O filme que dá título ao cineclube da Fundação Casa de José Américo (FCJA), em João Pessoa, tem como personagem principal, não por acaso, o autor do clássico A bagaceira – que, por sua vez, também empresta seu nome à instituição, erguida na edificação que um dia lhe serviu de morada. Os últimos anos de vida do ex-ministro e ex-governador, bem como o seu legado para a cultura do nosso país, foram documentados pelo cineasta Vladimir Carvalho nesse importante longa-metragem. Mais de quatro décadas depois de sua estréia, O homem de areia, ganhará uma sessão comentada e gratuita amanhã, às 19h, na sede da FCJA, situada na orla de Cabo Branco, na capital. O debate será mediado pelo pesquisador João de Lima.
Partindo das imagens do sepultamento de Zé Américo, em março de 1980, o filme de Vladimir remontou a história do político e literato desde o seu nascimento, no município de Areia, Brejo paraibano. Parte do roteiro contou com textos narrados pelos atores Mário Lago e Fernanda Montenegro. Já as imagens captadas pelo diretor, anos antes da partida do chamado “Solitário de Tambaú”, registraram, ainda, momentos relevantes de sua vida pública, como a visita dos autores Jorge Amado e Zélia Gattai e o do xilogravurista Calazans Neto. Amado assinalou em depoimento a influência de A bagaceira no seu romance Cacau (1933).
As entrevistas com Zé Américo, concedidas em 1978, foram conduzidas por Adalberto Barreto, Gonzaga Rodrigues, Natael Alves, W.J. Solha e Otto Lara Rezende. Um dos temas escrutinados nessas sequências é a Revolta de Princesa Isabel, na década de 1930, levante do coronel José Pereira Lima contra o estado. “Fomos amigos, posso dizer muitos chegados”, disse, sobre a relação com o líder da revolução. Outro tópico explorado é o acidente aéreo que ele sofreu em 1932, ano que em que estava à frente do Ministério da Viação e Obras Públicas no governo Getúlio Vargas, e que causou o falecimento do então interventor paraibano Antenor Navarro: “Caí no fundo do mar sem saber nadar”, apontou o sobrevivente.
A fotografia de O homem de areia foi assinada por Walter Carvalho, irmão de Vladimir. Em reportagem publicada no suplemento Correio das artes, há pouco mais de um ano, o artista asseverou que esse trabalho representou um retorno importante à terra natal, depois de uma sequência de trabalhos no Sudeste: “Eu posso dizer que, neste momento, eu fiz cinema na Paraíba”. Já o próprio Vladimir recordou para A União, em 2021, os desafios da produção, nas cenas externas do documentário: “Consegui que a Avenida Cabo Branco, que passa em frente à casa de José Américo, fosse interditada, com o objetivo de evitar o barulho que o trânsito de carros causaria, pois os gravadores não contavam com a tecnologia de hoje”.
Na mesma matéria, assinada pelo jornalista Guilherme Cabral, Vladimir (morto em outubro de 2024) lembrou que a idéia desse documentário veio da admiração que sua família sempre nutriu por Zé Américo. O primeiro encontro havia sido duas décadas antes, quando recebeu a incumbência de entrevistá-lo para o Correio da Paraíba, em substituição a outro colega. “Ele me recebeu de paletó, foi logo falando e eu tomando notas num bloco. No final, José Américo pediu que eu lesse o que havia anotado. Tremi nas pernas, mas consegui ler meus garranchos e rubricou folha por folha. Na volta para o jornal, Eurípedes [Gadelha] fez o copidesque e até hoje me arrependo por não ter guardado aquilo”, lamentou.
Outro dos problemas que teve de contornar foi com o regime militar brasileiro, ainda em voga na época. Durante a pré-produção, pessoas próximas teriam advertido a família Américo sobre o caráter “esquerdista” de Vladimir Carvalho, censurado anteriormente por outro documentário, O país de São Saruê. O general Reinaldo de Almeida, filho de Zé Américo, tentou apreender o roteiro do longa, mas foi impedido por Roberto Farias, então presidente da Embrafilme: “Farias teve uma reação extraordinária, corajosa e à altura, ao dizer que só recebia ordens do seu superior, o ministro da Educação, e não entregou o roteiro”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 07 de abril de 2026.