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Descontração entre amigos

publicado: 09/01/2026 09h03, última modificação: 09/01/2026 09h03
João Gomes, Mestrinho e Jota.pê apresentam hoje, em Cabedelo, o show do premiado projeto “Dominguinho”
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À frente, o trio principal de “Dominguinho”: Jota.pê, João Gomes e Mestrinho mostram grande entrosamento | Foto: Kaio Cards/Divulgação

por Esmejoano Lincol*

O projeto nasceu descontraído, como numa celebração entre amigos, que reúnem-se para cantar ao som do violão. Mas o que alicerça Dominguinho, nome do disco e da série de apresentações de João Gomes, Jota.pê e Mestrinho, além do carisma do trio, é o profissionalismo que cerca a empreitada, vencedora do Grammy Latino 2025, na categoria Álbum de Raízes em Língua Portuguesa. Somando milhões de ouvintes nas plataformas e arrastando fãs pelos palcos brasileiros, os artistas encontram-se hoje com o público paraibano: o show acontece às 19h, na Arena Verão Lovina, situada em Ponta de Campina, Cabedelo. Os ingressos estão à venda no site Bilheteria Digital e custam R$ 882 (inteira), R$ 451 + 1 kg de alimento não perecível (social) e R$ 441 (meia).

O repertório tem faixas conhecidas e distintas, que vão de “Pontes indestrutíveis”, do Charlie Brown Jr., a “Mala e cuia”, de Enok Virgulino e Flávio Leandro, gravada por Flávio José, passando, ainda, por músicas autorais dos intérpretes (“Meu bem” e “Lenda”). E o nome do projeto, como bem se vê, presta tributo ao astro Dominguinhos (1941–2013).

A intenção inicial dos três era de um EP com cinco músicas, gravadas no Sítio Histórico de Olinda, em Pernambuco, e com ambientação acústica, mas o entrosamento ampliou esse número para 12. O lançamento nas plataformas foi em abril do ano passado, com repercussão positiva, rendendo, por fim, a turnê que cruza o país desde maio de 2025.

Música no sangue

Mestrinho confirma: “O projeto é exatamente isso: um rolê de amigos tocando, que acabou virando um disco”. Natural de Sergipe, ele vem de uma família de músicos, o que facilitou o aprendizado da sanfona, instrumento que toca desde os seis anos. Na adolescência, começou a fazer testes para bandas locais e, antes de atingir a maioridade, transferiu-se para São Paulo. 

Na capital paulista, deu vazão à sua empreitada solo com o Trio Juriti, ao lado da irmã Thaís Nogueira. Mas sua vida mudou para valer ao conhecer Dominguinhos, sua inspiração perene e de quem recebeu convite para integrar sua banda. Após alguns anos, decidiu investir noutras colaborações, dentre elas Elba Ramalho, Hermeto Pascoal e Ivete Sangalo.

A carreira solo iniciou de fato em 2014, com estreia do disco Opinião, cheio de composições autorais e a participação de Gilberto Gil na faixa “Superar”. Depois deste, seguiram-se mais CDs solo, além de Mariana e Mestrinho — este ao lado da paulista Mariana Aydar, lançado em 2024. Seu projeto fonográfico mais recente é, justamente, Dominguinho.

“O álbum é somente um ponto de partida. No palco, a gente expande, brinca, improvisa, traz músicas que dialogam com a nossa história e com o público. Entram canções que fazem parte da nossa formação musical, algumas releituras e surpresas que não estão nas plataformas, justamente para tornar cada apresentação única”, afirma Mestrinho para A União.

Jota.pê atesta: “O disco foge um pouco do que as pessoas estavam acostumadas a ouvir de mim”. Nascido em Osasco, Região Metropolitana de São Paulo, o artista também carrega a música no sangue — o avô, o pai e o tio foram membros de bandas. Seu primeiro emprego foi como jovem aprendiz numa fábrica de cajón, um instrumento de percussão.

