O trabalho de escalação do elenco de O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, foi reconhecido como uma das quatro indicações do filme ao Oscar (além de Filme, Ator e Filme Internacional). O nomeado é, especificamente, o fluminense Gabriel Domingues. Mas, resguardado o mérito de Domingues, os profissionais que dão vida aos perfis criados por Mendonça Filho de fato merecem crédito. E pelo menos oito deles são paraibanos: Beto Quirino, Buda Lira, Cely Farias, Fafá Dantas, Flávio Melo, Joálisson Cunha, Márcio de Paula e Suzy Lopes.
Márcio dá vida a um dos policiais que aborda Marcelo (Wagner Moura) na primeira sequência do longa; o segundo oficial é o alagoano Albert Tenório, que conversou com A União no último dia 11. O convite para O Agente Secreto veio por meio da agência à qual o paraibano é vinculado e o primeiro teste foi com um vídeo gravado em casa.

- MÁRCIO DE PAULA é um dos policiais rodoviários que interpelam Marcelo no começo do filme e pede uma “colaboração”
“Depois a gente foi até Recife. Foi muito bacana, era uma equipe bem estruturada, sabendo o que queria, e Wagner superempenhado e doador na cena. Foram três ou quatro dias de preparação. E outros quatro para filmar. Eu sempre dizia que queria trabalhar com Kleber Mendonça Filho depois que assisti Bacurau”, resume Márcio.
Ele é ator desde a juventude: em meados dos anos 1990, integrando o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua, deu seus primeiros passos no teatro. O trabalho no audiovisual é mais recente e deu- -se em participações em programas educativos da TV UFPB. Angariou mais tarde papéis em filmes dos realizadores Diego Lima e Tadeu de Brito.
Um projeto futuro que Márcio de Paula acalenta é Deus Ainda É Brasileiro, longa inédito de Cacá Diegues, sequência de Deus É Brasileiro (2003). Mas, apesar do empenho e da paixão pelos palcos e pelas telas, ele ainda não consegue viver exclusivamente da arte.
“Estou trabalhando como servente de pedreiro. Não fui hoje, porque me acidentei de moto. Estou aqui, de repouso, mas nada grave. Vou me recuperar”, almeja.
Pregando o “Apocalipse“
Na mesma sequência em que Márcio aparece, ambientada num posto de gasolina, além do cadáver que “aguarda” ser retirado pela polícia científica (“papel” do figurante Lucas Pontes, outro paraibano), está o personagem de Joálisson Cunha, o frentista que recepciona o protagonista em Recife. O ator havia feito processo de seleção para Bacurau, em 2018.

