No sistema decimal dos fabricantes de computadores, um giga (byte) é unidade de medida informacional que equivale a mais de mil megabytes de memória, o mesmo que dizer um bilhão de bytes. Mas no contexto artístico paraibano, o termo “giga” ganha outros contornos e padrões de medida criativa, personificado no codinome do multiartista Giga Brow, que, alcançando mais de três décadas de produção, propõe a mostra individual Memórias de 1Giga: 32 anos de artes visuais. Com curadoria de Ricardo Peixoto, a exposição, que inclui pinturas em acrílico, aquarelas, cerâmicas, esculturas, grafites e registros audiovisuais, segue em cartaz na Galeria Alexandre Filho da Usina Cultural Energisa, em Tambiá (JP) até o dia 1º de novembro. A visitação é gratuita, de terça-feira a domingo, das 9h30 às 18h.
O conjunto das obras em exposição integra a programação de outubro do Viva Usina, projeto cultural realizado no equipamento da Energisa — nos fins de semana em que ocorrem o evento, o espaço fica aberto até as 22h. Como explícito no título, a mostra dá conta da historicidade da produção de Giga Brow, contemplando fases, técnicas e linguagens diversas de sua estrada com as artes. Mormente vinculada aos motivos da memória, da cultura popular e da identidade regional, a veia do expositor está arraigada nos princípios da tradição naïf, servindo-se de vívida paleta cromática em experiências imersivas que se acumulam ao longo do tempo.
Neste ano, Aginaldo Pereira Wanderley, o Giga Brow, completou 50 anos, e foi justo a data redonda um dos motivos que o levaram a montar a exposição. Diante de tantas linguagens e técnicas empreendidas, o artífice atribui ao tempo o papel de mentor dialogal do seu saber fazer: “Com o tempo, a gente vai adquirindo técnicas e vai mudando. Eu saí do grafite, comecei a fazer uma pesquisa com cerâmica. Aí, faço grafite, trabalho com a arte naïf em tela, e assim vai”.
“Fiquei muito feliz e muito encantado em poder participar desse processo de construção dessa exposição de Giga Brow e poder estar acompanhando toda essa trajetória de perto desde o início até os dias de hoje”, afirma Ricardo Peixoto. “Quando ele me fez o convite para falar um pouco sobre essa jornada, essa caminhada, eu me senti à vontade para narrar do ponto de vista dos sentimentos, das emoções, das experiências juntos, dos aprendizados construídos e das aventuras maravilhosas que passamos”.
Para o curador, delimitar o recorte expográfico à linha do tempo de alguém que devota sua vida à arte, permitiu-lhe perfilar a completa evolução do artista: “Tanto na parte técnica, conceitual, quanto nas propostas, da linguagem em si que se expande, buscando suportes, formas, cores, elementos, ciclos e fases. A exposição é um pouco disso, transita no universo do primitivismo, na parte cinematográfica, na parte do grafite que é a primeira escola dele, do desenho, da pintura e traça um panorama dessa relação que ele tem com a música, com outros artistas de outras linguagens”.
Gigas de arte
Autodidata, Giga Brow começou a fazer arte em meados da década de 1990, ao desenvolver trabalhos no campo da arte urbana, pintura, produção multimídia e projetos comunitários em arte-educação. “É um lugar que ele conhece muito bem; transita com muita responsabilidade e compromisso”, atesta Peixoto. Nascido e criado em João Pessoa, combinando o uso de rolinho, tinta látex, spray e pigmentos a fim de imprimir a mensagem certa, Giga Brow deixou marcas indeléveis nos muros da capital no decurso de décadas.
Frases de impacto também eram bastante comuns e acompanhavam os personagens dos murais que desenhava nos idos de 2008, como registrado em vídeo no projeto Graffiti: visualidades urbanas, realizado pelo professor Pedro Nunes — “Cuidado com os homens de gravata e arte que ninguém vê” ou “Comida de graça deixa a gente sem pensar” eram duas delas.
“Grafite é união, é amor, é alegria, é intervenção urbana, é memória pública”, declara Giga Brow no vídeo. “É uma das expressões mais antigas que existem, como as pinturas rupestres. Aquilo ali foi os primeiros grafiteiros que passaram aqui na Terra”.
“Com uns 20 e poucos anos, eu comecei a participar de exposição com o Sebo Cultural, no Mosteiro de São Francisco. Aí, a partir dali, nunca mais parei. Tive uma loja, fiquei funcionando com loja para atender o povo, fazer camisa, faixa e fazendo tela. E assim foi que entrei para o grafite”, lembra Aginaldo. “Aí, hoje, eu tenho uma experiência com a cerâmica, fui para o quilombo Os Rufinos, conversei com o Mestre Zé Grande, o Zé me passou muita coisa que ele sabe”.
Ao retornar da comunidade quilombola, Giga Brow aperfeiçoou o trabalho com a cerâmica, o grafite e as pinturas em aquarela, acrílico e a óleo, o que ora oferta à visada do público na exposição. “Eu pinto muito as coisas do nosso Nordeste. As referências de bumba meu boi, do cavalo-marinho, o jaraguá, o palhaço Mateus, o mestre Ambrósio. E assim eu vou bebendo dessas vertentes”, comenta ao citar o artista visual paraibano Alexandre Filho como uma de suas principais referências na arte naïf.
O artista, que viveu por muito tempo no bairro pessoense da Torre, esclarece que oscila entre temporadas por João Pessoa e Rio Grande do Norte, principalmente na Praia de Pipa, onde pretende fixar um novo ateliê. Por hora, as mais de 40 peças expostas advêm do estúdio que mantém no bairro do Bessa.
Na linguagem audiovisual, Giga foi responsável pela direção de arte de videoclipes de bandas locais, a exemplo de Seu Pereira e Coletivo 401 e Macumbia, além de ter participado de filmes como Batguano (2014), de Tavinho Teixeira, e A felicidade dos peixes (2011) e O matador de ratos (2013), ambos de Arthur Lins.
“O Giga é um artista pulsante, atuante, militante, ideologicamente anarquista de vanguarda que a gente tem em nossa cidade, em nosso estado, na cena brasileira. É muito bom poder falar com muita propriedade do crescimento do ser humano enquanto ser de luz, ser amigo, enquanto parceiro e cúmplice de transformação”, ressalta Ricardo.
Giga Brow, que já ocupou a Usina Cultural Energisa com mostras em outras ocasiões, adianta estar reunindo a totalidade de seu acervo no decorrer da trajetória para montar uma próxima exposição, intitulada Memórias enérgicas. Sobre o futuro de sua arte, ele atenta para a emergência temática da inteligência artificial, dotada de pouquíssima capacidade quando o assunto é engenho e verve criadora: “Agora a gente tá com a IA. Eu tô estudando uma IA que vai facilitar para algumas coisas, sabe? Para uma pesquisa, para alguma coisa, vale. Mas ela nunca vai substituir a gente, é ‘burrinha’ ainda. Eu sou ainda mais rápido. Dá mais resultado que IA”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 21 de outubro de 2026.
