Mesmo tendo sido a precursora do trio elétrico nos anos 1940, João Pessoa chegou a ser vendida em pacotes de turismo no ano de 1983 como a única capital do Brasil onde não se brincava o Carnaval. Isso se deu em função de uma lei, de fins da década de 1970, que proibia o desfile em carro aberto, o chamado “corso carnavalesco”. Quem conta essas e outras histórias é o fundador do bloco Muriçocas do Miramar, o Mestre Fuba, em seu livro A Celebração da Alegria – 40 Anos de Muriçocas (Editora A União, 248 páginas), a ser lançado no domingo (1º), às 17h, na Sala Vladimir Carvalho da Usina Cultural Energisa, em Tambiá. O lançamento integra a programação da segunda edição da Usina de Verão, que se inicia hoje à tarde no local (e vai até o domingo), com entrada gratuita todos os dias.
As atrações começam a partir das 16h, com a Feira Analógica, segmento voltado para o contato com objetos da chamada cultura analógica, tais como discos, CDs e brinquedos — a feira segue até domingo. Sobem ao palco, hoje, Seu Zé Quer Coco (18h), Furmiga Dub (19h30) e o Baile Charme (21h). O DJ Yuri Ymuan abre os trabalhos de amanhã, a partir das 17h, seguido por Meire Lima e Helayne Cristini (às 19h) e uma roda de samba com Os Mulatos (21h).
No domingo, logo após o lançamento do livro, as tradições populares afro-brasileiras encampam na Usina às 17h30, puxando o cortejo do público ao som de muito maracatu à Tenda da Música, onde a Orquestra Pop Frevo e Fuba fazem o esquenta festivo da folia — a orquestra e o mestre também tocam amanhã, às 17h, no especial de Carnaval Muriçocas do Miramar — Esquenta pros 40, na Cidade da Imagem Conventinho, no Centro Histórico.
Verão festivo
A supervisora cultural do Instituto Energisa e curadora do Usina de Verão, Janaina Quetzal, afirma que o desenho curatorial do evento articula memória, território e festa, com a promoção de encontros entre diferentes públicos e linguagens artísticas.
“O Usina de Verão nasce do desejo de celebrar o verão paraibano, um período marcado por intensa movimentação cultural, férias, festividades populares e pelo clima de Carnaval”, diz ela. “A curadoria do Usina de Verão foi organizada como um percurso ao longo dos três dias de programação: iniciando com referências à ancestralidade, à cultura popular e às experimentações contemporâneas; passando pelo samba, pelas sonoridades da diáspora africana e pelo protagonismo feminino; e culminando no carnaval como momento máximo de celebração coletiva, com cortejo, frevo e manifestações da cultura popular” enfatiza.
Composto por 10 integrantes, entre produção, design, assessoria de comunicação, cenografia e colaboradores, o Baile Charme conta com três DJs residentes — Acarajow, Parajeau e Subzero. Jô Pontes, a DJ Acarajow, à frente da concepção do baile, explica que essa é a segunda edição do Baile Charme — a primeira vez aconteceu na Cachaçaria Philipéia, surtindo grande adesão.
“Os DJs vão apresentar um set com muita black music, sobretudo soul, funk, R&B, pop, hip hop e a energia é muito da galera que chega para dançar, para juntar, para estar na pista juntando dança e moda”, ressalta a artista.
Já no show Canto de Raça, Meire Lima e Helayne Cristini evocam a potência clássica das bambas Dona Ivone Lara (1921-2018), Clementina de Jesus (1901-1987) e Clara Nunes (1942-1983). “Vamos fazer um show de samba homenageando compositores paraibanos, a mulherada tradicional do samba e, principalmente, com a temática preta, já que a gente lida com uma herança cultural negra, que é o samba”, adianta Helayne.
Durante os três dias de evento, sempre a partir das 19h, os VJs Chico Abreu, Metralha, Rieg e Janaína Quetzal realizarão projeções audiovisuais na área Tenda.
40 anos de coça-coça
Em A Celebração da Alegria – 40 Anos de Muriçocas, Fuba resgata não apenas as histórias do bloco do “coça-coça”, mas lança luz sobre outros carnavais.
“O Carnaval está presente desde o século 15 em vários países, praticamente no mundo inteiro, principalmente na Europa”, atesta o autor. “O Brasil era conhecido como a terra do Carnaval exatamente por causa da música. A música foi que trouxe o diferencial do Brasil, trouxe essa plasticidade inovadora ao Carnaval. Nos carnavais da França, da Itália, de Portugal, as pessoas se fantasiam e saem pelas ruas, não existe a musicalidade que existe aqui em nosso Carnaval. E a gente tem um diferencial grande, porque cada região tem a sua identidade musical”, explica Fuba, enumerando o samba no Rio de Janeiro e em São Paulo, a percussividade ímpar da axé-music baiana e o frevo recifense.
Partindo da primeira canção de Carnaval, “Ó, abre alas”, composta no fim do século 19 por Chiquinha Gonzaga, a obra — que vem prefaciada por outro grande artífice da folia de rua, o cantor e compositor pernambucano Alceu Valença —, sobe e desce as ladeiras da festa histórica enfatizando o surgimento dos vários ritmos que foram incorporados ao Carnaval, atenta, inclusive, às expressões de ordem popular, a exemplo do maracatu de baque solto e de baque virado.
Adiante, o Carnaval da Paraíba coloca os blocos na rua, exercício de pesquisa no qual Fuba passa em revista as agremiações do estado desde os anos 1930. “Tudo isso eu retrato, e digo mais: que entre os anos 1960 até meados de 1970, João Pessoa teve, talvez, o melhor carnaval do Nordeste, por conta do corso e por conta da disputa dos dois principais clubes — Astréa e Cabo Branco”.
E, claro, as Muriçocas do Miramar zunem às páginas em inúmeras lembranças — são vários os episódios narrados e que, segundo Fuba, pouca gente sabe. Uma delas remonta ao terceiro ano do bloco, quando um morador do bairro de Tambaú, que não admitia a passagem do trio elétrico na frente de sua casa, ameaçou — cumprindo o intento — atirar contra a alegria.
“Tinha uns encapuzados que quebraram a grade do trio e jogaram areia no gerador. Desligou o som, mas lá embaixo tinha um trio da Brahma esperando a gente, que continuou o percurso. E quando passamos em frente à casa do morador, mesmo com o trio elétrico desligado, ele fez o que ele tinha prometido. Tirou o revólver, deu um tiro para cima e outro dirigido a meu trio”, rememora.
Transtornos à parte, as Muriçocas do Miramar seguiram firme com seu zum--zum-zum de novo na avenida, e hoje, ao completar 40 anos de realização celebrados em publicação que resgata seus melhores momentos, retoma o fôlego para continuar pulsando forte o compasso da folia.
Por falar nisso, variações comemorativas do hino carnavalesco do bloco foram agora gravadas por Fuba e estarão à disposição do leitor via QR Code no interior da obra. “O livro tem a conotação biográfica, porque eu conto um pouco da minha vida, tem o caráter jornalístico, didático e histórico. Mas eu ainda vou acrescentar muita coisa que ainda não disse”, entoa Fuba, já prenunciando uma próxima edição.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 30 de janeiro de 2025.