Depois dessa experiência, a arte não saiu mais de seu horizonte profissional. Em 2017, inscreveu-se, sem muitas expectativas, para o The Voice Brasil. Foi selecionado e competiu por algumas semanas no time de Lulu Santos. Não chegou à final, mas seu desempenho chamou a atenção e garantiu, anos mais tarde, um contrato com a Som Livre.

Em 2021, Jota.pê uniu-se a Bruna Black para compor o duo Avuá, que mantém junto à carreira solo (esta deslanchou com o disco Se o Meu Peito Fosse o Mundo, de 2024 e com sonoridade mais pop, como na canção “Ouro marrom”). O trabalho foi laureado com três Grammys Latinos, meses depois. Em 2025, Dominguinho rendeu-lhe mais um troféu.

“Ganhar com um trabalho colaborativo tem um peso muito especial. Mesmo tendo outros prêmios no currículo, cada um tem uma história diferente. Este último celebra o coletivo, a escuta, o respeito entre artistas de universos distintos. É um reconhecimento que valida o risco, a coragem de criar a partir do afeto”, analisa o artista, em conversa com A União.

Turnê internacional

João Gomes, ao refletir sobre o álbum e a constância de suas raízes, arremata: “A música nordestina fala de sentimento, e eu acredito muito que isso atravessa fronteiras”. Tendo como berço o município de Serrita, no interior do estado de Pernambuco, ele mesmo pôde a cruzar territórios, tornando-se, atualmente, um dos intérpretes mais populares do Brasil.

Pertencente a uma geração mais conectada, começou a divulgar o seu trabalho como cantor em suas redes sociais, na adolescência. Mais tarde, alcançou êxito tanto com suas canções autorais, quanto por suas versões de faixas famosas da MPB, repaginadas com arranjos no estilo “piseiro” e com sua voz característica, que emula elementos da vaquejada. 

O segundo semestre de 2025 revelou-se ainda mais profícuo. Além de Dominguinho, ele foi um dos artistas selecionados para a primeira temporada do Tiny Desk Brasil, versão nacional de um projeto audiovisual estadunidense. Em dezembro, foi eleito o artista do ano pelo Prêmio Multishow e participou, ainda, do especial de fim de ano de Roberto Carlos.

“Vivi coisas que nem sonhava: subir em palcos gigantes, chegar a lugares tão diferentes, gravar discos que carregam a minha verdade. Mas, para mim, a maior conquista é poder viver da música sem perder quem eu sou, ver minha família orgulhosa e sentir o carinho do povo. Isso não tem prêmio que pague”, assevera João, nesta entrevista para A União.

No fim do ano passado, Dominguinho também foi laureado no Prêmio Multishow em quatro categorias, incluindo Álbum do Ano. O trio pretende continuar com os shows em conjunto, paralelamente às apresentações solo. E a partir de março, eles cumprem agenda fora do país: estão previstas apresentações na Espanha, França, Holanda e Suíça.

Celebrando as aproximações e as diferenças entre suas trajetórias pessoais e musicais, os colegas concluem a entrevista destacando aquilo que mais apreciam uns nos outros, dentro e fora dos palcos. “Admiro muito a verdade de João, que vem do coração e que chega direto nas pessoas. E de Jota.pê, a sensibilidade e o cuidado com cada detalhe”, resume Mestrinho.

“Estimo essa conexão imediata que João tem com o público e com a própria história. E estar com Mestrinho é uma aula constante, de musicalidade, generosidade. Estar com eles em cena é aprendizado puro. A vontade de continuar juntos existe, sim. Quando a parceria é sincera e o processo é leve, o desejo por trabalhos surge naturalmente”, certifica Jota.pê.

“Esse show nasceu do respeito e da amizade. Jota tem uma entrega muito verdadeira, uma forma de cantar que emociona. E Mestrinho é um gênio que carrega uma bagagem enorme e uma humildade gigante. Estou muito feliz de levar o Dominguinho para outros cantos do mundo. E só de pensar já dá um frio bom na barriga!”, conclui João.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 09 de janeiro de 2026.