“A gente começou a fazer o filme e na pesquisa a gente percebeu que a Sandra nunca tinha sido entrevistado direito, sabe?”, diz. “Uma entrevista em que você senta e conversa, sempre era ‘quebra-queixo’, aquela coisa um pouco mais rápida. Quando a gente sentou com a Sandra, a gente entendeu como o olhar da Sandra trazia um frescor muito grande para essa história. Porque ela viu tudo de dentro, né? Então o Zico é aquele super-herói, aquele ídolo de todos, que parece infalível, imbatível e tal, mas, através da Sandra, a gente conseguiu entender os conflitos internos do Zico, as questões pessoais que ele tinha. E eu acho que isso traz uma perspectiva nova para um ídolo. Não haveria Zico sem a Sandra”.
O filme evitou as entrevistas tradicionais e apostou em provocar conversas mais informais entre personagens importantes da história de Zico. “A gente chegou na casa dele e percebeu que o Zico guarda tudo, absolutamente tudo: todas as camisas, de todas as copas, todas as flâmulas, todos os troféus, todos os prêmios, todos os presentes que ele ganhava, todos os recortes de jornal, todas as matérias, todas as fitas. Eles gravavam tudo. A Sandra tinha essa obsessão de gravar tudo da TV”, conta o diretor. “Aí, quando a gente viu aquele acervo maravilhoso lá, pediu autorização e contratou um grupo de museólogos. A gente catalogou absolutamente tudo que tem nesse acervo do Zico”.
A produção, então, alugou uma outra casa do lado da casa de Zico e montou um cenário com o acervo, sob a direção de arte de Cláudio Amaral Peixoto. Ali, personagens como o radialista José Carlos Araújo, o jornalista Mauro Beting e o ex--jogador Junior, entre outros, ficaram “expostos” a lembranças provocadas pelos objetos. “A gente botava os objetos como se eles fossem gatilhos para lembrar das histórias. É quase como se os objetos fossem perguntas, sabe?”, revela.
Divididos em “mesas temáticas” (Flamengo, Seleção, Japão, vida familiar, jornalistas), eles ajudam a contar a histórias de um dos mais talentosos jogadores de futebol de todos os tempos. Uma história que merece uma tela de grandeza equivalente.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 30 de abril de 2026.