- JOÁLLISON CUNHA é o frentista que atende Marcelo na sua chegada aos arredores de Recife, dizendo que o corpo estirado no chão não é um problema
“Gabriel Domingues me conheceu nessa seletiva. Depois, em Cangaço Novo [série do Prime] e O Agente Secreto. Primeiro só por telefone, nos comunicando e sabendo um do trabalho do outro. Sempre fui indicado para trabalhos por sua seleção de diretor de elenco. O conheci pessoalmente no Festival de Cannes, em 2025, no lançamento de Agente”, revela.
Joálisson estreou nos palcos há 20 anos, por meio do Grupo Experimental Cena Aberta (Geca). Lançou-se no teatro com espetáculos da Paixão de Cristo, em João Pessoa; já o primeiro contato com o cinema foi no curta O Mundo de Yan, de Niltildes Batista. Nos últimos anos, ele tem ganhado espaço no streaming, como na série Maria e o Cangaço (Disney+).
“O Agente está sendo o meu trabalho com mais repercussão, por todas as questões que o cercam: Kleber Mendonça Filho, Wagner Moura, Cannes, Globo de Ouro, Oscar. Só que ainda sou mais reconhecido pela fama ou por aparecer na mídia. Muita gente sabe de mim não por ter visto meu trabalho, mas porque apareci dando entrevistas. As pessoas não costumam consumir o artista, mas a celebridade que ele se torna”, analisa.
Flávio Melo interpreta um pastor, que prega em frente ao badalado Cine São Luiz no auge, durante os anos 1970. Nessa sequência, Marcelo chega para falar com seu sogro, o projecionista Alexandre (Carlos Francisco), durante uma agitada matinê do terror A Profecia.
“Até que Marcelo se depara com uma mulher em surto, que está saindo da plateia. Minha aparição é muito rápida, mas muito boa. Foi muito legal aquela caracterização dos anos 1970. Eu me senti fazendo um teatro de rua, porque você está no meio de mais ou menos 150 figurantes, carros antigos passando... e eu esbravejando um texto do ‘Apocalipse’”, detalha.
No cinema, a primeira experiência foi em O Plano do Cachorro, de Arthur Lins, dividindo cenas com Nanego Lira. Mas, ao todo, são mais de 40 anos de profissão, como ator, diretor e iluminador teatral. Chegou a residir em São Paulo, nos anos 2000, onde fez curso do dramaturgo Antunes Filho. Hoje, ele compartilha parte dessas lições como arte-educador.
Assim como Márcio, Flávio também recorre a outros trabalhos para complementar a renda mensal. “Aqui e acolá, você pode se sair bem, mas de repente é muito inconstante. Sou funcionário da Estação Ciência [a Estação Cabo Branco, em João Pessoa]. Estou lá já há 17 anos, faço a iluminação das exposições. Mas sempre há um jeito de ‘ir ali’ fazer filme, treinamento ou um teste. Vou tentando encaixar uma folga, um horário vago, sabe? E acho que dá para conciliar, sim”, atesta.
O gosto pela cena
Beto Quirino empresta corpo e voz para Desidério, guarda que é flagrado numa situação constrangedora em pleno instituto de polícia: “Geralmente sou eu que corre atrás do trabalho, eu não tenho agência. Mas desta vez a produção do filme me telefonou e disse: ‘A gente tem uma participação para você”. Ele acumula quase 50 anos de profissão: sua estreia no audiovisual foi numa ponta no longa 180 Graus (de Eduardo Vaisman, 2010).
“A culpa” da paixão de Beto pelo audiovisual, segundo o próprio, é do pai, que comprou sua primeira televisão — por meio desta, vislumbrou um novo mundo. Mesmo diante das incertezas da profissão, ele diz que não pretende se desligar das atividades artísticas. “Essa profissão é de lascar, porque, quando eu estou correndo atrás de trabalho, o pessoal pensa que eu estou atrás de fama. Eu gosto é de estar em cena. E eu não vou poder parar”, sinaliza.
Nos últimos meses, em entrevistas para os veículos da Empresa Paraibana de Comunicação (EPC), os demais paraibanos do elenco também falaram de sua experiência. Fafá Dantas, intérprete da servente Das Dores, asseverou, em conversa com a Parahyba FM, na semana passada: “Tive a sorte de o próprio Kleber me apresentar a personagem para poder fazer o teste. Foi uma pessoa que passou de fato pela vida dele”.
Suzy Lopes é atriz já com uma carreira de vários longas (como Bacurau) e novelas (como Mar do Sertão). Apesar de assinalar que sua participação no longa é pequena, ela e Fafá estão na foto de divulgação que mais circula nas reportagens sobre o filme. A imagem foi projetada, inclusive, no telão do Globo de Ouro. “Fui testada e deu muito certo tudo o que mentalizei. Quero sempre estar no radar de Kleber, um diretor com quem adoro trabalhar”, disse, em setembro.

- A personagem de Cely Farias é Cleide, madame acusada de ser responsável pela morte do filho da empregada – alusão a uma tragédia real recifense de 2020
Cely Farias, de consistente trajetória no teatro, é Cleide, com que revive, em outra época, um dos casos mais dramáticos da crônica policial recifense: a morte do menino Miguel Otávio Santana da Silva, em 2020, num prédio de alto padrão da capital pernambucana. Quando da estreia do filme em Cannes, em maio do ano passado, a atriz pontuou: “Tive que fazer esse estudo a partir de alguém que existe, mas, ao mesmo tempo, construir a minha versão. E foi incrível”.
Por fim, o experiente Buda Lira, também de vários papéis no cinema, vive o funcionário público Anísio. Ele arrematou, em novembro de 2025, quando do lançamento no Brasil: “É fundamental que os títulos brasileiros produzidos recentemente cheguem a mais brasileiros. E penso que este, a exemplo de outros dirigidos por Kleber, vai fazer bem à nossa cultura, reafirmando a necessidade de investimento nessa ‘indústria do nosso cinema’”.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de janeiro de 2026.

